Sunça no Streaming – Rebecca – A Mulher Inesquecível – Netflix (2020)

Uma jovem de origem humilde (Joan Fontaine) se casa com um riquíssimo nobre inglês (Laurence Olivier), que ainda vive atormentado por lembranças de sua falecida esposa. Após o casamento e já morando na mansão do marido, ela vai gradativamente descobrindo surpreendentes segredos sobre o passado dele.

121 min – 2020 – EUA

Dirigido por Ben Wheatley e roteirizado por Jane Goldman, Joe Shrapnel, Anna Waterhouse (baseado em romance de Daphne Du Maurier). Com Lily James, Armie Hammer, Kristin Scott Thomas, Keeley Hawes, Ann Dowd, Sam Riley, Tom Goodman-Hill, Mark Lewis Jones, John Hollingworth, Bill Paterson, Ben Crompton, Jane Lapotaire e Ashleigh Reynolds.

“Rebecca – A Mulher Inesquecível” é a nova adaptação do romance de Daphne du Maurier. No cinema os livros da autora encontraram em Alfred Hitchcock o condutor ideal para suas tramas de suspense. Foram três: “A Estalagem Maldita”, “Rebecca” e “Os Pássaros”. Ao assistir a nova obra, é impossível evitar a comparação com o longa de estreia de Hitchcock e vencedor do Oscar de melhor filme daquele ano. A refilmagem apresenta uma ótima produção, são ambientações e cenários lindos. Um bom elenco e um grande cuidado com o visual do filme. Mas peca no suspense e na falta de profundidade da trama e seus personagens. É engraçado como o trabalho de Hitchcock, que em 2020 fez oitenta anos, parece muito mais atual e relevante do que essa nova produção da Netflix. 

Uma jovem humilde (Lily James) se casa com um rico nobre, Maxim de Winter (Armie Hammer) e se muda para sua mansão na costa da Inglaterra. A nova Senhora de Winter logo percebe que o fantasma da antiga esposa de Maxim, a falecida Rebecca, é presente na vida e na casa de seu marido.  Ela passa a viver às sombras da a misteriosa esposa e aos poucos descobre segredos sobre o passado. Enquanto a versão de Alfred Hitchcock aposta no suspense, mistério e talento de seu elenco. A versão de 2020 foca em um visual bonito, com um lindo design de produção e figurinos elaborados. O diretor Ben Wheatley tenta construir o suspense e mistério pela ambientação e atmosfera. Porém seus planos coloridos e iluminados não conseguem captar o clima de uma história opressiva e assustadora. Em uma Trama surpreendente como a de “Rebecca” a narrativa é falha em construir suas várias reviravoltas. Faltam elementos que ao longo da trama nos preparem para certos acontecimentos e atitudes dos personagens. Um bom exemplo é a virada final que não ganha tempo suficiente para ser desenvolvida, acontece de forma acelerada e desleixada.  

“Rebecca – A Mulher Inesquecível” flerta com o horror psicológico e passa superficialmente pelo suspense e mistério. Com um ritmo lento apresenta revelações importantes sem o devido destaque.  Falha na construção de um clima claustrofóbico e não dá o devido valor a seus personagens. Uma refilmagem que deixa a desejar.

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Sunça no Streaming – A Vingança de Lefty Brown – Amazon Prime Video (2017)

Lefty Brown (Bill Pullman) é um ajudante de 63 anos que toda a sua vida ficou ao lado da lenda do faroeste Eddie Johnson (Peter Fonda). Johnson foi apontado como senador de Montana e, apesar das objeções da esposa Laura, planeja deixar Lefty em cargo do rancho. Quando um ladrão mata Johnson, Lefty é confrontado pela sombra do parceiro e das feias realidades da justiça na fronteira.

111 min – 2017 – EUA

Dirigido e roteirizado por Jared Moshé. Com Bill Pullman, Kathy Baker, Jim Caviezel, Peter Fonda, Tommy Flanagan, Diego Josef.

Eu adoro faroestes. O bangue-bangue, como carinhosamente chamo os filmes do gênero, me fascina. Além de reassistir grandes clássicos presentes em minha coleção de dvds e blu-rays, é comum me encontrar pesquisando por obras de western nas plataformas de streaming. E foi assim, “garimpando ouro” que encontrei no Amazon Prime Video “A Vingança de Lefty Brown”. Filme de 2017, inédito no Brasil e que chegou a plataforma em fevereiro de 2020.

Já em seus primeiros minutos o longa enquadra a entrada de um saloon em uma noite chuvosa. Um tiro ecoa e um homem cai morto. A uma dupla se aproxima e um deles entra pela porta da frente e o outro fica de vigia na saída. O clima clássico de um bom velho oeste está posto. Após a resolução do assassinato, na lei cruel daqueles tempos, os homens cavalgam de volta para casa. O primeiro é o lendário xerife Eddie Johnson (Peter Fonda) e o segundo é seu parceiro, companheiro e amigo a quarenta anos, Lefty Brown (Bill Pulman).

A obra que traz uma nova perspectiva ao gênero, é repleta de referências aos grandes clássicos. E faz constantes acenos aos fãs do oeste selvagem. Presenciamos a chegada do “progresso”, e junto a ele, novas ambições, novos perigos e a necessidade de se adaptar.  Eddie foi eleito senador e está a caminho de Washington, vai abandonar sua carreira de xerife e pretende deixar seu rancho para Lefty. O que não agrada nenhum pouco a sua esposa Laura (Kathy Baker) que não acredita no potencial do ajudante desajeitado. Lefty Brown reconhece que não é inteligente ou esperto e se mostra envergonhado por nunca ter aprendido a ler. Seu caminhar é desajeitado e manca constantemente. Sua voz é rouca e esganiçada e o tom dela assume toques levemente cômicos. Mas sua lealdade e honestidade é inquestionável, por isso a decisão de seu amigo Eddie. Mas todo o cenário muda quando o lendário herói é assassinado.  

