Sunça no Cinema – O Mágico de OZ (1939)

Em Kansas, Dorothy (Judy Garland) vive em uma fazenda com seus tios. Quando um tornado ataca a região, ela se abriga dentro de casa. A menina e seu cachorro são carregados pelo ciclone e aterrisam na terra de Oz, caindo em cima da Bruxa Má do Leste e a matando. Dorothy é vista como uma heroína, mas o que ela quer é voltar para Kansas. Para isso, precisará da ajuda do Poderoso Mágico de Oz que mora na Cidade das Esmeraldas. No caminho, ela será ameaçada pela Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton), que culpa Dorothy pela morte de sua irmã, e encontrará três companheiros: um Espantalho (Ray Bolger) que quer ter um cérebro, um Homem de Lata (Jack Haley) que anseia por um coração e um Leão covarde (Bert Lahr) que precisa de coragem. Será que o Mágico de Oz conseguirá ajudar todos eles?

112 min – 1939 – EUA

Dirigido por Victor Fleming e roteirizado por Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Alan Woolf (baseado no romance The Wonderful Wizard of Oz, de L. Frank Baum). Com Judy Garland, Frank Morgan, Ray Bolger, Jack Haley, Bert Lahr.

“O Mágico de OZ” é um clássico. A imagem de cinco personagens visualmente diferentes caminhando pela estrada de tijolos amarelos é inesquecível. Assim como a maravilhosa canção “Somewhere Over The Rainbow”. Marcadas na memória também estão as frases: “Totó, acho que não estamos mais no Kansas” e “Não há lugar como o lar”. O longa é baseado no primeiro livro da série escrita por L. Frank Baum. Nele acompanhamos a história de Dorothy uma jovem do Kansas que através de um tornado é levada ao mágico mundo de OZ. No Kansas conhecemos sua família e seus afetos e desafetos. Esses personagens criam um paralelo com as novas amizades e inimizades criadas em OZ. 

Na trama Dorothy (Judy Garland) acidentalmente mata a bruxa má do leste, o que deixa os moradores locais, os muchkins, muito felizes. Agrada também a bruxa boa do Norte, Glinda (Billie Burke). Quem não fica feliz é a irmã da falecida, a bruxa má do oeste (Margaret Hamilton), que resolve se vingar. Dorothy e Totó partem em uma jornada para conseguir a ajuda do Mágico de OZ. No percurso ela fica amiga do Espantalho (Ray Bolger) que não têm um cérebro, um leão (Bert Lahr) que não tem coragem e um Homem de Lata (Jack Haley) que não têm um coração. Todos eles resolvem acompanhar Dorothy e pedir ajuda ao mágico para resolver seus problemas. 

É um roteiro eficiente que transforma uma garota do interior cansada de sua rotina em uma heroína num mundo mágico repleto de descobertas e novos amigos. Uma mudança pontuada pela fotografia e pelo diretor do longa. As cenas no Kansas são retratadas em tons sépia e as cenas em OZ em belas cores technicolor. A parte técnica do filme merece destaque. A fotografia com cores vibrantes, os cenários extremamente bem feitos e os efeitos visuais de qualidade nos deixam maravilhados e nos colocam dentro de OZ. São planos e sequências que parecem pinturas. O diretor Victor Fleming faz um ótimo trabalho nas coreografias e sequências musicais. Além de contar com interpretações ótimas, que criam personagens caricatos e divertidos. A maquiagem é incrível e nos deixa acreditar em espantalhos, homens de lata, leões e bruxas malvadas.

“O Mágico de OZ” é um filme infantil, que apresenta uma mensagem de afeto e bondade. Traz a ideia de “Não há lugar como nosso lar” e a temática de que aquilo que procuramos está em nós mesmos. São debates bem construídos e passíveis de várias interpretações. Ainda temos toda uma camada crítica. A relação abusiva entre a bruxa má e os munchkins e as atitudes autoritárias de OZ são bons exemplos. Dorothy sempre teve tudo o que precisava para derrotar a bruxa má, assim como seus amigos já tinham tudo aquilo que buscavam. “O Mágico de OZ” nos convida a perceber como é mágica nossa própria vida e como somos mais fortes e capazes do que imaginamos.  

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Sunça no Streaming – Mulan – Disney Plus (2020)

Em Mulan, Hua Mulan (Liu Yifei) é a espirituosa e determinada filha mais velha de um honrado guerreiro. Quando o Imperador da China emite um decreto que um homem de cada família deve servir no exército imperial, Mulan decide tomar o lugar de seu pai, que está doente. Assumindo a identidade de Hua Jun, ela se disfarça de homem para combater os invasores que estão atacando sua nação, provando-se uma grande guerreira.

115 min – 2020 – EUA/Hong Kong

Dirigido por Niki Caro e roteirizado por Rick Jaffa, Amanda Silver, Elizabeth Martin e Laura Hynek. Com Yifei Liu, Donnie Yen, Li Gong, Jet Li, Jason Scott Lee, Yoson An, Tzi Ma, Rosalind Chao, Xana Tang, Jun Yu, Chen Tang, Jimmy Wong.

*Devido a pandemia estreou apenas na plataforma de streaming Disney Plus

Mulan é o longa-metragem mais recente da Disney, ele segue na proposta de trazer os clássicos do estúdio de animação com uma caracterização real. O realismo não se dá apenas pelo fato de ter um elenco verdadeiro com locações físicas e efeitos especiais, se dá também pela opção de retirar ao máximo os alívios cômicos e as canções da produção original. A história é a mesma. Mulan (Liu Yifei) é uma jovem honrada e corajosa que assume o lugar de seu pai Hua Zhou (Tzi Ma) na batalha. Ele é um veterano de guerra debilitado, por isso, Mulan finge ser homem para como filho assumir o lugar do pai e lutar em uma guerra para salvar a China de um exército de invasores. Com a opção da diretora Niki Caro de fazer uma versão realista, elementos importantes da animação ficaram de fora. Porém elementos ligados à tradição e mitologia chinesa foram adicionados, logo, essa obra se apresenta mais como uma nova adaptação da lenda folclórica de Mulan e menos como uma refilmagem. Isso se confirma na fala do pai da protagonista no início da trama: “Muitas lendas foram contadas sobre a grande guerreira Mulan, essa é a minha”  

A versão de 2020 apresenta um design de produção lindo, um visual belo e sofisticado. São sequências e planos que deslumbram, muitas cores, muita intensidade e um ambiente fantasioso e mágico. Tudo isso com um elenco empenhado e figurinos ricos, detalhados e elegantes. A produção tenta criar um clima épico com paisagens maravilhosas, muitos figurantes e cenários grandiosos. Todo o visual evoca a sensação de tradicionalidade chinesa e remete a filmes do país. É uma tentativa de agradar o público chinês e fugir da representação estereotipada que anos atrás a animação não soube evitar.   A correção desses equívocos é um acerto, assim como retratar trajes e tradições culturais. 

