Salve-se Quem puder #07 – Coitado do Fantasma

sunca_bilau

Salve-se Quem puder é um momento de inatividade ociosa onde o Sunça exercita sua exorbitante genitália intelectual abordando os temas mais relevantes para a existência humana.

Coitado do fantasma. Vagar sozinho pela eternidade na pós existência sem saber o que fazer, quem é ou até mesmo qual seu objetivo/lugar/papel nesse mandato conturbado que sofre um processo de impeachment constante, também conhecido como vida (no caso pós vida), não é fácil. E o pior é que uma vez expostos as manifestações de tal criatura nunca mais somos os mesmos. E ainda assim é ele quem sofre com isso. É interessante como o pós vida amofina a mente humana e extremamente irônico que durante toda nossa existência não conseguimos pensar em outra coisa. Nossa preocupação e interesse mórbido na pós existência é tamanha que até mesmo maldizemos, maltratamos e matamos uns aos outros por termos diferentes teses sobre o que acontece por lá. E acabamos descontando no coitado do fantasma, que apenas quer entender o que é, e o que afinal de contas está rolando por lá. Já que tudo parece igual, ele sente a mesma coisa e têm até as mesmas dúvidas.

Na tentativa de explorar o pós vida as almas penadas tentam construir e tocar suas vidas eternas na esperança de que um dia tudo vai ser explicado. Em seus primeiros passos póstumos tentam aprender a manusear e controlar o ambiente ao seu redor e depois tentam se comunicar. Acredito que seja muito difícil encontrar outras assombrações, logo apelam para a comunicação com os vivos. A partir daí a locomoção passa a ser o foco, a busca por um corpo material também. E na sequência conquistar a casa própria, depois sonham encontrar um outro espectro com quem possam compartilhar todas as suas conquistas e o resto de sua eternidade. E quem sabe, juntos um dia entender qual o objetivo da vida, do universo e tudo mais. Infelizmente, todas essas tentativas são entendidas completamente errada por nós, os bípedes vivos. Afinal de contas, estamos mais preocupados em saber quem somos, o que devemos fazer e qual nosso objetivo/lugar/papel. E isso tudo leva tempo, dinheiro e uma extrema capacidade de não se importar com mais ninguém além de você mesmo sua família e seu telefone celular. Então seguimos nossa existência ignorando as demais, principalmente se a outra existência em questão é diferente da nossa ou teve um vivência diferente da nossa. Isso porque se ela têm uma opinião diferente da nossa não só a ignoramos como a devidamente taxamos de idiota, ignorante e não estudada. E nas raras vezes em que percebemos outra existência, como a do fantasma, ela é extremamente mal compreendida. O que pessoalmente, considero uma grande injúria.  

Quando as almas penadas aprendem a manusear e controlar objetos e o ambiente ao seu redor não ficamos orgulhos e satisfeitos, e sim amedrontados com a sua levitação e movimentação aparentemente aleatórias. Quando tentam se comunicar e não são confundimos com uma interferência, sentimos um terror gélido debaixo de nossa pele ao ver o rádio sintonizar sozinho. Ao nos hipnotizar e utilizar com o simples objetivo de se locomover e ter um corpo material, fugimos aterrorizados dos humanos possuídos, ou então impomos a eles estranhas sessões/tratamentos com estranhos assessórios/ferramentas, tudo isso para consertar um estranho comportamento e acabar com a possessão. E quando depois de muita luta, depois de uma longa pós vida de conquistas e trabalho árduo, o fantasma conquista sua casa própria, normalmente gritamos, esperneamos, borramos nossas calças e fazemos de tudo ao nosso alcance para os despejar de sua morada. Existem empresas e entidades que ganham exorbitantes quantidades de dinheiro fazendo e/ou oferecendo esse tipo de serviço, um bom exemplo são Os Caça Fantasmas e/ou os irmãos Winchester. E quando tudo isso acontece ao mesmo tempo damos o nome de “Casa mal assombrada”. Quanta ignorância.