Lefty parte em busca de vingança e justiça. No caminho encontra o garoto Jeremiah Perkins (Diego Josef), o jovem sonha em se tornar pistoleiro e logo se mostra um fã dos grandes nomes do Oeste. Um leitor das revistinhas e baladas sobre as lendas do faroeste. Um personagem como Lefty nunca aparece nesses relatos fantasiosos, por isso o título original do filme “The Ballad of Lefty Brown”. Dois amigos antigos de Eddie e Lefty tentam ajudar Laura nesse momento difícil e acabam se envolvendo na busca. Jimmy Bierce (Jim Caviezel) atual governador de Montana e o xerife Tom (Tommy Flanagan). Saindo da posição de ajudante e coadjuvante e assumindo o protagonismo, Lefty Brown têm que enfrentar diversas reviravoltas, tiroteios, interesses maldosos e corrupção política.  Ele é injustiçado, ridicularizado e humilhado. Seu protagonismo é colocado a prova. O diretor e roteirista Jared Moshe é cuidadoso ao não alterar as características de Brown, ele assume as rédeas da trama e passa a controlar a narrativa mas sem nunca deixar de ser o desajeitado que é. O que não o impede de se mostrar um herói e uma lenda do oeste.  

Acompanhamos essa saga com a linda fotografia de David McFarland, as paisagens de Montana são belas e bem utilizadas. Os cenários se tornam um dos personagens que ajuda no clima épico de toda a trama que presenciamos. Nos demais personagens arquétipos clássicos estão presentes. O jovem que pretende ser pistoleiro, o herói que afoga suas mágoas em uma garrafa de uísque e o político inescrupuloso. Tudo isso afina o clima de bangue-bangue. Para melhorar o acerto as performances são ótimas, Peter Fonda em seus poucos minutos como Eddie consegue evocar uma figura forte e virtuosa. Kathy Baker apresenta Laura como uma mulher forte e decidida. Diego Josef é o jovem aprendiz que passar a perceber em Lefty todas as virtudes que Eddie vê e aprecia. Porém o mais importante para o sucesso da obra é a performance de Lefty Brown, e Bill Pullman faz um trabalho incrível. Lefty tem uma personalidade própria, é carismático e cativante. Um personagem leve e cômico cheio de excentricidades e com coração.

“A Vingança de Lefty Brown” é a balada de Lefty.  A canção e relato de seu grande feito, uma forma de relembrar e celebrar essa grande figura do oeste e seus atos de coragem. Uma obra divertida e emocionante. Carregada de referências aos clássicos e com um clima e sensação do velho oeste. Um longa que apresenta elementos do gênero e que sabe também subvertê-los. O eterno coadjuvante, o acompanhante do herói é colocado como protagonista e mostra que é uma das grandes lendas do faroeste.

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Sunça no Streaming – Vigiados – Amazon Prime Video (2020)

Em Vigiados, dois casais em um retiro à beira-mar começam a suspeitar de que o dono da casa alugada, aparentemente perfeita, pode estar espionando-os. Em pouco tempo, o que deveria ser uma viagem comemorativa de fim de semana se transforma em algo muito mais sinistro, à medida que segredos bem guardados são expostos e os quatro velhos amigos passam a se ver sob uma luz totalmente nova.

88 min – 2020 – EUA

Dirigido por Dave Franco. Roteirizado por Dave Franco, Joe Swanberg e Mike Demski. Com Dan Stevens, Jeremy Allen White, Alison Brie, Sheila Vand, Toby Huss, Connie Wellman.

Um grupo de jovens viaja para um lugar paradisíaco e isolado. Algo parece estranho e paira uma sensação de que eles não deviam estar ali. Coisas misteriosas acontecem e pequenas atitudes e decisões são tomadas. Elas iniciam uma “bola de neve” fatal. Essa é uma premissa muito conhecida dos cinéfilos e tão utilizada que já existem clássicos até mesmo em jogos de tabuleiro e vídeo  game. “Vigiados” é a primeira empreitada do diretor Dave Franco, que além de ser uma bonita homenagem ao gênero terror, traz algumas atualizações a uma mistura com o subgênero slasher.  

Na primeira parte da obra, que se estende durante a primeira hora, a atmosfera é de incerteza. Dave não poupa tempo para nos apresentar os ambientes e seus personagens. Desenvolve as relações entre eles e vai construindo a tensão pontualmente com pistas, movimentos de câmera e pequenas aparições. É comum assistirmos aos personagens enquadrados de longe o que sugere a todo momento que alguém os está observando. Charlie (Dan Stevens), sua esposa Michelle (Alison Brie), seu irmão Josh (Jeremy Allen White) e sua sócia, e namorada de Josh, Mina (Sheila Vand), alugam uma casa de luxo a beira mar para um fim de semana de descanso, festa e curtição. Por lá, coisas estranhas acontecem.   

É interessante perceber como desde o ínicio existem sinais claros de que o final de semana não iria acabar bem, tanto no aspecto pessoal, social e íntimo do grupo. Quanto no aspecto sinistro de toda a viagem. Em alguns momentos a trama sugere que o potencial desastre vai ser causado pelo próprio grupo de jovens. E em boa parte é. Decisões erradas são tomadas, delitos são cometidos e todas as ações têm consequência e não são perdoadas pelo roteiro.  Durante a atmosfera de incerteza que reina no o início da obra o terror vêm das mentiras, manipulações e falhas humanas. Até que de fato surge, na segunda metade do filme, a grande ameaça. Que pode até soar como punição. Como tivemos um bom tempo com esses personagens, antes dessa revelação, nos importamos com eles o que é fundamental para que toda a etapa final seja eficaz. 

“Vigiados” é uma bonita homenagem e um bom filme de terror. Dave Franco têm uma estreia bem sucedida na direção, é possível perceber suas influências apesar de seu filme ter uma personalidade própria.

