Sunça no Cinema – O Esquadrão Suicida (2021)

Liderados por Sanguinário (Idris Elba), Pacificador (John Cena), Coronel Rick Flag (Joel Kinnaman), e pela psicopata favorita de todos, Arlequina (Margot Robbie), o Esquadrão Suicida está disposto a fazer qualquer coisa para escapar da prisão. Armados até os dentes e rastreados pela equipe de Amanda Waller (Viola Davis), eles são jogados (literalmente) na remota ilha Corto Maltese, repleta de militantes adversários e forças de guerrilha. O grupo de supervilões busca destruição, mas basta um movimento errado para que acabem mortos.

132 min – 2021 – EUA

Dirigido e roteirizado por James Gunn. Com Margot Robbie, Viola Davis, Joel Kinnaman, Jai Courtney, Idris Elba, John Cena, Sylvester Stallone, Peter Capaldi, David Dastmalchian, Daniela Melchior, Dee Bradley Baker, Michael Rooker, Alice Braga, Pete Davidson, Nathan Fillion, Sean Gunn, Flula Borg, Mayling Ng, Steve Agee, Taika Waititi, Storm Reid, Jennifer Holland e Ernesto Álvarez.

Após dois filmes de sucesso dos “Guardiões da Galáxia” na Marvel, James Gunn, assume o comando de “O Esquadrão Suicida” na DC. Tendo assim a difícil missão de arrumar a casa depois do fraco “Esquadrão Suicida” de 2016. Gun aposta no deboche e em elementos “trash” dos filmes B para construir seu universo irônico onde nada importa e tudo é descartável.  Sangue, violência gráfica e estilizada, palavrões e xingamentos, constroem o clima anárquico e ridículo daquela equipe e sua missão. O longa não se leva a sério mas não esconde as consequências das atitudes sanguinárias de seus personagens. É justamente no contraste entre o humor leve e a violência gráfica, ou, entre a empatia e o desprezo, que a obra cria sua identidade.

O diretor e roteirista James Gunn, cria um novo patamar de ridículo ao encontrar nos arquivos da DC personagens esquecidos e irrelevantes da editora. São vilões e poderes esdrúxulos.  Para citar alguns, temos o Doninha (Sean Gunn), o O.C.D. (Nathan Fillion) e o  Bolinhas (David Dastmalchian). Bolinhas tem um superpoder absurdo e é incrível como o diretor e o ator nos mostram isso em tela. São muitos personagens, todos interessantes e descartáveis. A importância deles não é nula apenas para a chefe Amanda Waller (Viola Davis), mas também para a obra. São mortes exageradas e inventivas em sequências esteticamente lindas. Portanto, não se apegue a ninguém.   

“O Esquadrão Suicida” é uma sequência do longa de 2016, porém é também um novo começo para a franquia. A nova equipe é formada por Sanguinário (Idris Elba), Pacificador (John Cena), Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior), Tubarão-Rei (Voz de Sylvester Stallone) e Bolinhas. Juntos a eles, temos os já conhecidos Rick Flag (Joel Kinnaman) e a Arlequina (Margot Robbie). O novo time é enviado para a ilha Corto Maltese que acabou de sofrer um golpe militar. O objetivo é destruir o Projeto Starfish para que o novo governo não seja capaz de utilizá-lo. Essa é a trama. Uma explosão absurda, ridícula e cômica. O filme também funciona como uma crítica ao imperialismo e a política externa dos Estados Unidos. O verdadeiro motivo da missão do esquadrão, deixa claro como o intervencionismo externo estadunidense destrói nações e justificam atrocidades. Sempre alegando a falsa busca pela paz. A personificação dessa postura incoerente e rasa é o personagem Pacificador. Em suas próprias palavras: “Valorizo a paz com todo meu coração, não importa quantos homens, mulheres e crianças eu terei que matar para consegui-la”.  

O roteiro não suaviza a vilania dos personagens, eles fazem atrocidades sem hesitar. O time de vilões não pensa duas vezes antes de dizimar uma vila de nativos. Para apenas depois de toda aniquilação se perguntar quem eram aquelas pessoas, ou, se deveriam mesmo estar fazendo aquilo. Como a personalidade de cada membro é bem definida, do convívio deles resulta ótimas sequências. A equipe principal funciona muito bem, a interação dinâmica entre os personagens e seus diálogos incisivos evidenciam os contrastes entre aqueles seres. Sanguinário é o líder cínico que tem uma bússola moral própria, o Pacificador é o brucutu pastelão que não percebe suas incoerências e a Caça Ratos 2 é a moralidade e a empatia do grupo. Ainda temos o Tubarão Rei, um tubarão antropomórfico sanguinário e com pouca inteligência. Um ótimo trabalho de voz do Stallone. O estranho Bolinhas e seus poderes bizarros possibilitam ótimas sequências, com destaque para a forma como ele externa seus traumas.  Margot Robbie é cada vez melhor como a Arlequina. Em uma sequência violenta e esteticamente bela,  podemos ver como sua realidade é separada do mundo real à sua volta.