É uma pena que em alguns momentos chave a diretora não saiba tirar proveito da dimensão épica que o longa tenta criar. Cortes rápidos e movimentos bruscos tiram o impacto de sequências de batalha, momentos de revelação perdem a intensidade com enquadramentos genéricos e cenas de clímax são desperdiçadas com mudanças repentinas de quadro. O roteiro é apressado e perde boas oportunidades de criar momentos memoráveis, elaborar melhor seus personagens, criando arcos narrativos interessantes e cativantes. A relação entre Mulan e a bruxa Xianniang (Gong Li) é pouco explorada e os objetivos e crenças da feiticeira são frágeis. Uma personagem que deveria estabelecer um paralelo forte com a protagonista acaba funcionando como um atalho de roteiro.

Uma característica forte na animação é o empoderamento feminino. Mulan treina, é dedicada e se esforça. Assim se torna uma guerreira forte e que se destaca no meio de um exército de homens. Esses elementos estão presentes neste novo filme, porém perdem força com a introdução do chi. Conhecemos a protagonista quando criança treinando com seu pai que reconhece na garota (Crystal Rao) seu potencial. Mulan apresenta uma grande agilidade e habilidade devido a presença de um forte chi. Isso a torna uma “escolhida” alguém que dotada de grandes poderes está destinada a grandes feitos. Ainda que no processo ela precise aprender quem ela é. A denúncia de uma sociedade machista e uma cultura patriarcal enraizada na sociedade está presente. Tudo à volta de Mulan a diz que a honra de uma filha está em um bom casamento.  A protagonista tem que se libertar desses preceitos e preconceitos para assim se tornar uma heroína. 

Mulan aprende a lidar com sua força interior enquanto se entende como pessoa e luta por seu lugar no mundo. Uma obra com um visual lindo, cenários e figurinos elaborados e um sentimento de fantasia e mágica. Porém, é apressado e não dá a devida atenção a seus personagens e suas transformações. Um longa que tenta ser épico e que apresenta uma história sobre tradição e família sem medo de explicitar os costumes machistas e patriarcais.

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Sunça no Cinema – Malditos Cartunistas (2011)

Malditos Cartunistas é o 1o longa-metragem sobre humor gráfico no Brasil. Realizado de forma independente por Daniel Garcia e Daniel Paiva, cartunistas e editores da revista Tarja Preta aborda temas como a rotina de trabalho, censura, arte e mercado editorial. Numa conversa descontraída os autores retratam a história recente do Brasil, traçando um panorama sobre a profissão de desenhista de humor no Brasil desde o Pasquim nos anos 60 até os dias de hoje.

94 min – 2011 – Brasil

Dirigido e roteirizado por Daniel Paiva e Daniel Garcia. Com Adão Iturrusgarai, Allan Sieber, André Dahmer, Angeli, Arnaldo Branco, Caco Galhardo, Chiquinha, Danilo, Fábio Zimbres, Fernando Gonsales, Glauco, Guazzelli, Jaguar, Laerte, Leonardo, Lourenço Mutarelli, Marcatti, Márcio Baraldi, Maurício de Souza, Nani, Ota, Reinaldo, Schiavon, Spacca e Ziraldo.

Em 2011 os diretores Daniel Paiva e Daniel Garcia, que editaram e fizeram parte da equipe da hq independente “Tarja Preta”, lançaram o primeiro longa-metragem sobre o humor gráfico no Brasil. O documentário independente “Malditos Cartunistas” é uma conversa descontraída com quatro gerações diferentes de cartunistas. A partir de depoimentos o filme busca retratar a rotina de trabalho, como funciona o mercado editorial, o processo criativo e traçar um panorama da profissão cartunista e do humor gráfico entre os anos 60 e o início dos anos dois mil. Em 2011, o documentário ganhou o Troféu HQ Mix na categoria “melhor produção em outras linguagens”, também foi premiado no Festival CineSul e no Festival Nacional de Cinema de Petrópolis.

E agora, devido a pandemia do novo coronavírus os autores disponibilizaram na íntegra o documentário em seu canal no Youtube, o “Danieis ltda”. (https://www.youtube.com/user/Danieisltda)

Com pouco equipamento, pouca verba, mas bons contatos os “Danieis” entrevistaram vinte e cinco cartunistas. E a partir dos bate-papos fizeram um recorte onde esses grandes nomes conversam sobre o universo do cartum. Essa conversa, ilustrada com desenhos, cartuns e animações, contou com depoimentos gravados de 2007 a 2010 com os nomes: Adão Iturrusgarai, Allan Sieber, André Dahmer, Angeli, Arnaldo Branco, Caco Galhardo, Chiquinha, Danilo, Fábio Zimbres, Fernando Gonsales, Glauco, Guazzelli, Jaguar, Laerte, Leonardo, Lourenço Mutarelli, Marcatti, Márcio Baraldi, Maurício de Souza, Nani, Ota, Reinaldo, Schiavon, Spacca e Ziraldo.

O documentário conta com uma das ultimas entrevista de Glauco, o criador de Geraldão,  que faleceu em 2010. Glauco é um mestre dos cartuns que junto Laerte e Angeli, influenciou toda uma geração de jovens cartunistas. (Eu fui um deles) “Los Três Amigos” eram chamados.  