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Sunça no Streaming – Enola Holmes – Netflix (2020)

Enola Holmes (Millie Bobby Brown) é uma menina adolescente cujo irmão, 20 anos mais velho, é o renomado detetive Sherlock Holmes (Henry Cavill). Quando sua mãe desaparece, fugindo do confinamento da sociedade vitoriana e deixando dinheiro para trás para que ela faça o mesmo, a menina inicia uma investigação para descobrir o paradeiro dela, ao mesmo tempo em que precisa ir contra os desejos de seu irmão, Mycroft (Sam Claflin), que quer mandá-la para um colégio interno só de meninas.

123 min – 2020 – EUA

Dirigido por Harry Bradbeer. Roteirizado por Jack Thorne (Baseado nos livros de Nancy Springer, inspirados na obra de Arthur Conan Doyle). Com Millie Bobby Brown, Henry Cavill, Sam Claflin, Helena Bonham Carter, Louis Partridge, Adeel Akhtar, Fiona Shaw, Frances de la Tour, Susie Wokoma, Burn Gorman, David Bamber, Hattie Morahan.

“Enola Holmes” traz uma abordagem mais informal e descontraída para figuras já consagradas do universo do detetive criado por Arthur Conan Doyle. A produção têm a intenção de agradar e atrair o público jovem, e para isso, aposta em retratar a jornada de amadurecimento da jovem Enola Holmes (Millie Bobby Brown). Ela está sozinha pela primeira vez e têm que aprender a se virar. A protagonista é cativante e tem uma personalidade forte, Enola não exita em confrontar seus irmãos mais velhos Mycroft (Sam Claflin) e Sherlock (Henry Cavill). No dia do seu aniversário de dezesseis anos sua mãe Eudoria (Helena Bonham Carter) desaparece e essa é a fagulha que inicia a trama de auto-descoberta e investigação da garota. Em sua busca pela mãe  a detetive acaba salvando o jovem lorde Tewkesbury (Louis Patridge) e assim seu primeiro caso “cai” literalmente em seu caminho.  

A trama parte da ideia de busca da figura materna e assim permite que a personagem expanda seus horizontes e viva experiências se descobrindo a cada etapa do percurso. Para isso o diretor Harry Bradbeer escolhe um enfoque dinâmico e ágil. Harry recentemente trabalhou na série “Fleabag”, alguns aspectos e elementos narrativos muito utilizados na série repercutem nesta obra, que têm sua história baseada em uma série de livros “Os Mistérios de Enola Holmes” da autora Nancy Springer. Seguimos em um ritmo acelerado que nos leva a vários cenários diferentes acompanhados por uma trilha sonora que ajuda a deixar a investigação mais dinâmica. Millie Bobby Brown é carismática e consegue trazer a arrogância dos Holmes ao mesmo tempo em que nos cativa e deixa interessados em suas buscas e experiências. Suas constantes quebras da quarta parede inicialmente surgem como uma interação simpática e funciona em prol da narrativa. Porém ao decorrer do filme se torna um elemento repetitivo e didático. 

São poucas as sequências em que a investigação é o destaque, e as constantes explicações da protagonista deixam tudo ainda mais banal. Sabemos tudo o que ela pensa, tudo o que ela faz e tudo o que pretende fazer. O caso é simples, e já na metade da trama é possível saber seu desfecho. Outro recurso utilizado ao extremo são os flashbacks de Enola e sua Mãe. É um acerto do longa focar na jovem Holmes e tirar de cena seus irmãos mais famosos. Henry Cavill e Sam Claflin estão bem muito bem em seus personagens, são elegantes e trazem uma abordagem mais clássica para os irmãos. Mesmo com poucas participações eles geram interesse e chamam atenção. Por causa disso, talvez fosse mais interessante que os personagens tivessem menos importância no roteiro. Mycroft vê a irmã como uma “criatura selvagem” e está constantemente irritado com ela. Sherlock segue suas investigações frias e no decorrer dos acontecimentos passa dar atenção a irmã, porém de início é indiferente a ela. 

As constantes explicações de tudo que vemos em tela incomoda. Elas vão além dos mistérios e passam também pelo texto da obra. Todas as reflexões sobre a emancipação feminina, sobre os abusos que mulheres sofriam na época e a luta por direitos iguais são bem vindas e necessárias. Mas poderiam ser menos didáticas, a impressão que fica é de que o roteiro a todo momento está com medo de que o espectador não esteja entendo seus acontecimentos e suas importantes discussões. O texto enaltece a todo momento a emancipação feminina, por isso, incomoda um pouco que em alguns momentos Enola precise de resgates e ajudas de personagens masculinos, principalmente nas figuras do lorde Tewkesbury e de Sherlock Holmes.

Eudoria cria sua filha para que se torne uma mulher independente e forte. E isso acontece. “Enola Holmes” funciona como o primeiro episódio de uma série, introduz uma protagonista carismática e com personalidade que pode e deve se aventurar em seus próprios mistérios e investigações.

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Sunça no Streaming – Estou Pensando em Acabar com Tudo – Netflix (2020)

Um homem leva sua namorada para viajar e, assim, conhecer seus pais. Porém, um desvio inesperado transforma a viagem do casal numa jornada terrível rumo a fragilidade psicológica e pura tensão.

134 min – 2020 – EUA

Dirigido por Charlie Kaufman. Roteirizado por Charlie Kaufman (baseado na obra de Iain Reid). Com Jesse Plemons, Jessie Buckley, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd, Hadley Robinson, Gus Birney, Abby Quinn, Colby Minifie, Anthony Robert Grasso, Teddy Coluca, Jason Ralph, Oliver Platt, Frederick Wodin, Ryan Steele.