A trama se passa ao longo de uma missão. A montagem do longa deixa tudo mais ágil ao saltar entre passado, futuro e presente. Gun sabe amarrar tudo com sequências memoráveis, inventivas e bonitas. É nítida a preocupação de deixar a ação clara e criar ritmo e energia para o filme. Porém ao final fica a sensação de uma ruptura com toda a proposta inicial, seja no contexto da crítica política ou no caos proposto. Ainda que seja possível a interpretação de que o maldito imperialismo sempre vence. (O que a cena pós-créditos deixa bem claro) É triste pensar que após a revelação do real motivo da missão os personagens seriam coniventes com as autoridades, das quais, acabaram se rebelando momentos antes.                

“O Esquadrão Suicida” mantém um nível alto de humor ao longo de todo o filme. Sabe lidar com o absurdo e ridículo de sua trama, sem ter medo de colocar em cena um monstro de proporções exageradas. Vale um elogio a alegoria que esse “monstro” do ato final representa. É válida a crítica ao imperialismo e aos governos autoritários e seus seguidores. Também se faz presente a ideia de que nem sempre o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Isso na figura dos guerrilheiros combatentes ao regime ditatorial, que se aliam a um mal para evitar outro mal. A história nos mostra que isso nunca é uma boa ideia. Uma obra com estética incrível que consegue ser sombria e extremamente brilhante e colorida. James Gunn cumpre a sua missão de resgatar o esquadrão, e agora, pode voltar tranquilo para a Marvel.

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – Enola Holmes – Netflix (2020)

Enola Holmes (Millie Bobby Brown) é uma menina adolescente cujo irmão, 20 anos mais velho, é o renomado detetive Sherlock Holmes (Henry Cavill). Quando sua mãe desaparece, fugindo do confinamento da sociedade vitoriana e deixando dinheiro para trás para que ela faça o mesmo, a menina inicia uma investigação para descobrir o paradeiro dela, ao mesmo tempo em que precisa ir contra os desejos de seu irmão, Mycroft (Sam Claflin), que quer mandá-la para um colégio interno só de meninas.

123 min – 2020 – EUA

Dirigido por Harry Bradbeer. Roteirizado por Jack Thorne (Baseado nos livros de Nancy Springer, inspirados na obra de Arthur Conan Doyle). Com Millie Bobby Brown, Henry Cavill, Sam Claflin, Helena Bonham Carter, Louis Partridge, Adeel Akhtar, Fiona Shaw, Frances de la Tour, Susie Wokoma, Burn Gorman, David Bamber, Hattie Morahan.

“Enola Holmes” traz uma abordagem mais informal e descontraída para figuras já consagradas do universo do detetive criado por Arthur Conan Doyle. A produção têm a intenção de agradar e atrair o público jovem, e para isso, aposta em retratar a jornada de amadurecimento da jovem Enola Holmes (Millie Bobby Brown). Ela está sozinha pela primeira vez e têm que aprender a se virar. A protagonista é cativante e tem uma personalidade forte, Enola não exita em confrontar seus irmãos mais velhos Mycroft (Sam Claflin) e Sherlock (Henry Cavill). No dia do seu aniversário de dezesseis anos sua mãe Eudoria (Helena Bonham Carter) desaparece e essa é a fagulha que inicia a trama de auto-descoberta e investigação da garota. Em sua busca pela mãe  a detetive acaba salvando o jovem lorde Tewkesbury (Louis Patridge) e assim seu primeiro caso “cai” literalmente em seu caminho.  

A trama parte da ideia de busca da figura materna e assim permite que a personagem expanda seus horizontes e viva experiências se descobrindo a cada etapa do percurso. Para isso o diretor Harry Bradbeer escolhe um enfoque dinâmico e ágil. Harry recentemente trabalhou na série “Fleabag”, alguns aspectos e elementos narrativos muito utilizados na série repercutem nesta obra, que têm sua história baseada em uma série de livros “Os Mistérios de Enola Holmes” da autora Nancy Springer. Seguimos em um ritmo acelerado que nos leva a vários cenários diferentes acompanhados por uma trilha sonora que ajuda a deixar a investigação mais dinâmica. Millie Bobby Brown é carismática e consegue trazer a arrogância dos Holmes ao mesmo tempo em que nos cativa e deixa interessados em suas buscas e experiências. Suas constantes quebras da quarta parede inicialmente surgem como uma interação simpática e funciona em prol da narrativa. Porém ao decorrer do filme se torna um elemento repetitivo e didático. 