A estética é simples e eficiente. São quadros com as imagens dos entrevistados e pequenas inserções de imagens de suas obras e algumas animações. São vários cortes e uma montagem ágil e dinâmica que funciona bem para a proposta do longa.  Como o próprio título demonstra estamos diante de um humor ácido, com depoimentos auto-depreciativos sobre o que é ser um cartunista. Escutamos histórias, casos e experiências que mostram como é viver de humor gráfico, e como é vivenciar esse mercado. Rotinas, carreiras, sucessos e fracassos, as grandes revistas como Pasquim, Chiclete com Banana e Dum Dum tudo isso tem seu espaço e momento dedicado. Também são feitas algumas provocações como: “Quadrinho é arte?”, “É banal?” e “É coisa de criança?”. O roteiro estruturado pelos diretores é rápido e certeiro na maior parte do tempo. Porém em alguns momentos é nítida uma queda no ritmo. Um exemplo é a visita a Maurício de Souza Produções, passagem que parece um pouco fora de contexto.

“Malditos Cartunistas” têm noventa e três minutos de duração, porém foram mais de sessenta horas de filmagem. Com todo esse material extra, não utilizado no longa, e novos nomes como: Daniel Lafayette, Stevz, Tiago Lacerda, Cynthia B., Clara Gomes, Ciça, Tito e Luís Guerreiro, em 2012 nasceu “Malditos Cartunistas a série”. A produção contou com treze episódios e foi veiculada no Canal Brasil. Os capítulos tiveram duração entre dez e treze minutos, foram separados por temas e abordaram novos assuntos. Salões de humor, quadrinhos independentes, internet, adaptação aos computadores foram algumas das novas conversas. A série ainda contou com uma homenagem ao Glauco assassinado em 2010. Todos os episódios também estão disponíveis no canal da dupla no You Tube. Em 2013, a série de TV ganhou o Troféu HQ Mix novamente na categoria “melhor produção em outras linguagens” (https://www.youtube.com/playlist?list=PLfoWJdQ1RsQH78l4z8_WPWPp_qdu9Zi83)

Seis anos depois, em 2018, a saga continuou e tivemos a websérie “Mais Malditos Cartunistas”. A série online seguiu a mesma linha e estrutura, trouxe novos nomes mais contemporâneos, em episódios menores com cerca de cinco minutos de duração. Os nomes da vez foram: Andrício de Souza, Cynthia B., Laerte, Guabiras, Ciça, Paulo Caruso, Clara Gomes, João Montanaro, Luiz Gê e Bruno Maron. Os episódios também estão disponíveis no Youtube, no canal “Danieis ltda”. (https://www.youtube.com/playlist?list=PLfoWJdQ1RsQEa8WGNqVkchdawwB_qQuaO)

Acredito que o documentário gere interesse e que cause um impacto também no público não familiarizado com o mundo dos cartuns. Mas quem gosta da área e já teve algum contato, vai sair da exibição com uma experiência bastante prazerosa.  Um cartum é engraçado e inteligente, ele é certeiro e passa uma mensagem. Muitas vezes não é um desenho bonito mas sempre causa uma reflexão e te apresenta coisas novas. E assim é o documentário “Malditos Cartunistas” um retrato da profissão, através de relatos de quatro gerações diferentes de consagrados cartunistas.

Malditos Cartunistas – https://www.youtube.com/watch?v=GTuHGSeL0QU

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Sunça no Cinema – A Mula (2018)

Um horticultor e veterano da Segunda Guerra Mundial de 90 anos é pego transportando uma quantidade de cocaína equivalente a $3 milhões de dólares para um quartel de drogas mexicano.

116 min – 2018 – EUA

Dirigidor por Clint Eastwood. Roteirizado por Nick Sehenk. Com Clint Eastwood, Dianne Wiest, Alison Eastwood, Taissa Farmiga, Bradley Cooper, Michael Pena, Laurence Fishburne, Ignacio Serricchio, Andy Garcia.

São sessenta anos fazendo filmes. Atuando em mais de setenta e dois longas como ator e uma ótima carreira de diretor que conta com quarenta obras. Após tudo isso, Clint Eastwood chega aos oitenta e nove anos estrelando, dirigindo e produzindo o que pode ser seu último longa como ator. Sou um grande fã de Eastwood, e me parece justo que sua “despedida” seja uma espécie de amálgama de sua carreira.

Earl Stone (Clint Eastwood) é um florista falido de noventa anos. É um péssimo pai e marido, que sempre valorizou sua vida social e profissional acima de tudo. No momento em que perde tudo e todos, passa a atuar como mula para um cartel mexicano. A interessante premissa, que é baseada em uma história real, recebe uma direção eficiente e elegante de Clint Eastwood. Clint apresenta um bom trabalho como o protagonista, e são nesses aspectos que se encontra o grande valor desse longa. Já que o roteiro de Nick Sehenk não fornece muito material para seus personagens.

Earl esbanja charme, é sociável e popular nos eventos onde trabalha. Mas em sua vida pessoal, tem uma relação conturbada com sua esposa e filha. O filme não esconde que essa foi uma opção de seu protagonista que sempre valorizou mais a diversão e o desfrute da vida. Porém, agora no fim de sua jornada, Earl parece se arrepender de tais opções. Clint transmite bem essa personalidade magnética que cativa até mesmo os mal-encarados criminosos do cartel para quem passa a carregar drogas. Seu personagem é também um veterano da Guerra da Coreia que sabe ser durão quando o “bicho pega”, ele não é facilmente intimidado. Apesar do esforço do filme de colocar Earl “casualmente” no tráfico de drogas, é perceptível a má índole do protagonista que sabe bem o que está fazendo para ganhar dinheiro, popularidade em sua vida social e se reaproximar de sua família. Ele não se importa de buscar o caminho mais fácil para tal e gosta quando ganha “status” dentro do cartel.

A estrutura do longa o divide em três frentes. O envolvimento do protagonista com o cartel, seu supervisor Julio (Ignacio Serricchio) e o chefão Laton (Andy Garcia). Sua reaproximação com a ex-mulher Mary (Dianne Wiest) a filha Iris (Alison Eastwood) e a neta Ginny (Taissa Farmiga) e a investigação do DEA conduzida pelo agente Colin Bates (Bradley Cooper) e agente Trevino (Michael Pena) sobre a supervisão do agente especial interpretado por Laurence Fishburne.

Em diversas sequências a obra flerta com uma crítica social e racial. Em alguns momentos de forma bem humorada quando Earl parece mostrar “resquícios” de um passado preconceituoso quando diz “sapatas” e “pretos”, mas colocando-o como alguém que hoje aceita as diferenças e as diversidades. O próprio personagem chega a dizer “Acho que nunca tive filtro de nada”. A própria premissa do longa parte de uma crítica, já que o personagem se mostra uma boa mula para o narcotráfico, justamente por ser um senhor de idade, branco, veterano de guerra viajando em sua caminhonete. O que torna controversa a opção por retratar de forma estereotipada os mexicanos da projeção, sempre os colocando como criminosos. Além de em dois momentos específicos, objetificar as mulheres. Cenas desnecessárias que não ajudam em nada o desencadear da trama.