 Somos formados de várias personas e temos interesses nas mais variadas áreas. Me considero um cartunista, publicitário, quadrinista, radialista, pintor, escritor dentre várias outras atividades. Além de ser também um amálgama de diferentes pessoas. Por exemplo, já fui um guitarrista de uma banda de garagem mundialmente famosa. Também sou o Homem-Aranha e em determinado momento fui um astronauta que salvou o planeta ao som de “I Don’t Want To Miss A Thing”. E como esquecer as diversas vezes em que salvei vilarejos ao vencer duelos de bangue-bangue. Ostento com muito orgulho os diversos Oscars que recebi ensaboado no chuveiro. Na minha cabeça meio louca e mal compreendida (Por mim mesmo), já fui de tudo um pouco. Minhas memórias e criações coabitam e interagem formando quem eu sou.  

O diretor e roteirista Charlie Kaufman tem a incrível habilidade de adentrar no inconsciente humano. “Estou pensando em acabar com tudo” é um convite de Kaufman para uma jornada onde vemos a vida, o que ela foi ou o que poderia ter sido, ou até mesmo o que Jake (Jesse Plemons) gostaria que tivesse sido. É compreensível que ao rever sua vida alguém coloque em cheque suas escolhas, decisões e que misture realidade e ficção, para que seu fim seja algo mais justo em sua própria percepção. Ao rever o passado a “realidade” são suas memórias e aqui entra outro ponto chave da narrativa. Memórias são subjetivas e se misturam com nossas percepções e emoções.  Esse registro distorcido de nossa existência influencia sobre como interpretamos nosso presente e como nos enxergamos nele. Daí a discussão presente no longa sobre os humanos serem os únicos animais não capazes de viver no presente.   

Na trama a personagem creditada com jovem mulher (Jessie Buckley) viaja com o namorado Jake sob uma tempestade de neve para conhecer os pais do Rapaz, interpretados por Toni Collette e David Thewlis. Eles namoram a poucas semanas, aliás, a protagonista sequer se lembra o tempo exato. O que é um sinal de que as coisas não caminham bem. Está aí uma das leituras do título e a mais literal.  “Estou pensando em acabar com tudo” é um filme que vai dialogar com cada um de uma forma única. O longa é bem estruturado e sabe unir várias narrativas e gêneros em seus segmentos. Já no início em uma conversa claustrofóbica e opressora dentro do carro percebemos a inconsistência na jovem mulher. Sua personalidade muda a todo momento, ela demonstra falta de interesse em poesia e alguns segundos depois recita de memória um poema que acredita ser seu. Poema, que mais tarde percebemos ser da poeta Eva H.D. autora de um livro que Jake guarda em seu quarto. Sua profissão e nome também mudam constantemente, ela foi bióloga, física, garçonete e ao longo do enredo é chamada de “Lucy”, “Lúcia”, “Louise”, “Amy” e “Tonya”. 

É passeando pelo tempo e espaço que vamos conhecendo mais sobre esse casal. Saltamos do dia para a noite na velocidade de uma palavra e de um ambiente para o outro em um piscar de olhos. É um trabalho primoroso de montagem que nos deixa inquietos, interessados e incomodados. A razão de aspecto reduzida sufoca sua protagonista e compartilha conosco a angústia da jovem mulher.  É na dinâmica e no diálogo entre o casal que montamos o quebra cabeça que é a vida de Jake.  Jesse Plemons mistura carisma com estranhamento sabendo mostrar fragilidade e insegurança. Um bom trabalho de atuação que nos diz muito sobre o amadurecimento conturbado daquele personagem.  Jessie Buckley faz um ótimo trabalho com a protagonista complexa que o roteiro lhe entrega. Sabendo ser uma projeção criada e ao mesmo tempo uma pessoa independente com suas próprias vontades. Em vários momentos ela representa as angústias e incita importantes reflexões. Suas percepções acabam se unindo a nossa e assim conhecemos os pais de Jake, através das memórias dele. E vemos seus pais nas mais variadas idades e etapas da vida. Sempre com diferentes sensações e emoções, seja em momentos uma visão repulsiva e em outras carinhosa, protetora e até mesmo opressiva e raivosa.   

A jovem também nos permite conhecer Jake, já que nas constantes mudanças de comportamento e interesses faz várias referências culturais. Mudanças que podem se justificar na mistura de mulheres idealizadas pelo rapaz e até mesmo no que ele próprio gostaria de ter sido. Ela pinta as mesmas pinturas Jake e que na verdade são obras de Ralph Albert Blakelock. Ao discutirem sobre o filme “Uma Mulher Sob Influência” repete a crítica escrita por Pauline Kael. E isso é natural, constantemente recriamos elementos da cultura e sociedade que nos influenciam e cativam. Jake chega a interpretar trechos do musical Oklahoma. Em momentos de estranheza a Jovem mulher percebe que seu namorado parece saber o que ela está pensando. Sentimento que é reforçado ao chegar na fazenda que só têm ovelhas, ver o cachorro da família e perceber sua fotografia de infância no mesmo local que a de Jake. O desconforto ao longo da obra é progressivo e caminha até o momento em que a protagonista não sabe mais onde está. Seu encontro com o zelador do colégio (Guy Boyd) e o simples ato de reconhecer de quem são aqueles chinelos nos revelam a figura criadora por trás de tudo e direciona a narrativa para a leitura mórbida do título. 

“Estou pensando em acabar com tudo” nos lembra também de como é viver. De como nossas memórias e interesses ao longo de nossa jornada nos transforma em quem somos. Nossas alegrias, felicidades, dores e frustrações. O zelador reve suas decisões e opções percebendo seus erros quando é tarde demais para fazer algo a respeito. Talvez por isso, em alguns momentos,  a jovem mulher quebre a quarta parede com um olhar de desprezo. Afinal, no fim da vida o que queremos é acabar reconhecidos e premiados fazendo um belo discurso como John Nash interpretado por Russell Crowe no filme “Uma Mente Brilhante” e não enterrados na neve em uma vida, aparentemente, sem afeto.

