Sunça no Cinema – Cry Macho: O Caminho para Redenção (2021)

Cry Macho – O Caminho Para a Redenção conta a história de Mike Milo (Clint Eastwood), um ex-astro de rodeio e criador de cavalos fracassado, que, em 1979, aceita uma proposta de trabalho de um ex-chefe para trazer Rafa (Eduardo Minett), o jovem filho desse homem, de volta do México para casa. A dupla improvável enfrenta uma jornada inesperadamente desafiadora, durante a qual o cavaleiro cansado do mundo pode encontrar seu próprio senso de redenção ensinando ao menino o que significa ser um bom homem.

101 min – 2021 – EUA

Dirigido por Clint Eastwood e roteirizado por Nick Schenk, N. Richard Nash (baseado no romance Cry Macho, de N. Richard Nash). Com Clint Eastwood, Dwight Yoakam, Eduardo Minett, Natalia Traven, Fernanda Urrejola, Horacio Garcia Rojas, Alexandra Ruddy, Ana Rey e Paul Lincoln Alay.

Em 1971 Clint Eastwood apresentou seu primeiro trabalho de direção, o longa: “Perversa Paixão”. Cinquenta anos se passaram, e agora, em 2021, Clint aos 91 anos estrela e dirige “Cry Macho: O Caminho para a Redenção”. A obra não esconde a idade de seu protagonista. Ele é um nonagenário e isso dita a narrativa e o ritmo da obra. Não à toa, em determinado momento ele afirma: “Eu não posso curar velhice”. A trama do filme se passa em 1979 e Eastwood é o ex-caubói Mike Milo, que recebe uma missão de um antigo chefe. Essa simples premissa é o que se faz necessário para a construção de uma ponte entre o personagem e a própria vida e carreira do ator. O importante é o debate entre o velho e o novo, a interação entre o mestre e seu aprendiz e a desconstrução da cultura do macho.

Situações, acontecimentos, outros personagens e até seu próprio preparo físico, relembram Mike de sua idade. Assim a obra se coloca como uma vivência cotidiana, um senhor de idade avançada que se vê obrigado a viver novas aventuras e perceber que a vida ainda é repleta de oportunidades. O protagonista é um peão de rodeio aposentado que perde seu atual emprego. Um ano depois recebe de seu ex-chefe, Howard Polk (Dwight Yoakam), a tarefa de buscar seu filho de treze anos no México. O garoto rebelde, Rafo (Eduardo Minett), sofre abusos de sua mãe e o pai o quer de volta. Mike Milo encontra o garoto em uma briga de galos com seu animal campeão nomeado: “Macho”. Os dois partem em uma viagem de volta ao Texas. Mike e Rafo apresentam uma química confortável apesar de o roteiro não entregar profundidade para a relação. 

Durante o percurso os dois se tornam amigos e juntos vivem uma jornada repleta de descobertas. A trama funciona como um faroeste moderno, apesar de não se preocupar em sugerir uma grande importância para seus acontecimentos. Seus planos são claros, limpos e diretos. O ritmo é lento e suas sequências têm mais tempo que o de costume para acontecer. Seus conflitos e momentos dramáticos não recebem destaque e em sua maioria são resolvidos de forma cômica ou anticlimática. Os momentos simples e cotidianos são o que realmente importam e o que nos trazem reflexões. O protagonista está sempre tentando ajudar os demais personagens e aos poucos abraçando as novas oportunidades de uma vida que parecia sem perspectivas.   

A narrativa é simples, conta uma história clichê, com um romance apressado e alguns diálogos expositivos. Porém esses problemas não conseguem tirar o brilho do debate que o diretor propõe sobre a velhice, sua carreira e a desconstrução da masculinidade idealizada. Mike Milo tenta mostrar a Rafo que a ideia de “macho” é uma grande bobagem. Rejeitando os ideais de masculinidade que o próprio Clint Eastwood representou por anos nas telas. Milo percebe que é no cotidiano e na generosidade que se encontra alguma satisfação e alegria.  

“Cry Macho: O Caminho para a Redenção” é a experiência de assistir Clint Eastwood aos 91 anos desconstruir e reconstruir a si mesmo. Não é sobre a proximidade da morte ou sobre o fim da vida. Mas sobre a necessidade de fazer escolhas e tomar decisões. É sobre o dia-a-dia e as oportunidades que ele nunca para de nos oferecer.

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – Cabras da Peste – Netflix (2021)

Na trama, Bruceuilis (Filho) é um policial do interior do Ceará que, para resgatar Celestina, uma cabra considerada patrimônio da cidade, viaja até São Paulo. Lá encontra Trindade (Nachtergaele), um escrivão da polícia que resolve se aventurar em campo, mesmo não sendo sua especialidade. O longa tem o estilo conhecido como buddy cop, mas com um toque à brasileira.

97 min – 2021 – Brasil

Dirigido por Vitor Brandt. Roteirizado por Vitor Brandt e Denis Nielsen. Com Edmilson Filho, Matheus Nachtergaele, Leandro Ramos, Letícia Lima, Juliano Cazarré, Evelyn Castro, Falcão, Rossicléa, Victor Allen, Jéssica Tamochunas, Eyrio Okura, Renan Medeiros, Marianna Armellini, Emerson Ceará, Cristiane Wersom, Bolachinha, Rafael Portugal, Haroldo Guimarães.

Em 2013 o diretor Halder Gomes trouxe uma nova modalidade de comédia para o cinema brasileiro. “Cine Holliúdy” apresentava o humor cearense e trazia brasilidade, uma característica pouco vista em nossas produções. A novidade foi bem sucedida e também pelas mãos de Halder Gomes tivemos em 2016 “O Shaolin do Sertão” e em 2018 a continuação “Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral”. Além do diretor e estilo de humor, todos esses filmes tinham outra peça em comum, o ator Edmilson Filho. Agora em 2021 Edmilson junto com o diretor Vitor Brandt apresentam o encontro do humor cearense com o estilo de filme “buddy cop”. “Cabras da Peste” é uma sátira aos longas policiais que faz referência a vários clássicos do gênero. Parece uma paródia de “Um Tira da Pesada”, trazendo até mesmo uma versão em forró da música de abertura da comédia com o Eddie Murphy. A canção “The Heat Is On” de Glenn Frey se torna “Calor do Cão” na voz de Gaby Amarantos, Junior Groovador e Gustavo Garbato.