“A Mula” apresenta aspectos de roadmovie, suspense, passa pelo drama familiar e têm características de humor. Seu roteiro parece uma mistura de tonalidades das várias obras de seu diretor. Earl Stone parece fazer o mesmo, é brincalhão, durão e emotivo. Apresentando traços dos mais variados personagens de Clint. O que me parece, caso seja mesmo, uma boa despedida para a carreira de ator de Eastwood.

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Sunça no Cinema – Mentes Sombrias (2018)

Em um mundo apocalíptico, onde uma pandemia mata a maioria das crianças e adolescentes da América, alguns sobreviventes desenvolvem poderes sobrenaturais. Eles então são tirados pelo governo de suas famílias e enviados para campos de custódia. Entre elas está Ruby (Amandla Stenberg), que precisa se esconder entre as crianças sobreviventes devido ao poder que possui.

104 min – 2018 – EUA

Dirigido por Jennifer Yuh Nelson, roteirizado por Chad Hodge e Alexandra Bracken. Com: Amandla Stenberg, Harris Dickinson, Skylan Brooks, Miya Cech, Mandy Moore, Bradley Whitford e Gwendoline Christie.

Misture os poderes e causa mutante de “X-men”, acrescente a discriminação e separação por castas de “Divergente”. Some a distopia de “Maze Runner” e salpique o triângulo amoroso de “Crepúsculo”. Essa parece ser a receita de “Mentes Sombrias”, a nova tentativa de franquia da FOX. Sagas de sucesso focadas no público jovem adulto não são novidade. Porém, enquanto séries como “Harry Potter” apresentam universos fascinantes com riqueza de personagens e ideias, ou “Jogos Vorazes” que em seu interessante futuro distópico traz um questionamento político e a idéia de luta contra o sistema. “Mentes Sombrias” parece uma mistura apática das recentes produções com o foco nos adolescentes.

O filme, inspirado nos livros de Alexandra Bracken, demonstra uma preocupação de trazer um elenco diverso, o que é muito bom, e temas próprios de seu público alvo. Mas o roteiro de Chad Hodge e Alexandra Bracken aborda tudo de forma superficial e não inventivo. Um bom exemplo da falta de imaginação são os poderes das crianças que basicamente diferem entre telecinese, superinteligência, eletricidade, controle da mente e fogo. E porque a trama considera fogo muito mais perigoso que eletricidade ou levantar objetos com a mente, ainda permanece um mistério para mim.

Em um mundo apocalíptico uma pandemia erradica a maioria das crianças do planeta. As que sobrevivem à doença desenvolvem poderes sobre-humanos. O governo retira essas crianças de seus pais (Que parecem não se importar) e as colocam em campos de concentração onde são divididas por cores de acordo com seus respectivos poderes. Em meio a isso Ruby (Amandla Stenberg) escapa de uma dessas organizações governamentais e se reúne a um grupo de garotos, também fugidos, que buscam um lendário acampamento. O elenco está bem e não compromete. Amandla Stenberg demonstra talento sua Ruby emociona e se sai bem nas cenas de ação. Seu interesse romântico é Liam (Harris Dickinson), o alívio cômico fica na figura de Chubs (Skylan Brooks), traduzido como bolota. Completando o núcleo família temos a criança carismática Zu (Miya Cech). Os demais personagens pouco tem a apresentar, a Cate de Mandy Moore, que inicialmente dá a impressão de que vai participar mais da trama, logo some. O Presidente Gray de Bradley Whitford mal aparece e a Lady Jane de Gwendoline Christie, uma personagem interessante apresentada como grande ameaça no melhor estilo “Mad Max”, têm uma participação caricata e esquecível.

No fim, o que realmente incomoda em “Mentes Sombrias” é a impressão de ter assistido a um prólogo de quase duas horas. Com a intenção clara de iniciar uma franquia são deixadas várias pontas soltas e rumos a serem seguidos. E o pior é que uma continuação me parece pouco provável.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Megatubarão (2018)

Na fossa mais profunda do Oceano Pacífico, a tripulação de um submarino fica presa dentro do local após ser atacada por uma criatura pré-histórica que se achava estar extinta, um tubarão de mais de 20 metros de comprimento, o Megalodon. Para salvá-los, oceanógrafo chinês (Winston Chao) contrata Jonas Taylor (Jason Statham), um mergulhador especializado em resgates em água profundas que já encontrou com a criatura anteriormente.

114 min – 2018 – EUA

Dirigido por Joel Turteltaub, roteirizado por Dean Georgaris, Jon Hoeber e Eric Hoeber. Com: Jason Statham, Cliff Curtis, Li Bingbing, Shuya Sophia Cai, Ruby Rose, Rainn Wilson, Jessica McNamee e Page Kennedy.

Jason Statham já pilotou carros de forma magistral na série “Carga Explosiva”, foi parceiro de Stallone, Schwarzenegger e Bruce Willis na franquias “Os Mercenários” e já “caiu na mão” com Vin Diesel e Dwayne Johnson (Um tal de The Rock) em “Velozes e Furiosos”. Vale lembrar, que ele chegou a ressuscitar em “Assassino a Preço Fixo 2 – A Ressurreição”. Logo, fica difícil imaginar uma ameaça capaz de encarar o brucutu. É nesse contexto, que chega às telonas “Megatubarão”. Uma criatura pré histórica que vai ter a audácia de “literalmente” lutar mano-a-mano com o astro.

O longa, adaptado de uma série de livros (MEG de Steve Alten), traz de volta a superfície do oceano um tubarão de vinte metros de comprimento. Na verdade um animal supostamente extinto, o megalodon. O que realmente impressiona é que “Megatubarão” apresenta boas idéias e conceitos visuais interessantes. Uma boa abordagem de seu diretor, Joel Turteltaub, que apresenta cada situação em uma determinada atmosfera. Aventura, ação, suspense, horror e comédia são algumas das abordagens. O roteiro de Dean Georgaris, Jon Hoeber e Eric Hoeber, consegue trazer credibilidade para a existência do megalodon. É uma explicação frágil que funciona dentro da coerência interna da trama.

