Sunça no Cinema – Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (2004)

Em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, Ed Bloom (Albert Finney) é um grande contador de histórias. A diversão predileta de Ed, já velho, é contar sobre as aventuras que viveu quando deu a volta ao mundo, mais jovem, mesclando realidade com fantasia. As histórias fascinam todos que as ouvem, com exceção de Will (Billy Crudup), filho de Ed. Até que Sandra (Jessica Lange), mãe de Will, tenta aproximar pai e filho, o que faz com que Ed enfim tenha que separar a ficção da realidade de suas histórias.

125 min – 2004 – EUA

Dirigido por Tim Burton. Roteirizado por John August (Baseado no livro de Daniel Wallace). Com Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Alisson Lohman, Helena Bonham Carter, Robert Guillaume, Matthew McGrory, Marion Cotillard, Danny DeVito, Steve Buscemi.

Sou um contador de histórias. Não perco a oportunidade de relembrar minhas desventuras infantis e juvenis. Algo que acontece, quase sempre, de forma involuntária. Um comportamento cada vez mais constante na medida em que minha idade avança. É comum me ver compartilhando histórias e “fatos” fantásticos e mirabolantes que protagonizei ao longo de minha vida. Com um pé na realidade, ou não, cada um desses “causos” narra um pouco de quem sou. Edward Bloom, o protagonista de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”, também é um contador de histórias. Talvez o maior e melhor deles. Em suas narrativas ótimas, presenciamos estranhas situações e as figuras inusitadas que ele conheceu.   

O roteiro de John August, baseado no livro de Daniel Wallace, nos apresenta Will Bloom (Billy Crudup) que é recém casado com Josephine (Marion Cotillard) e prestes a se tornar pai. Ele é filho de Edward Bloom (Albert Finney) e é ressentido com o pai, uma vez que acha que não o conhece. Will considera mentiras as histórias maravilhosas dele. Sem perceber a real importância daqueles contos ele acredita não ter uma ideia clara de quem o pai realmente é. Will acha que o relacionamento conturbado deles o torna incapacitado para ter um bom relacionamento com seu filho que está prestes a nascer.  Edward é um bon vivant, conhece todos e agrada a todos. Seus relatos encantam e fascinam. Ele é bom no que faz, não é uma coincidência que a primeira lembrança que o longa nos mostra é justamente um “causo de pescador”. É nessa combinação de uma história humana e um universo fantástico que vamos conhecendo Edward Bloom.   

As narrativas e vivências do protagonista são experiências fantásticas. Interpretado por Ewan McGregor em sua versão jovem, Edward descreve cada fato com encanto e fascínio. Quando conhece sua futura esposa Sandra Bloom (Jessica Lange/Alisson Lohman), seu grande amor, o tempo para literalmente em uma linda sequência. Em sua vida ele se envolve com gigantes, bruxas, gêmeas siameses e bagres enormes. Edward foi uma figura grande demais para nosso mundo e para sua própria existência. Em um belo paralelo, construído pelo filme, percebemos que esse “peixe grande” não cabe em seu “aquário”. Quando se vê próximo ao fim, ele teme secar. E o que mais lhe aflige é a impossibilidade de se movimentar e continuar a viver novas histórias. 

Ao longo da trama Will parece perceber que ele não deve ressentir as histórias do pai. Quando as julga como mentiras, ele deixa de lado o aspecto mais importante delas. Querer conhecer o verdadeiro Edward Bloom é ignorar que nossas memórias e percepções nos definem. Os relatos dos fatos de toda uma vida, fantasiosos ou não, nos mostram suas vontades, seus objetivos, sua forma de pensar e de ver o mundo.  Sabemos como é a personalidade de Edward. As “Histórias Maravilhosas” do título não escondem como é o verdadeiro protagonista, e sim, o definem como ele realmente é.

É participando desse mundo fantasioso, cheio de viva e apaixonante que seguimos na narrativa do filme. A fotografia de Philippe Rousselot cria um universo inventivo e deslumbrante, cada sequência recebe o tratamento adequado. E são várias, terror, humor, suspense, estranhamento, romance, dentre outras. O diretor Tim Burton sabe conduzir muito bem a história por todos esses cenários. Ewan McGregor apresenta o protagonista sempre sorrindo e autoconfiante. Uma ótima escolha e caracterização. Albert Finney demonstra como o fim da vida e a impossibilidade de viver novas aventuras incomodam Edward. Alison Lohman, a versão jovem de Sandra e Jessica Lange, a versão mais madura. São pouco exploradas na obra e se resumem ao grande amor do protagonista.

Por mais egocêntrico que o protagonista de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” seja, ele nunca se esqueceu de que os acontecimentos literais de sua vida pouco importam. Suas narrativas fantasiosas traduzem a realidade de uma forma bonita, cativante e interessante. As histórias são poderosas, dizem verdades e mudam as nossas vidas.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – O Lar das Crianças Peculiares (2016)

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Após uma tragédia familiar, Jake (Asa Butterfield) vai parar em uma ilha isolada no País de Gales buscando informações sobre o passado de seu avô. Investigando as ruínas do orfanato “Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children”, ele encontra um fantástico abrigo para crianças com poderes sobrenaturais e decide fazer de tudo para proteger o grupo de órfãos dos terríveis hollows.