Dois policiais com personalidades diferentes e conflitantes são forçados a trabalhar juntos. Uma trama comum mas que traz consigo toda a brasilidade que a cena de abertura do longa nos mostra. Ela cria piadas visuais e apresenta a pequena Guaramobim, cidade natal de Bruceuilis Nonato (Edmilson Filho) o “tira arretado”. Rapidamente também conhecemos Renato Trindade (Matheus Nachtergaele) o “policial de escritório”.  A união dessa dupla improvável, um policial de uma cidade pacata e um policial da capital paulista, tem como estopim o sequestro de uma cabra por um caminhão de rapadura. Uma trama com enorme potencial cômico, que infelizmente, acaba um pouco desperdiçada. O filme não se leva a sério, faz graça com tudo e com todos. Atuações caricatas, muitas coincidências movem o roteiro e frases de efeito que são verdadeiros “trocadilhos de efeito”. O sequestro da cabra se comprova como uma peça de um grande e previsível quebra cabeça. A previsibilidade da narrativa não é necessariamente um problema. O foco é o deboche e a piada. A paródia e a sátira são a principal proposta do longa, e é justamente no excesso delas que encontramos um dos problemas do filme.

Bruceuílis adora os clássicos de ação policial e demonstra um enorme orgulho por seu trabalho e pela pequena cidade de Guaramobim. Edmilson Filho apresenta um policial durão, que é preocupado com seu parceiro e demonstra muito carinho pela Celestina, a cabra. Tem um bom humor físico e é o protagonista das cenas de luta. Trindade, o seu parceiro, é um policial burocrata e medroso que quer impressionar sua chefe Priscila (Letícia Lima). Basicamente essa é a composição que Matheus Nachtergaele apresenta para seu personagem. O elenco conta com talentosos humoristas vindos dos mais variados tipos de humor. Leandro Ramos, Victor Allen, Evelyn Castro, Falcão e Rossicléa são alguns dos nomes que encontramos no elenco. As brigas exageradas merecem destaque Bruceuílis não carrega arma de fogo, o que rende boas piadas como quando encara criminosos armados com uma toalha molhada. O núcleo policial da capitã Priscila é caricato, fazendo muitas piadas e dando alfinetadas no modo de operar da polícia brasileira. Falcão protagoniza o núcleo político e ironiza nosso modo de fazer política e nossos políticos atuais. Alfinetadas bem dadas, mas que não se propõe a uma discussão e/ou debate sobre o tema. Ao longo de todo o filme damos risadas de piadas engraçadas, e algumas nem tão engraçadas assim, que devido ao talento da boa equipe de comediantes são bem sucedidas. Porém, em alguns momentos, incomoda a insistência em um tipo de humor datado, ofensivo e besta. No final da obra piadas recorrentes nos cansam, a trama opta por escolhas fáceis e o exagero do besteirol deixam a experiência desagradável.

“Cabras da Peste” acerta em cheio quando sua trama está na pacata Guaramobim. Esse núcleo é engraçado, besta e apresenta um deboche refinado. É uma pena que a maior parte do longa se passa em São Paulo. Um filme que nos faz rir e que a habilidade e carisma de seu elenco nos segura até o final. Uma ótima premissa que deixa uma sensação de trama desperdiçada.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Charada (1963)

Em Paris a americana Regina Lambert (Audrey Hepburn), que recentemente ficou viúva, tenta entender que tipo de vida o marido levava e onde podem estar escondidos os US$ 250 mil que muitos acreditam estar com ela.

113 min – 1963 – EUA

Dirigido por Stanley Donen. Roteirizado por Peter Stone (Baseado no livro de Peter Stone e Marc Behm). Com Cary Grant, Audrey Hepburn, Walter Matthau, James Coburn, George Kennedy, Dominique Minot, Ned Glass, Jacques Marin, Paul Bonifas, Thomas Chelimsky.

Em 1963 dizer que a dupla protagonista do filme era Audrey Hepburn e Cary Grant já era o suficiente para garantir o interesse do público. E, entre os cinéfilos, até hoje é algo que chama atenção. A dupla de atores se encontrou em “Charada”, uma comédia romântica criminal dirigida por Stanley Donen. Donen foi o responsável por “Cantando na Chuva” e “Um dia em Nova York”, ambos com Gene Kelly. Além da inédita dupla de protagonistas, o longa marca o reencontro do diretor Stanley Donen e Audrey Hepburn após trabalharem juntos em “Cinderela em Paris”. Alie o protagonismo de peso e seu diretor gabaritado com uma trama misteriosa, bem humorada, com suspense e cheia de reviravoltas. Assim é “Charada”, uma obra interessante e bem construída que sabe prender a atenção e interesse de seus espectadores.

Os psicodélicos e coloridos créditos iniciais nos lembram um bom filme de James Bond. Com setas, linhas, formas e labirintos em movimento, nos introduzem ao clima de mistério e investigação ao som de “Charade” composta por Henry Mancini. De forma abrupta vemos um corpo ser arremessado de um trem em movimento e assim entramos na trama. O roteiro de Peter Stone é uma adaptação do livro que ele mesmo escreveu em parceria com Marc Behm. Reggie Lampert (Audrey Hepburn) é uma mulher rica que está de férias em Paris. Ela pretende se divorciar de seu marido, eles têm uma relação de indiferença. Após tentar fugir com duzentos e cinquenta mil dólares seu marido é assassinado. O dinheiro desaparece após o crime. Porém essa pequena fortuna é cobiçada por muitas pessoas, inclusive pelo governo americano. Reggie não sabe nada sobre a vida do marido e nem do paradeiro do dinheiro, mas isso não impede que a moça se torne alvo de assassinos. Em meio a tudo isso ela conhece Peter Joshua (Cary Grant) que a ajuda (Ou não) na solução desse mistério. 

São muitas reviravoltas, e várias delas centradas no personagem de Grant. Um texto bem escrito em que nada é o que parece ser, uma corrida pelo dinheiro onde não há regras e o preço pode ser a vida. De mentira em mentira passamos a desconfiar de tudo e de todos. De morte em morte passamos a formar novas teorias e possíveis linhas narrativas. Os assassinos que perseguem Reggie eram conhecidos de seu marido. São eles: Tex (James Coburn), Scobie (George Kennedy) e Gideon (Ned Glass). Completando o talentoso elenco de apoio temos o agente da CIA Hamilton Bartholomew (Walter Matthau). 