No enredo uma estação de pesquisa submersa, a Mana One, financiada pelo bilionário Morris (Rainn Wilson) executa uma expedição para mergulhar além do suposto ponto mais profundo do oceano. Quando a empreitada dá errado a tripulação de um submarino fica presa quilômetros abaixo da superfície. A missão de resgate fica a cargo de Jonas Taylor (Jason Statham), um bêbado, desacreditado, considerado louco e com os músculos do abdômen extremamente definidos. (Muito enfatizados em uma cena do herói seminu). Taylor têm um trauma não superado de um resgate anterior e por isso estava “aposentado”. Mas retorna ao serviço para resgatar a equipe de Mana One. A trama traz, de forma estereotipada, o melhor amigo (Cliff Curtis), a inteligente e interesse romântico (Li Bingbing), a criança indefesa e carismática (Shuya Sophia Cai), a hacker (Ruby Rose), o bilionário (Rainn Wilson), a ex mulher (Jessica McNamee) e o alívio cômico (Page Kennedy).

Apesar da superficialidade dos personagens, a interação entre eles funciona. E o elenco é competente com o material que lhes foi entregue. O que não é fácil, já que são inúmeros e intermináveis diálogos expositivos ao longo da trama. O filme ensaia um discurso ecológico “ Homem descobre e depois homem destrói”, e procura apresentar uma premissa científica com as pesquisas nas regiões inexploradas do oceano. No entanto o objetivo é causar tensão e suspense, gerar grandes cenas de ação e provocar momentos nervosos. E nisso ele é bem sucedido. O diretor consegue criar uma falsa tranquilidade que nos deixa inquietos em boa parte do filme. Explora bem a ideia de a ameaça das profundezas e esconde o tubarão gigante em boa parte da obra. A possibilidade do perigo assusta mais do que o perigo em si. É claro que existem várias falhas e furos. Como por exemplo uma carta de despedida que a partir de determinado momento é esquecida ou personagens que existem apenas para virar comida.

“Megatubarão” é inchado e possui algumas “barrigas”, apesar disso consegue apresentar reviravoltas que surpreendem, um protagonista carismático interpretado por um ator que consegue segurar a trama e está acostumado a encabeçar produções do gênero. Entrega uma história satisfatória e coerente dentro do mundo apresentado. Diverte e cumpre o que promete de forma despretensiosa e honesta.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018)

Obrigado a unir forças com o agente especial da CIA August Walker (Henry Cavill) para mais uma missão impossível, Ethan Hunt (Tom Cruise) se vê novamente cara a cara com Solomon Lane (Sean Harris) e preso numa teia que envolve velhos conhecidos movidos por interesses misteriosos e contatos de moral duvidosa. Atormentado por decisões do passado que retornam para assombrá-lo, Hunt precisa se resolver com seus sentimentos e impedir que uma catastrófica explosão ocorra, no que conta com a ajuda dos amigos de IMF.

167 min – 2018 – EUA

Dirigido por Christopher McQuarrie, roteirizado por Christopher McQuarrie. Com: Tom Cruise, Henry Cavill, Rebecca Ferguson, Simon Pegg, Ving Rhames, Sean Harris, Michelle Monaghan, Vanessa Kirby, Alec Baldwin e Angela Bassett.

Sou fã da série “Missão: Impossível”. Desde o primeiro longa de 1996, dirigido por Brian De Palma, Ethan Hunt e suas acrobacias para evitar o “impossível” me cativou. E agora, vinte e dois anos depois emplacando sua sexta aventura a franquia demonstra estar mais fresca do que nunca. É o episódio mais longo, duas horas e quarenta e sete minutos que passam voando, o primeiro a repetir um mesmo diretor, Christopher McQuarrie que também dirigiu o ótimo filme anterior “Missão: Impossível – Nação Secreta”. O diretor retorna e apresenta o melhor longa de toda a franquia. “Missão: Impossível – Efeito Fallout” é ágil, inteligente e habilidoso, aprofunda seus personagens e constrói sequências de ação brilhantes.

É uma pena que o gênero “filme de ação” seja menosprezado e/ou considerado por muitos “menor”. Neste longa temos um bom exemplo de que quando bem executado podemos presenciar algo genial. Nesta nova missão mercenários intitulados como Apóstolos têm um plano que envolve o Sindicato, apresentado no longa anterior, e uma carga de plutônio. Então o IMF têm que intervir para evitar uma destruição em massa e o caos. Basicamente Ethan Hunt (Tom Cruise) e sua equipe têm que evitar uma ameaça nuclear ao mesmo tempo em que impedem Solomon Lane (Sean Harris), vilão também apresentado no filme anterior, de fugir da prisão. E, é claro, tudo isso em meio a muitas reviravoltas e surpresas.

McQuarrie, que também assina o roteiro, comanda de forma exemplar as cenas de ação, são perseguições de carro, de moto, a pé e até de helicóptero. A misancene é bem planejada. Entendemos bem tudo o que acontece e não ficamos perdidos no espaço em que a ação ocorre. Nas cenas de luta é possível perceber o porquê da escolha de cada movimento dos personagens. Em seu roteiro, o diretor consegue resgatar elementos clássicos de toda a franquia, sempre de uma forma atual e dinâmica. A fotografia faz bem o seu trabalho e vêm acompanhada da trilha de Lorne Balfe que exalta a tensão e deixa ainda mais frenética a ação do filme.

Tom Cruise impressiona. Aos cinquenta e seis anos de idade ele parece não ter limites. Se nos episódios anteriores da franquia ele já escalou o prédio mais alto do mundo e se pendurou em um avião que decola e voa. Agora ele corre como louco saltando de prédios (Inclusive chegou a quebrar o tornozelo em uma dessas cenas), faz acrobacias pilotando carros e motos, aprendeu a pilotar helicóptero para protagonizar uma das melhores cenas do filme. A qual, inclusive, se inicia com o protagonista dependurado para o lado de fora. E o diretor Christopher McQuarrie sabe valorizar esse esforço. Os demais membros do elenco também estão bem, Ilsa Faust retorna com sua personagem Rebecca Ferguson é protagonista de várias sequências. Ela está longe de ser uma donzela em perigo é forte e toma suas próprias decisões. Benji Dunn de Simon Pegg retorna e além de alívio cômico consegue mostrar sua veia para ação. Henry Cavill cria um Walker imponente e poderoso.  Ving Rhames e Michelle Monaghan também estão de volta e muito bem em suas participações. A entrega do elenco é importante porque de fato acreditamos que eles são capazes de executar as proezas que presenciamos ao longo de toda a trama.