Ao meu ver, todos devem ser respeitados. Principalmente os mais velhos e os seres que já se foram e que retornaram ao nosso mundo apenas para tentar entender o sentido de tudo isso ou simplesmente porque não tinham nada melhor para fazer. Se eu fosse um ser ectoplasmático vagando por esta dimensão, me sentiria completamente injuriado por este termo e pelas demais constatações dos humanos vivos. Até porque, se consideramos que todas as nossas constatações, erradas e preconceituosas, estão certas. O termo ainda assim não se aplica e se demonstra plenamente inexato. As casas não seriam mal assombradas, e sim bem assombradas, já que de forma satisfatória e talentosa o assombro amedrontaria a residência. Talvez seja esse o objetivo de morte e pós vida de uma alma penada, nos mostrar que não devemos taxar tudo e todos e que sim, talvez a existência seja mais legal e produtiva quando percebemos as demais existências.

Deixa o fantasma em paz.

Bjundas

Ministério do sarcasmo adverte:

Acreditar e/ou levar a sério informações desse texto é um atestado de bestialidade.

 O autor:

sunca_autorFelipe Assumpção Soares é Mestre e Doutorando em auto-sabotagem desde 1986.

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Salve-se Quem puder #03 – Coletivos me incomodam

sunca_bilau

Salve-se Quem puder é um momento de inatividade ociosa onde o Sunça exercita sua exorbitante genitália intelectual abordando os temas mais relevantes para a existência humana.

Coletivos me incomodam.

Esses substantivos criados com o objetivo de reunir determinados  grupos, além de dizer muito mais de nossa sociedade e sobre o comportamento humano, são estranhos, inadequados e irônicos. Aos olhos de um primata comum podem parecer inofensivos mas são uma bela demonstração da discrepância que existe nem nossa sociedade e como o que reina na vida é a injustiça.

Um conjunto de chaves é molho, o de lobos é alcateia e já o de vadios é matula. O substantivo coletivo indica um agrupamento, mostra a multiplicidade de seres de uma mesma espécie, apesar de ser uma palavra completamente avulsa e no singular. Uma cabra é feliz. Leva sua vida honestamente e ensina suas crias abestadas como seguir por esse trio elétrico moribundo, mequetrefe e com um motor de fusca que chamamos de vida. Cabras são legais. E têm uma grande consideração pelos humanos, convivem conosco a muitos anos sendo meio de transporte, vestimenta, fonte de alimentação e até companhia. Os humanos, que tiveram a mesma vivência, preferem estimar, amar e acariciar seus telefones celulares. E na hora de nomear um grupo de cabras optou por: Fato.  Meu Deus. Não sei como elas não vivem em uma constante crise de identidade. (Eu vivo)

O indivíduo é um, único e especial. Mas quando está em grupo se torna uma palavra diferente e indiferente, perde sua individualidade e passa a ser mais um em uma massa insossa e genérica. Para nós, bípedes da ordem dos primatas, é esse o estilo de vida que nossos milhares de anos de existência nos mostraram ser um caminho fidedigno, justo e feliz. Mas que diabos as cabras têm a ver com nossas escolhas infelizes? E não só as cabras, o conjunto de cebolas é: Réstia.  Réstia! E se isso já não fosse injustiça o suficiente, o substantivo comum tem que seguir as regras gramaticais, existe pural, singular e etc. Os soberbos e superiores coletivos, não. Estão sempre no singular. Como bem dito na Revolução dos bichos: “…Todos são iguais mas alguns são mais iguais que outros…”

Um porco é um belo animal. É um bonito ser, com suas próprias características. Você sabe como é um porco, não existe dúvidas. Já uma vara, pode ser qualquer coisa. Como é uma vara? O que ela quer? O que pensa da vida? Porque diabos continua vivendo nesse planeta onde os seres, que se acham os mais inteligentes, nomeiam tudo a Deus dará e brincam com a identidade das coisas, dos animais e de tudo ao seu redor apenas por que não sabem quem são, de onde vieram, para onde vão e nem tem a menor ideia do que deveriam estar fazendo? Eu sou uma pessoa, você é uma pessoa (Pelo menos eu acho.) e juntos somos: mais?, amigos?, idiotas?, não. Somos: Chusma. (Ainda acha que sabe quem você é?)      

Talvez o balido das cabras seja um aviso. É extremamente provável que estejam dizendo que devíamos parar um pouco de brigar uns com os outros e de nomear as coisas. Para elas, devíamos gastar mais tempo de nossas vidas injustas e inábeis nas montanhas e parar um pouco para cheirar o peido. (Técnica divulgada pelo ator Joey Tribiani.)

Cabras são legais.

Bjundas

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