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Sunça no Streaming – Power – Netflix (2020)

Em Power, a notícia de que uma nova pílula capaz de liberar superpotências para cada um que a experimentar começa a se espalhar nas ruas de Nova Orleans. Poderes como pele à prova de balas, super força e invisibilidade apareceram em usuários, porém, é impossível saber o vai realmente acontecer até tomá-la. Mas tudo muda quando a pílula acaba aumentando o crime na cidade, fazendo com que o policial local (Joseph Gordon-Levitt) se una a um traficante adolescente (Dominique Fishback) e um ex-soldado com sede de vingança (Jamie Foxx) para combater o poder com poder, chegando na origem da pílula.

111 min – 2020 – EUA

Dirigido por Henry Joost e Ariel Schulman. Roteirizado por Mattson Tomlin. Com Jamie Foxx, Joseph Gordon-Levitt, Dominique Fishback, Rodrigo Santoro, Courtney B. Vance, Amy Landecker, Colson Baker, Tait Fletcher, Allen Maldonado, Andrene Ward-Hammond, Kyanna Simone Simpson, C.J. LeBlanc, CG Lewis, Joseph Poliquin, Jazzy De Lisser.

“Power” é a tentativa da plataforma Netflix de entrar no lucrativo gênero de filmes de super-herói. O novo longa da produtora, mistura elementos do cinema policial com reflexões raciais e violência gore em um universo de herói. A premissa é boa e promete subverter o gênero dos super humanos. O que não acontece. A trama sobre corrupção, traficantes, policiais honestos e corruptos se perde em um roteiro fraco que apela para os caminhos mais comuns presentes no gênero. Funciona como um bom filme de ação, ainda que algumas sequências sejam confusas e mal planejadas. Os efeitos especiais têm qualidade e o longa apresenta uma estética visual muito bonita. É um elenco de peso Dominique Fishback,  Jamie Foxx, Joseph Gordon-Levitt e Rodrigo Santoro. Todos se esforçam, e tentam tirar o máximo de seus personagens unidimensionais. 

Em “Power “ os diretores Henry Joost e Ariel Schulman apresentam a cidade de Nova Orleans em um futuro próximo. Um traficante conhecido como Biggie (Rodrigo Santoro) surge com uma droga experimental que dá super poderes à seus usuários. Cada um reage a droga de uma forma diferente e durante o tempo de cinco minutos ganha um poder especial. A droga causa interesse nos cidadãos e nos criminosos que a utilizam para auxiliar em atividades ilegais. Acompanhamos três personagens, Frank (Joseph Gordon-Levitt) um policial que usa a droga para combater os bandidos super poderosos. Ele é amigo de Robin (Dominique Fishback), uma adolescente que entra para o tráfico para conseguir pagar o tratamento da mãe, enquanto sonha em se tornar rapper. E Art (Jamie Foxx) um ex-soldado, que está atrás do criador da substância para encontrar a sua filha sequestrada. Os personagens não possuem arcos narrativos e essa apresentação é tudo o que é apresentado sobre eles. Os protagonistas nem mesmo têm um sobrenome. Seria bom o brasileiro Rodrigo Santoro rever seus projetos. Além de dar vida a mais um vilão unidimensional e caricato, o próprio filme parece não se importar com ele. A produção cria uma escalada para o “chefão” que poderia ser uma grande ameaça ao final da projeção. Mas no decorrer da trama descarta o personagem com uma facilidade incrível e parte para um novo vilão que ainda não tinha sido apresentado.   

  O roteirista Mattson Tomlin sabe aproveitar bem a droga e seus efeitos aleatórios. Utiliza a imprevisibilidade das pílulas e seu efeito de curta duração para criar a sensação de urgência e ansiedade no espectador. É um texto criativo, mas que em momentos chave opta pelo caminho mais fácil e, portanto, o mais previsível. O relacionamento entre os personagens é um ponto forte que causa empatia e nos faz acreditar que eles realmente se importam uns com os outros e com o que estão fazendo em tela. Ainda que seja a maior fraqueza da obra o roteiro rende boas sequências, como por exemplo quando Art persegue o homem em chamas, quando Frank corre atrás do homem invisível e as cenas de ação do clímax final.  Nesses momentos temos um bom trabalho da dupla de diretores que usa o movimento de câmera e efeitos especiais para construir uma ação dinâmica e empolgante.    

O longa tenta trazer reflexões políticas e raciais. Frank menciona o Katrina e critica a atuação das autoridades. Art conversa com Robin sobre poderes e reflete sobre a sociedade e os problemas raciais. Faz uma colocação sobre os grupos minoritários e como devem ser fortes e encontrar sua habilidade para sobreviver. Mas para por aí e não se aprofunda nessas interessantes e relevantes discussões. Robin é a protagonista que nos representa no filme, uma garota negra de uma parcela marginalizada da sociedade. Essa opção merece destaque, é certamente um ponto forte da trama. Positivo também, é a piada da personagem ser uma “ajudante”, usar as cores vermelho, amarelo e verde e se chamar Robin. É uma pena que o filme precise evidenciar isso em seus diálogos.

“Power” têm uma montagem elétrica com uma trilha empolgante e uma fotografia linda. Mas toda essa estilização não é usada em prol da narrativa, não ajuda no desenvolvimento dos personagens e nem mesmo no impacto das sequências de ação. Acaba sendo só um espetáculo visual lindo, que logo vai ser esquecido. A tendência das recentes produções da Netflix de sempre tentar forçar uma continuação, também não ajuda.

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Sunça no Streaming – Rede de Ódio – Netflix (2020)

Em Rede de Ódio, um jovem passa a fazer sucesso incitando o ódio em campanhas nas redes sociais, atacando desde influenciadores virtuais a políticos renomados. O que ele não contava é que toda essa crueldade no mundo virtual cobraria seu preço no mundo real, complicando sua vida.