“Missão: Impossível – Efeito Fallout” é dinâmico, ágil e eficaz. Sabe surpreender, inovar ao mesmo tempo que faz homenagens os episódios anteriores. É um filmaço.

Obs. Assisti ao filme em uma sessão de IMAX 3D. O 3D não é imprescindível, mas recomendo fortemente que assistam ao longa na maior tela possível.  O IMAX vale a pena.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Mãe (2017)

Um casal tem o relacionamento testado quando pessoas não convidadas surgem em sua residência acabando com a tranquilidade reinante.

115 min – 2017 – EUA

Dirigido por Darren Aronofsky e roteirizado por Darren Aronofsky. Com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson e Domhnall Gleeson.

Texto originalmente publicado no site Cinema e Cerveja.

O casal formado por Jennifer Lawrence e Javier Barden vive em uma casa, grande e isolada, que sofreu um incêndio no passado. Lawrence se dedica diariamente a reconstruir a morada e é a esposa de Bardem, um poeta passando por uma crise criativa. O relacionamento deles é abalado pela constante presença de estranhos em sua residência. Esses forasteiros incitam uma sucessão de acontecimentos caóticos.

Dizer mais sobre a trama de “Mãe” pode entregar as diversas interpretações, alegorias e críticas da nova obra de Darren Aronofsky. O longa é desafiador e ousado, um filme que ainda vai perdurar muito tempo em nossos pensamentos. Basicamente podemos alegar que é sobre o ego masculino, o instinto feminino e pessoas que esperam mais do que você tem a oferecer. Isso retratado de forma horrível, fascinante e perturbadora. São inúmeras interpretações, é uma crítica de caráter ecológico, o processo criativo de um artista, uma alegoria sobre o antigo e novo testamento ou uma crítica à alienação da religião? Creio que cada espectador vai ter sua interpretação, e me parece, que esse era o objetivo de Aronofsky.

O filme se passa dentro da casa do casal e é centrado na personagem de Jennifer Lawrence, a Mãe. É do ponto de vista dela que observamos a trama e acompanhamos todos seus passos com planos fechados, imagens em primeiro plano e câmeras subjetivas. Isso unido ao fato de não sairmos da casa, apesar do longa saber explorar bem cada cômodo de forma única, gera a sensação inicial de claustrofobia. É uma atmosfera perturbadora que sufoca e nos faz sentir presos. Então assim como a Mãe somos reféns, não temos controle sobre os acontecimentos caóticos que acontecem em nossa morada. A opção do cineasta pelo silêncio é precisa. O design sonoro opta por efeitos sonoros e sons específicos que marcam o ritmo, criam tensão e a sensação de incômodo. Em seu terceiro ato a obra adota um estrondo sonoro acompanhando a eventos surreais e caóticos. A câmera se torna mais ágil e os planos mais abertos. Lawrence está bem no papel e consegue demonstrar as diversas sensações e emoções pelas quais sua personagem é submetida. Um destaque interessante é Michelle Pfeiffer, sempre provocadora e com presença forte. Aronofsky demonstra talento na condução dos diversos temas e tons abordados por sua obra.

“Mãe” vai deixar espectadores com raiva. Outros absortos e pensativos, muitas interpretações vão ser elaboradas e várias leituras da obra vão ser feitas. É um filme exigente e intrincado que não foi feito para agradar a todos os públicos. Uma obra que causa debate e divide seu público na relação de amor e ódio. O que podemos retirar de fato, ignorando as diversas interpretações, é a mensagem ambientalista, a crítica ao culto às “celebridades”, uma alfinetada à alienação da religião e a importância do processo artístico em si. Mas, é na compreensão de que tudo que está na tela é uma alegoria, que o longa se mostra uma ótima experiência cinematográfica. É uma pena que “Mãe” esteja fadado ao fracasso comercial.


Fica aqui a minha simples e singela interpretação (COM SPOILERS). Ela é apenas uma das muitas possibilidades, já que “Mãe” é uma experiência única para cada espectador.  

A Mãe (Jennifer Lawrence) e Ele (Javier Bardem) vivem em uma casa isolada que a um tempo atrás sofreu um incêndio. Longo na início da trama fica claro que a personagem de Lawrence e a casa são um. Ela é a mãe natureza, o planeta Terra em convivência no paraíso com Deus (Bardem) o criador. Das cinzas da antiga casa apenas restou um cristal (O fruto proibido) que permanece guardado no escritório de Deus. Bardem sai para uma “caminhada” sozinho e logo o cotidiano de ambos é perturbado. Um visitante conhecido com “Homem” (Ed Harris) adentra a morada do casal. Ele é Adão e aos olhos da Mãe é imperfeito, velho, moribundo e doente. Além de trazer consigo vícios, o cigarro e a bebida. Já Deus, se mostra fascinado pelo homem.

  No meio da primeira noite de Adão na casa, a Mãe o presencia “passando mal” e sendo acolhido por Deus. Vale um destaque para a ferida rapidamente coberta pelo criador, mas fica perceptível a referência a retirada da costela do primeiro homem. Não demora a surgir Eva. Michelle Pfeiffer a personagem “Mulher”.  É interessante perceber a malícia da personagem que funciona também como a “cobra” já que quer de qualquer maneira ver o fruto proibido. Curiosidade que leva ela e Adão a quebrar o cristal. Não demoramos a ter a presença de Caim e Abel os personagens “Filho mais velho” e “Irmão mais novo”. Rapidamente eles entram em conflito e corrompem e literalmente marcam  a “casa” acelerando sua degradação.

Durante todo o longa é clara a ideia do homem como impuro, perverso e imperfeito. No velório de Abel temos a chegada de mais homens e mulheres. Eles semprem ignoram, tratam mal e têm comportamento abusivo com a “Mãe”, passamos a  presenciar diversos pecados. O caos fica tão grande que é necessário um “dilúvio” na forma de uma pia quebrada para trazer a calma novamente. Após uma briga entre o casal (A Mãe não compreende porque o criador atura com os “excessos” de seus “convidados”) eles acabam concebendo um filho.