Repleto de diálogos insinuantes e cômicos, as frases e conversas nos permitem várias leituras. Trazendo até insinuações sexuais. Audrey e Grant demonstram competência e simpatia. A dupla se destaca pela química e por nos convencer como casal. É claro que, ao assistir em 2021, Reggie parece uma donzela em perigo que se apaixona facilmente por um homem que mente e que a engana. Ignorando esse elemento problemático, para a época, a personagem de Audrey era sim forte e contestadora. Dito isso, a relação entre o casal é construída com elegância e o carisma dos atores nos cativa.  

“Charada” é divertido, misterioso e com muitas surpresas. Uma trama bem escrita que te faz duvidar de tudo e de todos até seus momentos finais.

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Sunça no Cinema – Uma Cilada para Roger Rabbit (1988)

O detetive de carne e osso Eddie Valiant (Bob Hoskins) é contratado para descobrir o que está acontecendo com o coelho Roger Rabbit e sua mulher Jessica, suspeita de infidelidade. Quando Marvin Acme é encontrado morto, Roger é o principal suspeito do crime no mundo real. Para piorar a situação, um vilão quer acabar de uma vez por todas com Roger, Jessica e todos os desenhos animados.

104 min – 1988 – EUA

Dirigido por Robert Zemeckis. Roteirizado por Jefrey Price e Peter S. Seaman. (Baseado no livro de Gary K. Wolf). Com Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Joanna Cassidy, Charles Fleischer, Stubby Kaye, Alan Tilvern, Joel Silver, Paul Springer, Betsy Brantley, Mel Blanc, Tony Anselmo.

Em 1988 o Sunça de dois anos de idade nem imaginaria que o segundo maior sucesso de bilheteria daquele ano, se tornaria um de seus filmes favoritos. A obra me impactou a ponto de direcionar minha carreira para a área de animação, quadrinhos e ilustração. “Uma Cilada para Roger Rabbit” é o trabalho mais impactante e interessante do diretor Robert Zemeckis. Isso é um grande elogio, uma vez que Zemeckis é um cineasta versátil e inovador. Responsável por filmes como “Forrest Gump: O Contador de Histórias” e a trilogia “De Volta para o Futuro”. O filme é baseado no livro “Who Censored Roger Rabbit?” escrito por Gary K. Wolf. A obra literária é menos engraçada e bem mais sombria, Gary também escreveu duas sequências: “Who P-P-P-Plugged Roger Rabbit?” e “Who Wacked Roger Rabbit”. Em uma tradução livre, os livros seriam: “Quem Censurou Roger Rabbit?”, “Quem atacou Roger Rabbit?” e “Quem Matou Roger Rabbit?”.

Imagine um universo onde humanos e desenhos animados coexistem. O ano é 1947 e estamos em um thriller com muitas reviravoltas, repleto de assassinatos e com muitas traições. É a união da era de ouro da animação com o cinema noir.  No longa o famoso coelho de desenho animado Roger Rabbit (Com a voz original de Charles Fleischer) é acusado de um assassinato que ele alega não ter cometido. Eddie Valiant (Bob Hoskins) é um detetive durão que devido a um trauma do passado não gosta das figuras animadas. Eddie aceita um caso simples de investigar uma suposta traição de Jessica Rabbit (Com a voz original de Kathleen Turner), esposa do coelho, e assim acaba no meio de toda essa confusão. Ele se torna a única esperança de Roger para limpar seu nome. Juntos eles têm que lidar com o Juiz Doom (Christopher Lloyd) que persegue o protagonista e que desenvolveu uma arma capaz de matar os desenhos. 

São personagens marcantes e cativantes, Roger Rabbit e Jessica Rabbit são facilmente reconhecidos e lembrados com carinho por quem assistiu a obra a anos atrás. Eddie Valiant é um personagem complexo em um ótimo trabalho de atuação de Bob Hoskins. A obra tornou possível a maior reunião de personagens de diferentes estúdios. Uma oportunidade única de ver Mickey interagir com Pernalonga e Pato Donald brigar com Patolino.  Steven Spielberg, o produtor do filme, foi o responsável por convencer as empresas a liberarem seus personagens para a Disney. Para isso foi necessário garantir tempo de tela iguais para famosos personagens da Warner e da própria Disney e certificar de que as personalidades de cada um fossem respeitadas. Além de pagar uma enorme quantidade de dinheiro. É uma pena não ter conseguido a liberação em tempo de alguns personagens, seria legal poder contar com o estúdio Terrytoons. A participação de Popeye, Tom e Jerry e outros personagens no filme também seria genial. 

Trinta e três anos depois, o longa ainda impressiona. A união de Zemeckis com Spielberg contou com a fundamental participação de Richard Williams, um grande animador e o diretor de animação do longa. A interação entre as filmagens live-action e as figuras animadas é inovadora, aconteceu em uma época onde efeitos especiais ainda eram extremamente “rústicos”. Com o objetivo de emular as animações clássicas, a equipe decidiu não utilizar computadores e trabalhar com a animação tradicional. São mais de oitenta e dois mil frames, e mais de mil ilusões de ótica, truques de câmera e efeitos práticos. Quando Roger bate a cabeça em uma lâmpada, ela reage ao personagem. Ao balançar a luz se move pelo ambiente e afeta o personagem animado com precisão. Um outro exemplo são as Doninhas que seguram réplicas de armas reais, um trabalho de manipulação das câmeras e efeitos práticos. Não à toa o longa teve seu orçamento estourado e uma pós-produção de quatorze meses.   