135 min – 2020 – Polônia

Dirigido por Jan Komasa. Roteirizado por Mateusz Pacewicz. Com Maciej Musialowski, Vanessa Aleksander, Danuta Stenka, Jacek Koman, Agata Kulesca, Maciej Stuhr.

“Rede de Ódio” é o novo filme exclusivo da Netflix, e a segunda obra do diretor polonês Jan Komasa que também dirigiu “Corpus Christi” indicado ao  Oscar de Melhor Filme Internacional em 2020.  A obra é ambientada nos bastidores de uma rede de criação e distribuição de fake news. Utiliza disso para discutir sobre os efeitos da manipulação de informação digital e disseminação de discursos de ódio. Incita um debate sobre a polarização política, a intolerância e comportamentos nocivos. Em uma trama que aproveita desse cenário para construir um ótimo suspense, onde acompanhamos um protagonista ambicioso e inteligente. Um personagem frio e sagaz que não hesita em executar ações completamente questionáveis.

Quando somos apresentados a Tomasz Giemza (Maciej Musialowski) ele está sendo jubilado da universidade de direito por plágio. Ele é um jovem do interior que têm seus estudos pagos por Robert (Jacek Koman) e sua esposa Zofia (Danuta Stenka). Tomasz tem uma paixão não correspondida pela filha do casal a Gabi Krasucka (Vanessa Aleksander). O que ele quer é conquistar Gabi e cair nas graças da família. A vida do protagonista muda, quando ele consegue um emprego numa agência de marketing com foco em destruir reputações e pessoas. É uma premissa simples que o roteirista Mateusz Pacewicz sabe aproveitar ao máximo. Tomasz é uma pessoa que deseja atenção e poder, e seu ambiente natural parece ser o ódio e a intolerância muito presente nas redes sociais.  É um sociopata que passa a unir seu trabalho inescrupuloso as suas intenções narcisistas. Durante a obra acompanhamos a construção psicológica do protagonista, ele inicia o longa como um infrator de plágio e termina como alguém que não exita em cometer qualquer tipo de crime para conquistar seus objetivos. É um ótimo trabalho de Maciej Musialowski, uma atuação baseada em detalhes e pequenos gestos. Seus olhos sempre vidrados nas telas observando as redes sociais também nos mostram o prazer do personagem em manipular pessoas e sair impune de suas terríveis ações. 

Enquanto caminhamos junto de Tomasz e conhecemos seu psicológico quebrado, também adentramos no mundo das fake news e da manipulação online de informação e de pessoas. Um ambiente cruel que vai nos fazer refletir sobre o contexto polarizador em que vivemos, a cultura de cancelamento de pessoas e celebridades, homofobia, intolerância e o discurso de ódio. São questões complexas e atuais que o roteiro sabe tirar proveito nesse impactante thriller. “Rede de Ódio” demonstra que sabe muito bem o que está fazendo quando coloca seu personagem principal caminhando pelos dois lados da polarização criada. O roteiro tem o cuidado de gerar uma pequena simpatia por seu protagonista, mas não para justificar seus atos e sim para evitar o cansaço que poderíamos sentir ao acompanhar alguém tão egoísta e repugnante. Afinal sempre que chegamos próximos de um sentimento de empatia por Tomasz ele toma uma atitude terrível sem demonstrar remorso. Em algumas sequências a obra adota uma curiosa montagem que coloca momentos de passado e de presente em paralelo, que aumenta ainda mais a dualidade de Tomasz. Além de gerar uma proposital desorientação, nessa interessante reflexão sobre mentira e impunidade que a produção apresenta. 

A trama acaba facilitando a vida de seu personagem principal em alguns momentos e, por ser uma obra ficcional, sua narrativa toma algumas liberdades e comete alguns exageros. Sua ascensão política é rápida e fácil, em alguns momentos Tomasz consegue entrar em casas, clubes e prédios com tranquilidade. Mas não é algo que cause impacto na suspensão de descrença do espectador. O encerramento é ousado e poderoso. A fragilidade do “final feliz” está estampada no olhar do protagonista e se confirma pelo enquadramento final do diretor Jan Komasa que emoldura seu personagem principal como antes observamos uma de suas vítimas. “Rede de Ódio” é um filme para se assistir, pensar, debater e refletir. 

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – É o Bicho! – Netflix (2020)

Em É o Bicho!, uma família recebe, como parte de uma herança, um circo e uma caixa mágica de biscoitos. Aquele que come algum biscoito dessa caixa, logo se transforma em um animal. Quando o tio Horatio P. Huntington começa a desejar se tornar dono do circo, eles farão de tudo para impedir que a atração caia em suas garras maléficas.

105 min – 2020 – EUA

Dirigido por Tony Bancroft, Scott Christian Sava e Jaime Maestro. Roteirizado por Dean Lorey, Scott Christian Sava (baseado na graphic novel Animal Crackers). Com John Krasinski, Emily Blunt, Lydia Rose Taylor, Ian McKellen, Danny DeVito, James Arnold Taylor, Tara Strong, Sylvester Stallone, Raven-Symoné, Wallace Shawn e Patrick Warburton.

A colorida e charmosa nova animação da Netflix, narra a história de um circo mágico. Trama que é levemente baseada nos quadrinhos “Animal Crackers” de Scott Christian Sava, um dos diretores e roteiristas do longa, e que conta com um elenco de peso. Emily Blunt, John Krasinski, Danny DeVito, Sir. Ian McKellen e Sylvester Stallone são alguns dos nomes envolvidos no projeto. Um filme divertido e agitado que certamente vai captar a atenção das crianças, mas que ignora a possibilidade de cativar e envolver um público adulto. “É o Bicho!” foca no público infantil apostando na multiplicidade de cores, vários animais e gags visuais, mas têm um roteiro raso e superficial. 