O Filho inspira Deus que volta a escrever e cria sua nova obra (Novo testamento). Após o lançamento da criação tudo acontece rápido, o terceiro ato é chocante e acelerado. Em uma bela sequência a Mãe acompanha a história do mundo, presencia diversas guerras e tragédias nos cômodos de sua casa. Em determinado momento também acompanhamos diversos líderes religiosos pregando a palavra do “poeta”. A sensação de caos é forte e imagens perturbadoras de fome, pestilência, guerra e morte demonstram que o Apocalipse começou. Em meio a tudo isso a Mãe dá à luz a uma nova criação de Deus, a mais perfeita de todas, e causa ainda mais adoração. Deus entrega o bebê (Jesus) para os fiéis que o abraçam e envolvem até matá-lo. Em uma cena fica clara a alusão ao ato de comungar da Igreja Católica. Quando a Mãe não aguenta mais, ela coloca fogo na casa e acaba com toda humanidade se sacrificando. Nada acontece com Deus que a resgata das cinzas apenas para pegar seu coração que dá origem a um novo cristal (Fruto proibido) com o qual ele reinicia toda a criação. O filme começa e inicia da mesma maneira, porém cada novo ciclo acontece com uma nova mãe.   

Darren Aronofsky coloca a Mãe natureza e a humanidade como antagonistas, o homem é corrupto, imperfeito e perverso. Faz suas vontades, não respeita os pedidos da Mãe e a destrói como consequência. É uma crítica com nossa obsessão pelo sagrado, o culto ao ídolo e à alienação da religião, junto a uma forte crítica ambiental. O Homem acaba com a Mãe natureza e ela acaba com o Homem. É a história da criação em looping, que aparentemente, nunca vai dar certo.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Meu Malvado Favorito 3 (2017)

Nos anos 1980, Balthazar Bratt fazia muito sucesso através de sua série de TV, onde interpretava um vilão chamado EvilBratt. Entretanto, o tempo passou, ele cresceu, a voz mudou e a fama se foi. Com a série cancelada, Balthazar tornou-se uma pessoa vingativa que, nas décadas seguintes, planejou seu retorno triunfal como vingança. Gru e Lucy são chamados para enfrentá-lo logo em sua reaparição, mas acabam sendo demitidos por não terem conseguido capturá-lo. Gru então descobre que possui um irmão gêmeo, Dru, e parte com a família para encontrá-lo no país em que vive.

90 min – 2017 – EUA

Dirigidor por Kyle Balda e Pierre Coffin, roteirizado por Cinco Paul , Ken Daurio. Com Steve Carell, Kristen Wiig, Trey Parker, Miranda Cosgrove, Dana Gaier, Pierre Coffin, Steve Coogan, Julie Andrews, Jenny Slate e Andy Nyman.

Dublado no Brasil por Leandro Hassum, Maria Clara Gueiros, Evandro Mesquita, Bruna Laynes, Ana Elena Bittencourt, Pâmela Rodrigues, Marcio Simões, Marize Motta, Marcia Morelli e Cláudio Galvan.

Em 2010 a Universal Studios, junto com a Illumination Entertainment, apresentou  um conceito interessante. “Meu Malvado Favorito” que trazia como protagonista um vilão. No mesmo ano a DreamWorks Animation trouxe “Megamente” com uma proposta similar. Ambos bons filmes que continham boas idéias. Em 2013 a Universal traz de volta a franquia com o bom “Meu Malvado favorito 2”, ainda no mesmo ano a Pixar nos presenteou com o excelente “Detona Ralph”. Mais um vilão protagonista. Em 2015 o fraco “Minions” foi apresentado com o claro objetivo de lucrar com a popularidade dos personagens. Desde a origem da série um dos objetivos era vender bonecos, camisas e etc, em “Minions” o merchandising é o foco principal. Agora em 2017 os roteiristas Cinco Paul e Ken Daurio (Também roteiristas dos outros filmes da franquia) trazem para a tela o fraco “Meu Malvado Favorito 3”.

Independente da qualidade dos filmes a série é um sucesso comercial. Isso é inegável. Os dois filmes estrelados por Gru e o spin-off dos Minions arrecadaram mais de dois bilhões de dólares. Sendo o longa das criaturinhas amarelas o mais bem sucedido no quesito comercial. Então é compreensível que a Universal aposte suas todas as suas fichas em um terceiro filme estrelado por Gru e suas meninas.      

Assim como em seus antecessores, o longa atual apresenta uma história simples e divertida. Animação de qualidade sempre focada no humor visual, algo presente em todas as produções da Illumination Entertainment, e um bom desenho de produção. São cores vibrantes, ação descontrolada e muito humor besta. Na aventura da vez, Gru (Steve Carell/Leandro Hassum) e Lucy (Kristen Wiig/Maria Clara Gueiros) são demitidos da Liga Anti-Vilões quando fracassam na captura do ótimo Balthazar Bratt (Trey Parker/Evandro Mesquita) o vilão da vez. Enquanto isso Lucy se preocupa com suas obrigações maternas, ao mesmo tempo em que Gru descobre a existência de seu irmão gêmeo. Em meio a tudo isso, os minions decidem abandonar Gru e voltar para a vilania já Balthazar Bratt se prepara para seu plano de retorno/destruição. Além de Agnes e sua busca implacável por unicórnios. Boas ideias estão presentes, mas o excesso de linhas narrativas não deixa o roteiro se aprofundar nelas e a coerência se torna um problema.

A série dirigida por Pierre Coffin e Chris Renaud, apresentou em seu primeiro filme a construção rasa e preguiçosa da relação de afeto entre Gru e suas filhas. No segundo o foco é a transformação, um pouco cafona, do protagonista em super-herói. “Minions” têm pouco para demonstrar além do objetivo de vender produtos. “Meu Malvado favorito 3” perde o foco. Lucy busca a aceitação das meninas, Gru e Dru enfrentam conflitos familiares e o vilão Balthazar é frustrado e quer se vingar. Como de costume na franquia, a trama nos traz tudo de forma piegas, caricata e ligeiramente brega. A ideia de Gru ter um irmão gêmeo é desnecessária, e nitidamente têm como objetivo a possibilidade de novos filmes. Sim, o longa sugere sequências. E propõe algo no estilo (Para não dizer exatamente igual) “Spy vs Spy”. Vide as cenas durante os créditos. É difícil de compreender porque os roteiristas não exploram a fundo a melhor ideia do filme, o vilão Balthazar Bratt. Um ex-astro mirim de um seriado dos anos oitenta, que teve o programa cancelado. Seu personagem era EvilBratt e seu chavão “Eu sou um menino mau!”. O personagem rouba a cena, sempre ao som de hits dos anos 80 como Michael Jackson, A-ha, Van Halen e Pharrell Williams. Seu design é ótimo, ombreiras, mullets, bigode e uma ótima careca. Suas armas um show a parte: chicletes, ioiôs, cubos mágicos, um exército de actions figures e sua arma final digna de um episódio dos Power Rangers. Difícil entender porque o conflito entre Bratt e Gru não é o foco da trama.