O roteiro de Jeffrey Price e Peter S. Seaman funciona para jovens e crianças, mas mira no público adulto. São personagens fofos com várias piadas visuais e físicas. Em um texto inteligente e elegante, note como uma sequência no escritório de Eddie nos revela seu passado, seus traumas e frustrações. O cuidado e a sutileza em que a sequência inicial da obra nos apresenta aquele universo. O trabalho é ligeiramente pesado trazendo por exemplo um detetive alcoólatra e um bebê de desenho animado fumante e misógino. Em camadas mais profundas o argumento sugere importantes discuções, é presente no longa uma crítica a segregação racial da época, apresentando por exemplo nas cenas do bar só para humanos “Ink ‘n’ Paint” nele os cartuns podem apenas servir e/ou participar de apresentações artísticas. Um dos vilões apresenta como plano algo que em suas palavras vai favorecer os “humanos mais abastados”. Subtextos também se fazem presentes em alguns diálogos inspirados como: “Um brinde aos engravatados, que todos morram enforcados” e “Eu não sou má, só sou desenhada assim”.  

“Uma Cilada para Roger Rabbit” é a primeira vista uma comédia noir. Ao assistir é uma experiência visual única, com personagens marcantes e carismáticos e uma trama envolvente e surpreendente. Nos bastidores é uma produção com orçamento inicial de US$29,90 milhões que custou US$70 milhões e arrecadou a segunda maior bilheteria de 1988, US$329,8 milhões. Naquele ano perdeu apenas para “Rain Man”. Um sucesso que levou sete anos para ser produzido. Uma sequência estava em um lento processo de produção, que teve seu fim com a morte de Bob Hoskins aos setenta e dois anos no ano de 2014. “Uma Cilada para Roger Rabbit” permanece assim, uma produção que tinha tudo para não ocorrer, mas que aconteceu e se tornou uma obra prima do cinema.          

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – A Cidade Onde Envelheço (2016)

A Cidade Onde Envelheço acompanha Teresa (Elizabete Francisca Santos), uma jovem portuguesa que decide deixar o país para morar no Brasil. Ela vai direto para a casa de Francisca (Francisca Manuel), uma amiga também portuguesa que, há quase um ano, mora em Belo Horizonte. Por mais que tenha aceitado abrigá-la, Francisca está temerosa sobre como será o convívio entre elas, já que aprecia a solidão e a independência que dispõe. Entretanto, logo o jeito descontraído e espevitado de Teresa a contagia, nascendo uma forte ligação entre elas.

99 min – 2016 – Brasil/Portugal

Dirigido por Marília Rocha. Roteirizado por Marília Rocha, João Dumans e Thais Fujinaga. Com Elizabete Francisca, Francisca Manuel, Paulo Nazareth, Wederson Dos Santos, Jonnata Doll.

O primeiro elemento que a obra nos apresenta é o local onde tudo vai se passar. A câmera conduz nosso olhar por um passeio em Belo Horizonte. Registrando suas ruas, o cotidiano de seus moradores e o dia a dia da cidade. Para alguém nascido e criado em “Belorizonte”, assim como eu, o passeio pela região central de BH é um deleite. “A Cidade Onde Envelheço” tem duas jovens portuguesas como protagonistas. Francisca (Francisca Manuel) saiu de Lisboa a anos e vive na capital de Minas a algum tempo. Sua amiga Teresa (Elizabete Francisca) chega na cidade em busca de novas oportunidades e fica hospedada na casa de Francisca. A proximidade entre as duas parece enfraquecida e suas personalidades se mostram muito diferentes. 

O longa, realizado em coprodução com Portugal, explora bem as diferenças culturais entre Brasil e Portugal e a diferença de personalidade de suas protagonistas. Teresa recém chegada a Minas Gerais é aventureira e sociável. Está aberta a novas experiências e as vive intensamente. Ela quer se estabelecer e aceita cada oportunidade que surge em cena. Francisca é reservada, menos sociável e gosta de viver na solidão. Não se encaixa no ambiente e evita criar vínculos. Ela nem mesmo consegue chamar seu companheiro de namorado. Francisca demonstra desconforto ao receber a amiga, incômodo que Teresa sequer nota. Inicialmente a amizade delas é forçada e parece quase que uma obrigação. A relação das duas é o ponto central do roteiro escrito pela diretora Marília Rocha em parceria com João Dumans e Thais Fujinaga. 

A trama e a diretora são hábeis em retratar o choque entre as duas personalidades e as consequências e transformações em cada uma das jovens. Percebemos os atritos criados, as sensações e emoções compartilhadas e o processo de amadurecimento de cada uma. A chegada dos trinta não é fácil. Boa parte da obra se estabelece nas interações das personagens, nos diálogos e na convivência. É um belo trabalho das atrizes que nos mostram com naturalidade o ressurgimento daquela amizade e os impactos em cada uma delas. Enquanto Francisca passa a rever suas opções e decisões, Tereza quer viver aquela oportunidade. E assim passamos por algumas reflexões sobre a busca de uma identidade, o distanciamento dos amigos e familiares e nossas trajetórias de vida. As amigas são opostas que se completam e assim conseguem evoluir e seguir cada uma com seu caminho escolhido.

A naturalidade das atuações e dos diálogos impressiona. São conversas e interações envolventes e espirituosas. A opção por uma trilha sonora diegética deixa orgânico tudo o que presenciamos, o uso do som direto traz naturalidade e uma sensação de que estamos inseridos no dia a dia daquelas personagens. “A Cidade Onde Envelheço” é um filme emotivo e sensível. Propoẽm discussões sobre choque cultural, amizade, saudade e amor. Enquanto Francisca e Teresa lidam uma com a outra, tomam suas decisões e refletem sobre suas escolhas. Também o fazemos. Não é atoa que a obra foi premiada em quatro categorias no Festival de Brasília de 2016: filme, direção, ator coadjuvante e atrizes.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Clube dos Cinco (1985)

Em virtude de terem cometido pequenos delitos, cinco adolescentes são confinados no colégio em um sábado, com a tarefa de escrever uma redação de mil palavras sobre o que pensam de si mesmos. Apesar de serem pessoas completamente diferentes, enquanto o dia transcorre eles passam a aceitar uns aos outros, fazem várias confissões e tornam-se amigos.

97 min – 1985 – EUA

Dirigido por John Hughes. Roteirizado por John Hughes. Com Judd Nelson, Ally Sheedy, Emilio Estevez, Molly Ringwald, Anthony Michael Hall e Paul Gleason.