Nos anos sessenta somos apresentados a Horatio P. Huntington (Sir. Ian McKellen) o apresentador e estrela do circo Irmãos Huntington. Um personagem vaidoso que busca a fama e fortuna. Seu irmão Buffalo Bob (James Arnold Taylor) é simpático, bondoso e amigo de todos do circo. O que Bob realmente quer é entreter o público. Quando a personagem Talia (Tara Strong) entra para o espetáculo, ela passa a ser cobiçada pelos dois que acabam se tornando rivais pelo amor da moça. Tália e Bob se casam e Horatio deixa o circo. Como presente de casamento o casal recebe uma caixa mágica que traz o segredo dos animais. Esse é o prólogo narrado pelo palhaço Chesterfield (Danny DeVito). No presente e conhecemo o casal Owen (John Krasinski) e Zoe (Emily Blunt) e sua filha Mackenzee (Lydia Rose Taylor). Eles recebem de herança o circo e a caixa mágica e tem que lutar para reunir a família e salvar o espetáculo das garras de um antigo rival.

Em 2020 optar contar uma história que se passa em um circo de animais é uma escolha controversa. São espaços onde atualmente os bichinhos são proibidos, ambientes que ficaram marcados pelos maus tratos e torturas em treinamentos. Os animais como parte do show só se justifica dentro da trama pelo fato de serem mágicos e que os artistas e o público sabem disso. É um show de magia e encantamento. Mesmo assim, me incomoda a ideia de um filme infantil relacionar a diversão e alegria de um circo aos animais. Ainda que tenha o cuidado de torná-los mágicos e fantasiosos.  

A animação apresenta um design de personagem genérico, mas capricha nas sequências de ação. Os espetáculos no circo e as cenas de transformação em animais são cheia de energia, organizadas e bem ambientadas. Owen assume a forma de diversos animais e com alguns detalhes no design e com o trabalho de voz de John Krasinski o longa consegue dar unidade a todas essas formas e criações. O personagem Homem-Bala de Sylvester Stallone merece uma menção por evocar boas risadas. A direção de Jaime Maestro, Scott Christian Sava e Tony Bancroft, é ágil e rápida. Com um visual colorido animais e humanos se misturam em cenas de ação, aventura, humor e números musicais. Nessa correria o roteiro de Dean Lorey e Scott  Christian Sava, ignora e torce para que não tenhamos tempo de pensar por exemplo: Quem são os pais de Owen? Ou então que mágica é essa e de onde vêm. Nas palavras do sábio palhaço Chesterfield: “Maldição cigana, farinha velha, ácaros radioativos – quem sabe? Quem se importa? É mágico!”

“É o Bicho!” têm várias subtramas em uma narrativa acelerada que não perde tempo com explicações. Sua história possui três saltos temporais o que gera um efeito negativo de falta de conexão entre personagens importantes. O que faz falta ao longo da produção uma vez que no fundo seu tema é sobre família e relações familiares. Uma produção simpática e interessante, mas uma experiência que com o tempo é fadada ao esquecimento. 

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – The Old Guard – Netflix (2020)

Em The Old Guard, Andy (Charlize Theron) e seus companheiros formam um grupo de soldados que possuem a inestimável virtude da vida eterna. Eles vivem através dos anos oferecendo seus serviços como mercenários para aqueles que podem pagar, se passando como seres humanos comuns dentre os demais. No entanto, tudo muda com a descoberta de que existe uma outra imortal que atua como fuzileira naval.

118 min – 2020 – EUA

Dirigido por Gina Prince-Bythewood. Roteirizado por Greg Rucka (baseado em HQ de Greg Rucka e Leandro Fernandez). Com Charlize Theron, KiKi Layne, Matthias Schoenaerts, Marwan Kenzari, Luca Marinelli, Chiwetel Ejiofor, Harry Melling, Van Veronica Ngo, Natacha Karam, Mette Towley, Anamaria Marinca, Micheal Ward, Shala Nyx, Majid Essaidi, Joey Ansah, Andrei Zayats, Olivia Ross.

O novo longa original da Netflix, mais uma vez, aposta na adaptação de um gibi. “The Old Guard” é baseado em uma hq, de mesmo nome, escrita pelo talentoso quadrinista Greg Rucka, que assina o roteiro do filme, e desenhada por Leandro Fernández. A obra traz como protagonista Andrômaca de Cítia ou “Andy” como é chamada a personagem de Charlize Theron. Em 2015 a atriz impressionou no excelente “Mad Max: Estrada da Fúria” e em 2017 se consagrou como uma estrela de ação no ótimo “Atômica”.  Theron brilha mais uma vez em um filme do gênero, mesmo que dessa vez, a obra apresente um resultado que não atinge seu potencial.

Em uma trama interessante e com potencial para sequências, spin-offs e filmes derivados. Somos apresentados a Andy uma guerreira que lidera um grupo de imortais. Os protagonistas lutaram em várias guerras ao longo da história, tentando sempre proteger os indefesos e ajudar a humanidade. No presente, atuam como um esquadrão de operações especiais trabalhando em missões e buscando fazer o bem no mundo. A líder Andy é a mais antiga do grupo, junto a ela temos Brooker (Matthias Schoenaerts) um sobrevivente das guerras napoleônicas, Joe (Marwan Kenzari) e Nicky (Luca Marinelli) ambos foram cavaleiros das Cruzadas, porém de lados opostos na batalha. O grupo passa a ser perseguido por uma empresa farmacêutica que pretende descobrir o segredo da imortalidade. No meio disso surge uma nova imortal, Nile (Kiki Layne) uma fuzileira do exército norte-americano.  