Eu gosto dos minions. As crianças gostam dos minions, adultos gostam dos minions e a Universal sabe. É nítido o esforço para que eles tenham mais tempo de tela, um bom exemplo são os momentos musicais completamente desnecessários a trama. “Meu Malvado favorito 3” é um produto fadado ao sucesso comercial. Entrega no filme o que mais vende, temos mais minions (Com excessivas piadas de peido), um novo Gru (O irmão gêmeo Dru) e um vilão carismático, direto dos anos 80, com seu plano genérico. Além de muitas piadas já tradicionais da franquia. É uma pena que o foco não seja uma boa história que desenvolva seus personagens. O que quando bem feito, também vende bem.         

Obs. Na cabine de imprensa não foi exibida cena pós-créditos.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – A Múmia (2017)

Na Mesopotâmia, séculos atrás, Ahmanet (Sofia Boutella) tem seus planos interrompidos justamente quando está prestes a invocar Set, o deus da morte, de forma que juntos possam governar o mundo.  Mumificada, ela é aprisionada dentro de uma tumba. Nos dias atuais, o local é descoberto por acidente por Nick Morton (Tom Cruise) e Chris Vail (Jake Johnson), saqueadores de artefatos antigos que estavam na região em busca de raridades. Ao lado da pesquisadora Jenny Halsey (Annabelle Wallis), eles investigam a tumba recém-descoberta e, acidentalmente, despertam Ahmanet. Ela logo elege Nick como seu escolhido e, a partir de então, busca a adaga de Set para que possa invocá-lo no corpo do saqueador.

111 min – 2017 – EUA

Dirigido por Alex Kurtzman, roteirizado por David Koepp, Christopher McQuarrie. Com Tom Cruise, Sofia Boutella, Annabelle Wallis, Russel Crowe, Jake Johnson, Courtney B Vance, Marwan Kenzari e Stephen Thompson.

Texto originalmente publicado no site Cinema e Cerveja.

Quando jovem, tive a oportunidade de conhecer os monstros da Universal. Me lembro de assistir o Drácula, vivido por Bela Lugosi, o monstro de Frankenstein imortalizado por Boris Karloff, o lobisomem de Lon Chaney Jr e a múmia (Onde Imhotep também foi interpretado por Karloff). Depois de mais velho revi alguns, gosto bastante de vários deles. “A Noiva de Frankenstein” por exemplo acho bem divertido. Recentemente, em 1999, tivemos o início da trilogia da múmia estrelada por Brendan Fraser. A série contou com dois bons filmes iniciais e um terceiro ruim. Agora a Universal inspirada pelo “Universo Cinematográfico da Marvel” resolver fazer seu “Dark Universe” e traz Tom Cruise estrelando um novo longa sobre a Múmia.

“A Múmia” é um filme de ação. Não espere terror ou suspense. A tensão e expectativa, normalmente criada por elementos que não aparecem na tela, não existe. O monstro título e as demais criaturas aparecem em cena o tempo inteiro. A excessiva exposição não para por aí, a trama também é toda explicada de forma bem didática. Na sequência inicial Henry Jekyll (Russel Crowe) narra todo a história de Ahmanet (Sofia Boutella) enquanto acompanhamos um flashback. O que me parece estranho, uma vez que mais adiante na trama acompanhamos as visões de Nick Morton (Tom Cruise) as quais são basicamente o que seguimos na descrição inicial. O objetivo é claro, agradar um grande público e criar uma franquia com um universo compartilhado. Repaginar os saudosos monstros da universal e trazê-los para a atualidade.  

No ano de 1127 D.C. Ahmanet (Sofia Boutella) é interrompida quando está prestes a invocar Set, o deus da morte. Ela é mumificada e aprisionada em uma tumba. No presente,  Nick Morton (Tom Cruise) e Chris Vail (Jake Johnson), que são saqueadores de artefatos antigos, estão no Iraque e encontram o túmulo. Juntos com a pesquisadora Jenny Halsey (Annabelle Wallis), eles investigam descoberta e, acidentalmente, despertam Ahmanet. Por coincidência, e vontade do roteiro, uma outra tumba, que contém um importante artefato, é encontrada na Inglaterra.  Ahmanet deseja finalizar o ritual que iniciou séculos atrás e elege Nick como seu escolhido. O longa é uma colagem de cenas de ação, com várias coincidências e excesso de monstros. Os efeitos especiais são razoavelmente bons e utilizados ao extremo. Algumas sequências encantam e são muito bem executadas, como por exemplo a cena do acidente de avião.

“A Múmia” é uma tentativa de resgatar os monstros da Universal, que já foram grandes sucessos financeiros do estúdio. Os coloca no presente com um toque de realismo. A ideia é que os monstros “correm soltos” pelo mundo, tudo acontece “por debaixo dos panos” onde uma organização secreta acompanha e tenta controlar o mal. Não é um bom começo para o “Dark Universe”. É um longa de origem que tenta situar os espectadores no universo que pretendem criar, uma pena que se esqueça de situar os próprios personagens na trama. O roteiro é confuso e em diversos momentos parece se esquecer de seu monstro título, aliás, a múmia chega a ser um personagem coadjuvante. O filme é do Tom Cruise. Com a confirmação de Johnny Depp como Homem Invisível e Javier Bardem como o monstro de Frankenstein, além da já anunciada nova versão de “A Noiva de Frankenstein” fica a esperança de que a Universal consiga colocar seu universo nos eixos.

Obs. Na cabine de imprensa não foi exibida cena pós-créditos.

Nota do Sunça:


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