Um grupo de pessoas isoladas que eventualmente começa a conversar. No meio de conflitos, brigas e intrigas, verdades são ditas. Eles acabam com um novo olhar sobre cada um deles e sobre si mesmos. John Hughes aplica esse contexto a adolescentes. Garotas e garotos que aparentam não ter nada em comum, e que, na verdade, não querem ter nada em comum com os diferentes arquétipos ali representados.  Isso, pelo menos, inicialmente. 

Hughes era um nome comum no cinema dos anos oitenta. Ele foi o responsável pelo roteiro de clássicos como “Esqueceram de Mim” e “Férias Frustradas”. Dirigiu e escreveu um dos melhores filmes de comédia da época “Antes Só do que Mal-Acompanhado”. Mas a sua habilidade em criar jovens com credibilidade e verossimilhança o tornou um mestre do cinema adolescente. Ele foi o diretor e roteirista de obras como “Gatinhas e Gatões”, “Mulher Nota Mil”, “A Garota de Rosa Shocking” e  “Curtindo a Vida Adoidado” o mais famoso. Seus filmes fizeram sucesso e influenciaram gerações. É verdade que alguns desses filmes não envelheceram tão bem, principalmente na forma como, o machista cinema dos anos oitenta, retratava as mulheres. Porém, “Clube dos Cinco”, para mim, ainda permanece uma de suas melhores e mais profundas obras. 

Tudo acontece em um sábado. Cinco jovens que violaram as regras do colégio tem que passar o dia em detenção “presos” na biblioteca da escola. O filme começa com uma citação do David Bowie que já nos apresenta uma ideia do que está por vir. Logo presenciamos a chegada desses garotos. A entrada de cada um deles é importante por que nós apresenta seu relacionamento com os pais. Quando estão todos dentro da biblioteca, o grupo de estereótipos adolescentes está formado. O “marginal” durão   John Bender (Judd Nelson). A esquisita e insegura Allison Reynolds (Ally Sheedy) que se esconde atrás de seus cabelos e roupas. O atleta da equipe de luta da escola Andrew Clarke (Emilio Estevez). A patricinha e rainha da formatura Claire Standish (Molly Ringwald) e o nerd estudioso Brian Johnson (Anthony Michael Hall). O que vemos, inicialmente, são pré julgamentos e atritos entre eles. Ao longo do dia eles interagem e acabam percebendo muitas semelhanças escondidas nas diferenças das “personas” de cada um. É nessa desconstrução de arquétipos que John Hughes aborda temas e tabus do universo daqueles jovens. 

“Clube dos Cinco” faz com que aos poucos seus personagens se libertem das máscaras que lhe são impostas por respectivos grupos. Literalmente eles vão se despindo. Já que, a medida em que se abrem vão tirando peças de roupa, enquanto passam a se enxergar uns nos outros. Roupas que dizem muito da forma com um enxerga o outro e como os adultos enxergam aquele grupo. É uma obra construída a partir de diálogos, olhares e gestos. Os atores estão todos muito bem e entregam exatamente o que se se espera das personas que estão representando e no momento de desconstrução são hábeis em passar importantes sentimentos e sensações com olhares e pequenos gestos.  Bender acaba tendo mais destaque, uma vez que ele é o agente do caos, o elemento catalisador para que toda a interação aconteça. Ao rever hoje incomoda o arco da personagem Alisson que passa por uma grande mudança visual ao final do longa. Aí sim, ela é aceita por completo pelo grupo. O diretor do colégio Richard Vernon (Paul Gleason) é o único personagem unidimensional, é a representação do adulto burocrático e chato. O que me parece uma opção proposital, para os garotos ele é o retrato do conformismo e a demonstração da falta de empatia e compreensão do mundo em que eles vivem. Sua própria caracterização demonstra isso, um terno antigo e uma camisa preta. Roupas sem cor, sem carisma e identidade. 

A trilha sonora imortalizou “Don’t You (Forget About Me)”, da banda Simple Minds. E ainda contou com vários outros sucessos da época trazendo o clima exato para uma obra divertida e emotiva. Deixa também o filme mais dinâmico, uma vez que se passa praticamente em um único ambiente e com um pequeno elenco. Nisso a edição é fundamental, com longos movimentos de câmera em momentos reflexivos, cortes rápidos nas sequências cômicas (Temos ali uma homenagem ao Scooby Doo?) e câmera estática e sem cortes em momentos de vulnerabilidade. 

Poucos filmes dialogam tão bem com os jovens (E comigo) como “Clube dos Cinco”. Talvez o impacto em mim seja por ter visto a obra na idade correta durante as “tardes de cinema” em casa. Revendo o filme hoje aos trinta e três anos de idade ainda me sinto impactado e consigo ver pedaços da minha versão jovem representados em cada um daqueles adolescentes. (E da versão adulta também.)  Fato é, que são poucas as tentativas de refletir sobre os jovens, seus dilemas e suas problemáticas. Esse sábado de detenção marcou gerações de garotas e de garotos, o cinco protagonistas mesmo que por um dia se libertaram das pressões diárias e dos preconceitos. E juntos assinaram um dos mais importantes manifestos do cinema: 

“Você nos enxerga como você deseja nos enxergar. Em termos mais simples e com as definições mais convenientes.”

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Coringa (2019)

O comediante falido Arthur Fleck encontra violentos bandidos pelas ruas de Gotham City. Desconsiderado pela sociedade, Fleck começa a ficar louco e se transforma no criminoso conhecido como Coringa.

122 min – 2019 – EUA

Dirigido por Todd Phillips. Roteiro de Todd Phillips e Scott Silver. Com: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Bill Camp, Glenn Fleshler, Leigh Gill, Josh Pais, Sondra James, Douglas Hodge, Dante Pereira-Olson, Hannah Gross, Brian Tyree Henry, Gary Gulman e Marc Maron.

“Coringa” nos apresenta uma Gotham City em crise no início dos anos oitenta. Estamos no meio de uma greve dos coletores de lixo, recessão econômica e uma população pobre que vive uma triste realidade repleta de dificuldades. Assim Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) se esforça para sorrir em meio a um mundo que parece não lhe dar motivos para isso. Logo no início acompanhamos Arthur ser atacado e tomar uma surra sem motivo algum, ser maltratado por pessoas em seu cotidiano e vemos sua vida em ruínas seguindo de mal a pior. Isso nos faz sentir pena do protagonista e inicia a construção de uma empatia que aliada ao fato de acompanharmos a trama pelos olhos de Arthur, pode gerar mais adiante no espectador a aceitação do errado. Porém, ao decorrer do filme, fica claro que o ponto de vista de Fleck não é confiável, e, apesar da obra não legitimar as atitudes ruins do Coringa, podemos sim ter essa sensação. E isso é perigoso. As ações do Coringa são erradas, egoístas e injustificáveis. Não há como defender a violência. 