127 min – 2016 – EUA

Dirigido por Tim Burton, roteirizado por Jane Goldman. Com Asa Butterfield, Eva Green, Ella Purnell, Samuel L. Jackson, Allison Janney, Judi Dench, Terence Stamp, Chris O’Dowd, Rupert Everett, Milo Parker, Pixie Davies, O-Lan Jones, Ella Wahlestedt e Aiden Flowers.

Inspirado no livro “O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares” de Ransom Riggs

“O Lar das Crianças Peculiares” parece um filme perfeito para o diretor Tim Burton, um rapaz com problemas de sociabilidade descobre um “novo” mundo com várias crianças também não aceitas pela sociedade porém com estranhas habilidades especiais. E não é de hoje que Burton defende os “esquisitões”, vide sua filmografia repleta de pessoas estranhas porém admiráveis em seus mundos que pesam para o lado negro da imaginação. O longa é inspirado no livro “O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares” de Ransom Riggs, que baseou sua obra em uma coleção pessoal de fotos vintage, nele somos apresentados a um grupo de peculiares em um mundo numa constante briga entre fantasia e realidade. (Vale destacar aqui que ainda não li o livro que originou o filme.) A “equipe” é uma mistura entre X-Men e a Família Adams, no filme “Feitiço do tempo”. É um loop temporal que nos permite divertir com essas estranhas habilidades em um dia que se repete constantemente.

Acompanhamos Jacob Portman (Asa Butterfield) que após presenciar a morte de seu avô, Abraham Portman (Terence Stamp), parte para uma ilha isolada no País de Gales buscando informações sobre o passado de Abraham. Lá ele encontra o orfanato, abandonado, da Senhorita Peregrine (Eva Green) e investigando suas ruínas encontra um fantástico abrigo para crianças com habilidades especiais. Então seguindo a jornada do herói, Jacob tem que se superar e enfrentar seus medos para atingir grandes feitos e salvar seus novos amigos, e antigos amigos de seu avô, Emma Bloom (Ella Purnell), Olive Abroholos Elephanta (Lauren McCrostie), Millard Nullings (Cameron King), Bronwyn Buntley (Pixie Davies), Fiona Frauenfeld (Georgia Pemberton), Enoch O’Connor (Finlay MacMillan), Hugh Apiston (Milo Parker), Claire Densmore (Raffiella Chapman), Horace Somusson (Hayden Keeler-Stone) e os gêmeos mascarados (Joseph and Thomas Odwell).    

É interessante e cativante a forma como Tim Burton nos expõem a cada peculiaridade. Uma garota mais leve que o ar, um rapaz que dá vida a criaturas inanimadas, crianças super fortes, uma adolescente que pode controlar o fogo, dentre outros. Nossa curiosidade infantil é acionada, assim como a de Jacob, e ficamos cativados naquele “novo” mundo de 1943 mais colorido e alegre que a ilha cinza e triste de 2016.  É impossível não notar semelhanças com outro filmes do diretor, como os contos de  “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”, o stop-motion de “Frankenweenie” e a estranheza de “Edward Mãos de Tesoura”. Até mesmo o ótimo “Beetlejuice” encontrei em “O Lar das Crianças Peculiares”. Asa Butterfield está bem como Jacob, um garoto deslocado na Flórida e em sua própria família que busca na figura do avô (E suas histórias) um refúgio. Todos os peculiares estão bem, mas é o interesse de Jake na vida de Abe que move a trama (E que nos leva junto). São nos contos de seu avô que entramos em contato com os peculiares da Senhorita Peregrine, interpretada por Eva Green com uma postura firme, alguém que sempre parece saber mais do que demonstra e pronta para se sacrificar por suas crianças.

O Longa se passa no presente e no passado, porém é triste perceber como não é bem explorado a estranha situação em que se encontram os peculiares. As crianças são mantidas no passado em loop, com a justificativa de que o mundo não iria entendê-las. O que de longe é uma existência agradável, afinal elas nunca vão crescer e nunca vão mudar. E assim, escondidas como é que o mundo um dia vai aceitá-las? O enredo é previsível, mas utiliza de forma muito interessante a viagem no tempo. E se a motivação e o plano dos vilões é bastante contestável, o que realmente chama a atenção é a interpretação canastrona (Proposital?) de Samuel Jackson, que faz sua versão exagerada do Christopher Walken. O que não é necessariamente ruim, até porque somos presenteados com seu personagem comendo um tigela de olhos de crianças. (Sério!) O filme falha na construção forçada do relacionamento desnecessário de Jacob e Emma. E é aí que vemos como a relação entre o garoto e seu avô é íntima, afinal não é todo neto que volta no tempo para pegar sua ex-affair. Burton imprimiu seu estilo sem exageros, criou um clima sombrio, apresentou personagens monstruosos e destacou o conflito fantasia versus realidade. É um mérito do longa o uso contido dos efeitos digitais, em determinado momento remete ao stop-motion em uma ótima homenagem a Ray Harryhausen e seus esqueletos em “Jasão e os Argonautas” e “Simbad e a Princesa”.

O livro “O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares” ganhou duas sequências, “Cidade dos Etéreos” e “Biblioteca das Almas” fechando a trilogia. Na atual indústria do cinema em que vivemos, é natural que FOX pretenda transformar “O Lar das Crianças Peculiares” em uma franquia. Não é todo filme que precisa de sequências, e aqui, acredito que não seja necessário. Mesmo ficando com vontade de ver aquelas crianças novamente.

Nota do Sunça:

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