A personagem de Charlize Theron têm mais destaque, sua a performance e dedicação as cenas de luta elevam o filme. Sabemos um pouco mais sobre seu passado, seus traumas e seus objetivos. Mas sabemos muito pouco sobre os demais imortais. Suas origens e algumas informações do passado são reveladas e se mostram interessantes. São poucos elementos que acabam fazendo falta para os arcos e narrativas dos personagens. Não compreendemos suas motivações o que atrapalha a dinâmica do filme. Os antagonistas são ainda mais rasos, o ex-agente da CIA Copley (Chiwetel Ejiofor) têm propósito e motivações apresentadas, ainda que suas ações e crenças mudem conforme seja necessário na trama. Já Merrick (Harry Melling) é o vilão caricato e unidimensional. O roteiro de Greg Rucka apresenta uma história imersiva e curiosa. O longa propõe uma discussão sobre a imortalidade tentando abordar o lado emocional de se viver centenários. Reflete sobre as dores, o sofrimento e as inúmeras perdas que uma existência prolongada pode trazer.  Porém a falta de informações importantes e alguns arcos dramáticos incompletos atrapalham a narrativa do filme. Ao terminar a projeção a impressão é de assistir a um primeiro capítulo de uma série. O que de fato se comprova com o gancho narrativo proposto.

A violência é explícita, mortes gráficas e sanguinolentas, com efeitos especiais bem trabalhados. As cenas de luta merecem destaque, são bem filmadas e enquadradas pela diretora Gina Prince-Bythewood. Ela nos mantém com uma boa noção espacial durante as lutas e, em alguns planos estáticos, nos permite ver a ação de forma contínua. Aqui entra um outro elogio a coreografia das lutas e ao trabalho de dublês. A dedicação de Theron é perceptível, está muito bem nas cenas o que permite menos cortes e mais ação em suas lutas. 

“The Old Guard” é um bom filme de ação que consegue alcançar esse patamar devido ao carisma e talento de Charlize Theron. A coreografia de lutas e trabalho de dublês também são um ponto forte. Apresenta uma história interessante e uma boa discussão sobre a imortalidade e sobre a humanidade. Suas reflexões são rasas e a trama é apressada. A intenção criar uma nova franquia é explícita. O que não me parece algo ruim. O mundo criado é imersivo e, em uma possível sequência, aprofundar na mitologia dos imortais, no passado de seus personagens e na origem de seus poderes. É algo promissor.

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – Wasp Network – Rede de Espiões – Netflix (2020)

Em Wasp Network: Rede de Espiões, durante a década de 1990, o governo de Cuba decidiu instalar um grupo de espiões em plena Flórida, no intuito de combater movimentos instalados no local, que buscavam desestabilizar o país com o objetivo de derrubar Fidel Castro.

133 min – 2020 – EUA

Dirigido por Olivier Assayas. Roteirizado por Olivier Assayas, Fernando Morais. Com Moura, Penélope Cruz, Edgar Ramírez, Gael García Bernal, Ana de Armas, Harlys Becerra, Julia Flynn, Gisela Chipe, Brannon Cross, Michael Vitovich, Steve Howard.

“Wasp Network: Rede de Espiões” novo longa da Netflix promete contar a história de uma ação do governo cubano para instalar um grupo de espiões na Flórida. O objetivo dos agentes era se infiltrar em movimentos que buscavam derrubar Fidel Castro. De fato, aqui existe uma boa história a ser contada. Porém, com uma trama muito fragmentada e sequências que não trabalham em conjunto para avançar a narrativa. A produção parece perdida e nunca decide qual é a história que vamos presenciar. É um elenco estrelado, que na medida do possível, apresenta bons trabalhos. A sensação que fica é de desperdício. O longa tem uma boa premissa e um bom elenco, mas não consegue nos apresentar uma experiência narrativa satisfatória. 

O diretor Olivier Assayas apresenta um filme sobre uma rede de espionagem sem espiões. Assayas opta por nos esconder a identidade dos agentes durante o primeiro ato da produção. Inicialmente acompanhamos um drama de desertores do governo de Fidel. Percebemos o impacto das ações de René González (Edgar Ramírez) em sua família e como sua esposa Olga Salanueva (Penélope Cruz) lida com a situação. Ao mesmo tempo acompanhamos o relacionamento de Juan Pablo Roque (Wagner Moura) e Ana margarita martinez (Ana de Armas). Em um segundo momento, a obra resolve nos revelar a rede de espionagem que lhe rendeu seu nome. Através de diálogos expositivos, letreiros e narração em off. Narração, que surge de repente, se repete mais uma vez em outra sequência e desaparece. Também some da trama os personagens de Wagner Moura e Ana de Armas. O arco do casal de nada acrescenta à narrativa que o longa tenta contar.  E é dessa forma rasa que é exposta todas as informações e tramas sobre a espionagem do filme. 

A narrativa retalhada é um dos fatores que atrapalham a experiência proporcionada. Mas não é a única. Diálogos artificiais deixam sequências truncadas e prejudicam os arcos dramáticos de determinados personagens. Como ponto positivo temos o elenco. Wagner Moura consegue roubar a cena em alguns momentos e Penélope Cruz apresenta uma ótima performance conseguindo demonstrar as fragilidades e a força de Olga. Uma personagem desperdiçada. Mulher forte que passa por dificuldades terríveis. São dois momentos de luta e superação em situações inversas mas que se repetem. 

O roteiro adota um tom neutro quanto ao seu posicionamento político. Mas o impacto disso na narrativa é uma falta de profundidade ao tema. Pela obra não é possível se ter uma noção histórica boa dos acontecimentos. E toda a história se passa na crise de Cuba durante a década de noventa, apresentando Fidel Castro, suas políticas e o relacionamento com os EUA de Bill Clinton. O que, sem uma base histórica forte se mostrou inviável. “Wasp Network – Rede de Espiões” é um filme fragmentado, com personagens em excesso, perdido em seu estilo narrativo e sem aprofundamento histórico.

Nota do Sunça:

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