Arthur Fleck trabalha como palhaço para uma agência decadente. É um homem de meia idade que vive e cuida de sua mãe, e em seu tempo livre busca uma carreira como comediante.  Após ser demitido e ver seus esforços para manter seu equilíbrio psicológico serem em vão. Suas sessões com uma assistente social e seus medicamentos sofrem cortes de verba pública e são terminados pelos políticos locais. Fleck culpa os ricos e poderosos por sua situação, personificados na figura de Thomas Wayne (Brett Cullen), e começa a ficar louco até se transformar no personagem título. 

A direção certeira de Todd Phillips sempre em equilíbrio com o roteiro, escrito pelo diretor e por Scott Silver, criam um elaborado estudo de personagem, com arcos dramáticos bem estabelecidos e construídos. A montagem e fotografia de “Coringa” ambientam uma Gotham suja e decadente. A obra segue um ritmo contemplativo, gera uma imersão e um suspense contínuo. É um belo trabalho estético que fortalece a ideia da luta de classes, pobres que vivem literalmente na sarjeta, compartilhando as ruas com super-ratos e os ricos que ocupam a política, os grandes edifícios e a mídia. Manipulando a verdade a seu gosto e tirando proveito de suas posições privilegiadas enquanto ignoram o resto da sociedade. Em meio a isso temos Arthur, um homem instável à margem da sociedade. Fleck usa roupas sóbrias, está sempre cercado de tons pastéis e retratado em ambientes escuros e opressores. O que é importante para valorizar sua mudança ao se tornar o famoso vilão. Que usa tons quentes e mais chamativos. Phillips escolhe retratar Fleck sempre atrás de grades, portões e barras. Seus cenários empilhados e azulados são prisões que contrastam com o branco iluminado na cena final do longa. A escadaria que Fleck sempre sobe com dificuldade, peso e com suas roupas pastéis, representa bem a dificuldade com que ele segue sua vida. Não é atoa que também é palco de uma dança libertária enquanto a desce, com suas novas vestimentas com cores vivas e chamativas. 

Joaquin Phoenix é um ator brilhante, presente em quase todas as cenas do filme, ele traz uma fisicalidade incrível para o personagem. Um trabalho de voz, corpo e expressão que impressiona. Fleck está sempre de ombros arqueados têm um andar penoso e pesado e sua figura tem uma magreza crua que mostra que algo está errado com aquele corpo. Na medida em que acompanhamos a transformação do personagem, sua postura muda ganhando ares de auto-confiança. Sua gestualidade passa a ter posturas poderosas até chegarmos ao momento final, onde um contra plongée exibe o poderoso Coringa. Assim como Arthur, sua risada também não se encaixa. O protagonista sofre de um distúrbio psicológico que o faz rir em momento inoportunos. Uma risada doída e incontrolável. Outras variações também se fazem presentes, risadas naturais, artificiais, sociais e sempre reforçando o estado de espírito do personagem e ajudando na construção do seu “eu”. Fleck se entende e se constrói à nossa frente. Aos poucos vemos o personagem se soltar das “amarras” da sociedade, e de sua vida, e abraçar sua visão de mundo louca, perturbada e má.

Existem motivos pelos quais esse Coringa psicopata mata. Podemos sim entender suas escolhas e ações. O que não se pode é justificar. Arthur é louco e suas atitudes narcisistas, ele não representa uma anarquia ou um movimento contra os poderosos, o que ele quer é alimentar seu ego. Quer se sentir importante e ser notado pela sociedade. Enaltecer essa atitude e tentar justificar seu comportamento psicopata é perigoso. Mas discutir e tentar entender de onde surgem esses comportamentos é importante. Afinal é fácil apontar o dedo e culpar isso ou aquilo como motivação, difícil é reconhecer que somos todos culpados por não conseguir estabelecer uma sociedade mais justa e harmônica.           


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Sunça no Cinema – O Contador (2016)

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Christian Wolff (Ben Affleck) é um homem que apresenta um quadro de Síndrome de Asperger, o que o faz ter mais intimidade por números do que por pessoas. Ele usa um escritório de contabilidade em uma cidadezinha pequena apenas como fachada para trabalhar como contador autônomo para algumas das mais perigosas organizações criminosas do mundo.

125 min – 2016 – EUA

Dirigido por Gavin O’Connor, roteirizado por Bill Dubuque. Com Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simons, Jon Bernthal, Cynthia Addai-Robinson, John Lithgow, Jeffrey Tambor e Alison Wright.

O protagonista de “O contador” Christian Wolff (Ben Affleck) é um super-herói. É um autista com eximio treinamento em armas, uma mira perfeita e munido do poder da matemática. Foi uma criança com síndrome de asperger criada por um pai milico sádico, que a sua maneira, tenta fazer do mundo um lugar “melhor”. É uma trama bastante exagerada, com muitas reviravoltas duvidosas em alguns momentos. Diverte e empolga com suas cenas de ação e nos cativa nos desenrolar dos fatos. O longa não decide se é um thriller, um filme de ação, uma comédia, um drama ou até mesmo um filme de super-herói. E, apesar dessa mistureba, normalmente ser negativa para um filme é justamente ela que traz uma experiência agradável e divertida.

Wolf (Ben Affleck) aparentemente é um contador de um simples escritório de uma cidade pequena. Mas isso é apenas fachada para seu real trabalho que é ser contador autônomo de mafiosos e organizações criminosas no mundo. Ele aceita um trabalho para avaliar as finanças da empresa de próteses e robótica, Living Robotics, de Sr. Black (John Lithgow). Lá ele conhece Dana Cummings (Anna Kendrick) a analista que suspeitou de um desvio de dinheiro na empresa. Usando seu poder da matemática ele descobre o roubo de milhões em um dia e a partir daí ele e Anna se envolvem em um trama de assassinatos e passam a ser perseguidos por Brax (John Bernthal) um assassino de aluguel e sua equipe. Mas não é só isso, também acompanhamos uma investigação do Tesouro Nacional, Ray King (J.K. Simmons) e Medina (Cynthia Addai-Robinson) estão atrás do desconhecido contador. Além de flashbacks, mais flashbacks e mais flashbacks ainda, afinal precisamos entender bem a infância de Wolf, seu tempo na cadeia, seus problemas com o autismo e suas relações familiares. E, é interessante e absurdo como tudo e todos estão conectados a Christian Wolff.

Affleck demonstra a dificuldade de interação social e o autismo de seu personagem basicamente como um homem inexpressivo. Ainda que o filme saiba aproveitar bem essa dificuldade em alguns momentos como quando acena para o casal após um tiroteio ou quando em um raro momento do filme se mostra confortável enquanto avalia as finanças da empresa e dança. Ben Affleck com sua figura imponente convence nas cenas de ação e mostra que pode ser bem aproveitados em perseguições, lutas e tiroteios. Confesso que na “batalha” final estava esperando a qualquer momento que ele soltasse um “I’m Batman”. Anna Kendrick não tem muito tempo de tela inicialmente se mostra uma personagem interessante que aos poucos descamba para interesse romântico. Já J.K. Simmons e Cynthia Addai-Robinson, mesmo com uma participação menor, estão presentes ao longo de todo o filme. Ainda que suas sequências não afetem em nada a trama principal do longa.       

A ligação do protagonista com pessoas perigosas, seu passado difícil não apenas por sua condição mas também pela forma com foi criado são pouco explorados. Servem mais como uma justificativa para o que Wolf se tornou. O diretor Gavin O’Connor parece mesmo preocupado é em mostrar como seu personagem principal é invencível e letal. E nisso ele é bem sucedido. Ainda que apresente o autismo de forma clichê, e até como um super poder(?) o longa tenta evocar a discussão da importância de se abraçar as diferenças. Porém não se aprofunda nela e acaba passando despercebida. No esforço para ser um filme ruim “O Contador” consegue ser divertido, engraçado, tenso e estimulante. É um absurdo que traz um júbilo prazeroso.

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Sunça no Cinema – Cães de Guerra (2016)

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Baseado em uma história real, ‘Cães de Guerra‘ acompanha a história de dois amigos na casa dos 20 anos (Hill e Teller) que moram em Miami durante a Guerra do Iraque e descobrem uma iniciativa pouco conhecida do governo que permite que pequenas empresas possam participar de licitações de contratos militares nos Estados Unidos.

Partindo quase do zero, eles fazem muito dinheiro e passam a viver uma vida de luxo. Mas a dupla passa a ter problemas quando consegue um contrato de US$ 300 milhões para armar o exército afegão – que os coloca em contato com pessoas muito suspeitas, algumas das quais se revelam membros do próprio governo norte-americano.

115 min – 2016 – EUA

Dirigido por Todd Phillips, roteirizado por Stephen Chin, Todd Phillips e Jason Smilovic.  Com Miles Teller, Jonah Hill, Bradley Cooper, Ana de Armas e Kevin Pollak.

Todd Phillips é conhecido por suas boas comédias, suas narrativas normalmente absurdas e eficientes sempre tem peso e aproveitam bem as características naturais de seu elenco. Responsável pelos ótimos “Se beber não Case” e “Dias Incríveis” (vale uma menção também ao bom “Starsky & Hutch) em seu novo longa “Cães de Guerra”, nos surpreende com uma trama sóbria, ágil e bem humorada.  O diretor demonstra talento e versatilidade, apresenta um drama (dramédia), baseado em um história real,  interessante com ação, tensão e ritmo constante.

Dois jovens (Miles Teller e Jonah Hill) exploram uma iniciativa pouco conhecida do governo americano, onde pequenas empresas podem participar de concursos militares. Eles descobrem que existe um mercado lícito em expansão com a venda de armas para o exterior e decidem aproveitar. Os amigos vencem um desses concursos e recebem US$ 300 milhões para ajudar a armar um exército afegão. Miles Teller e Jonah Hill oferecem ótimas performances, Efraim (Jonah Hill) é confiante, decidido, sabe manipular as pessoas ao seu redor e é o protagonista de vários momentos engraçados no filme. O que não o impede de se tornar o vilão no final do longa. Depois de ficar algum tempo na Califórnia, onde era sócio de seu tio em um negócio de compra, em leilões, de armas apreendidas pela polícia, ele volta para Miami e monta sua própria empresa. E logo, ele coloca seu amigo David (Miles Teller) no esquema. A abordagem de Teller para o personagem também é boa nos faz entender seus motivos e chegamos até a torcer por ele. David é um massagista que está próximo de se tornar pai, e para conseguir dinheiro acaba se envolvendo com Efraim na venda de armas para a guerra no Iraque.

Diálogos bem humorados e um bom timing das cenas de ação garantem ao espectador diversão de qualidade, ainda que como uma crítica ao capitalismo e a busca excessiva pelo lucro seja superficial. Em vários momentos o filme dá uma alfinetada no ex-presidente Bush e na cultura armamentista dos EUA. É legal perceber que o filme nunca assume um posicionamento moral em relação ao seus personagens. “Cães de Guerra” é divido em segmentos apresentados por título que sempre é uma das falas presentes na sequência. (“Quando é que dizer a verdade sempre, ajuda alguém?”) Isso deixa a estrutura do filme interessante e nos coloca dentro da trama. Narração em off, tela congelada, câmera lenta são outros elementos que ajudam a levar a história adiante. A trilha sonora repleta de Rock’n Roll também é uma característica marcante.

Uma trama ágil e objetiva, com bons atores e uma história interessante. É um drama bem humorado que balanceia bem suas cenas cômicas com cenas de ação (bem filmadas), não aprofunda na crítica ao capitalismo e a busca excessiva pelo lucro, mas demonstra bem o lado mercadológico da guerra.

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Sunça no Cinema – As Caça-Fantasmas (2016)

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Atualmente uma respeitada professora da Universidade de Columbia, Erin Gilbert (Kristen Wiig) escreveu anos atrás um livro sobre a existência de fantasmas em parceria com a colega Abby Yates (Melissa McCarthy). A obra, que nunca foi levada a sério, é descoberta por seus pares acadêmicos e Erin perde o emprego. Quando Patty Tolan (Leslie Jones), funcionária do metrô de Nova York, presencia estranhos eventos no subterrâneo, Erin, Abby e Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) se unem e partem para a ação pela salvação da cidade e do mundo.

116 min – 2016 – EUA

Dirigido por Paul Feig, roteirizado por Paul Feig e Katie Dippold. Com Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Leslie Jones, Kate McKinnon, Chris Hemsworth, Neil Casey, Cecily Strong, Andy Garcia, Ed Begley Jr., Zach Woods, Charles Dance, Karan Soni, Bill Murray, Dan Aykroyd, Ernie Hudson, Sigourney Weaver, Annie Potts, Toby Huss, Michael McDonald, Nate Corddry, Michael Kenneth Williams, Matt Walsh, Steve Higgins.

Foi com muito receio e incerteza que encarei esse remake de Os Caça-Fantasmas. O longa original é um dos meus favoritos, cresci acompanhando o grupo. Constantemente revejo os filmes, as animações e releio os quadrinhos. Sou um grande fã do universo criado. Então, estava torcendo muito para o sucesso e qualidade desde filme. É claro que o fato desse novo longa ser protagonizado por mulheres, não me incomodava. A ausência de meus queridos Peter Venkman, Dr. Ray Stantz, Dr. Egon Spengler e Winston Zeddmore, apesar de me deixar triste, também não me preocupava. O que eu queria era ter aquele clima/sentimento de volta. E fico feliz de dizer que ao assistir ao filme, me diverti com as novas personagens, me comovi com as homenagens ao original, arrepiei quando após dez minutos de filme escutamos pela primeira vez a famosa “Who your gonna call?” e ri e me emocionei com as participações do elenco original. Sim, o filme é bom. Sim, ele respeita o original e sim, As Caça-Fantasmas são ótimas e engraçadas.

O filme é bem humorado, com boas cenas de ação e consegue inovar e ampliar a franquia. É mais um trabalho competente de Paul Feig, quem vêm apresentando bons filmes sempre dando destaque e valorizando suas protagonistas. E aqui não é diferente, entrega um de seus melhores trabalhos dosando bem o humor com as cenas de ação e nos presenteia com várias sequências hilárias. Se um grande desafio era a sombra do elenco anterior, os talentosos: Dan Aykroyd, Harold Ramis, Ernie Hudson e Bill Murray que domina o filme em uma de suas melhores performances, ele tira isso de letra com a maestria e competência de Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Leslie Jones e Kate McKinnon que está sensacional como a Holtzmann. Todas elas têm destaque e cada uma têm seu momento para brilhar. É interessante notar que as personagens principais não tentam emular os caça-fantasmas originais, pelo contrário são diferentes e têm suas próprias características. É um grande elenco com boa química.     

Erin Gilbert (Kristen Wiig) é uma respeitada professora da Universidade de Columbia. Anos atrás ela e Abby Yates (Melissa McCarthy) escreveram um livro pouco conhecido que afirma que fantasmas são reais. Quando o antigo livro reaparece e ela vira piada no meio acadêmico e Erin perde o emprego. Patty Tolan (Leslie Jones), funcionária do metrô de Nova York, presencia estranhos eventos no subterrâneo. E quando fantasmas de verdade invadem nosso mundo, Erin, Abby, Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) e Patty se unem e partem para salvar a cidade e do mundo. É comum nos blockbusters de hoje que eles sejam cada vez maiores e exagerados e culminem em um grandioso climax, no caso, uma gigante batalha na Times Square. Mas antes de chegar lá o longa nos entrega ótimos momentos como o design dos fantasmas inicias que remetem um visual clássico de horror e algumas cenas como a sequência na mansão Aldridge, o ataque Fantasma no Metrô e uma sequência com um manequim são filmadas com filme de  terror e até causam medo. E é claro que nosso querido fantasma têm seu momento especial.  

Mas existe um outro vilão que As Caça-Fantasmas tiveram que enfrentar, e encaram com maestria esse trabalho. Ao ser divulgado o primeiro trailer do filme uma reação extremamente negativa surgiu na internet, apenas pela troca de sexo dos protagonistas. Ofensas e atrocidades foram ditas, não apenas sobre o reboot mas também sobre todos os envolvidos. Não é atoa que o vilão principal é um homem triste e solitário, um esquisitão patife que têm a missão de limpar o mundo e que não pensa duas vezes antes de dizer algo como: “Vocês atiram como garotas”. E durante todo o filme encontramos boas respostas a toda essa reação negativa, quando por exemplo em determinado momento temos Abby Yates lendo um comentário do youtube, “Nenhuma vadia vai caçar fantasmas!” ou então quando em um momento importante elas “literalmente” dão um “chute” no saco do vilão. Vale um destaque para o personagem Kevin, um ótimo alívio cômico para o filme que têm como principal função ser um garoto objeto abobado. Foi um bom trabalho de Chris Hemsworth o rostinho bonito que é responsável por várias risadas do filme.  

Caça-Fantasmas é um bom reinicio,  é coerente com os primeiros longas e com os demais produtos da franquia. Realmente Feig era o homem para esse trabalho que atualmente está redefinindo os padrões atuais de Hollywood, com boas personagens femininas em suas comédias. Da mesma forma que no passado o talentoso Harold Ramis (Roteirista e ator no original) fez com várias comédias focadas em bons personagens masculinos. Paul Feig além de trazer ótimas cenas de ação e hilárias cenas de comédia, utiliza o 3D de uma forma interessante, em vários momentos os fantasmas parecem sair do enquadramento causando uma sensação literal de que são almas penadas de outro plano. O design de produção é ótimo e respeita o longa original, os uniformes são parecidos, a logo e a base das caça-fantasmas são semelhantes, as cores e os feixes de prótons são iguais, mas também inova trazendo novas armas e estética assustadora.  Algumas piadas são excessivas, mas certamente isso não compromete o filme. Posso afirmar que a partir de agora sou um grande fã de As Caça-Fantasmas.

Obs. Na cabine de imprensa foram exibidas cenas durante os créditos e uma pós-créditos. Então senta a bunda na cadeira e fica até o final.

Nota do Sunça:

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