São poucas as sequências em que a investigação é o destaque, e as constantes explicações da protagonista deixam tudo ainda mais banal. Sabemos tudo o que ela pensa, tudo o que ela faz e tudo o que pretende fazer. O caso é simples, e já na metade da trama é possível saber seu desfecho. Outro recurso utilizado ao extremo são os flashbacks de Enola e sua Mãe. É um acerto do longa focar na jovem Holmes e tirar de cena seus irmãos mais famosos. Henry Cavill e Sam Claflin estão bem muito bem em seus personagens, são elegantes e trazem uma abordagem mais clássica para os irmãos. Mesmo com poucas participações eles geram interesse e chamam atenção. Por causa disso, talvez fosse mais interessante que os personagens tivessem menos importância no roteiro. Mycroft vê a irmã como uma “criatura selvagem” e está constantemente irritado com ela. Sherlock segue suas investigações frias e no decorrer dos acontecimentos passa dar atenção a irmã, porém de início é indiferente a ela. 

As constantes explicações de tudo que vemos em tela incomoda. Elas vão além dos mistérios e passam também pelo texto da obra. Todas as reflexões sobre a emancipação feminina, sobre os abusos que mulheres sofriam na época e a luta por direitos iguais são bem vindas e necessárias. Mas poderiam ser menos didáticas, a impressão que fica é de que o roteiro a todo momento está com medo de que o espectador não esteja entendo seus acontecimentos e suas importantes discussões. O texto enaltece a todo momento a emancipação feminina, por isso, incomoda um pouco que em alguns momentos Enola precise de resgates e ajudas de personagens masculinos, principalmente nas figuras do lorde Tewkesbury e de Sherlock Holmes.

Eudoria cria sua filha para que se torne uma mulher independente e forte. E isso acontece. “Enola Holmes” funciona como o primeiro episódio de uma série, introduz uma protagonista carismática e com personalidade que pode e deve se aventurar em seus próprios mistérios e investigações.

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – Estou Pensando em Acabar com Tudo – Netflix (2020)

Um homem leva sua namorada para viajar e, assim, conhecer seus pais. Porém, um desvio inesperado transforma a viagem do casal numa jornada terrível rumo a fragilidade psicológica e pura tensão.

134 min – 2020 – EUA

Dirigido por Charlie Kaufman. Roteirizado por Charlie Kaufman (baseado na obra de Iain Reid). Com Jesse Plemons, Jessie Buckley, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd, Hadley Robinson, Gus Birney, Abby Quinn, Colby Minifie, Anthony Robert Grasso, Teddy Coluca, Jason Ralph, Oliver Platt, Frederick Wodin, Ryan Steele.

 Somos formados de várias personas e temos interesses nas mais variadas áreas. Me considero um cartunista, publicitário, quadrinista, radialista, pintor, escritor dentre várias outras atividades. Além de ser também um amálgama de diferentes pessoas. Por exemplo, já fui um guitarrista de uma banda de garagem mundialmente famosa. Também sou o Homem-Aranha e em determinado momento fui um astronauta que salvou o planeta ao som de “I Don’t Want To Miss A Thing”. E como esquecer as diversas vezes em que salvei vilarejos ao vencer duelos de bangue-bangue. Ostento com muito orgulho os diversos Oscars que recebi ensaboado no chuveiro. Na minha cabeça meio louca e mal compreendida (Por mim mesmo), já fui de tudo um pouco. Minhas memórias e criações coabitam e interagem formando quem eu sou.  

O diretor e roteirista Charlie Kaufman tem a incrível habilidade de adentrar no inconsciente humano. “Estou pensando em acabar com tudo” é um convite de Kaufman para uma jornada onde vemos a vida, o que ela foi ou o que poderia ter sido, ou até mesmo o que Jake (Jesse Plemons) gostaria que tivesse sido. É compreensível que ao rever sua vida alguém coloque em cheque suas escolhas, decisões e que misture realidade e ficção, para que seu fim seja algo mais justo em sua própria percepção. Ao rever o passado a “realidade” são suas memórias e aqui entra outro ponto chave da narrativa. Memórias são subjetivas e se misturam com nossas percepções e emoções.  Esse registro distorcido de nossa existência influencia sobre como interpretamos nosso presente e como nos enxergamos nele. Daí a discussão presente no longa sobre os humanos serem os únicos animais não capazes de viver no presente.   

Na trama a personagem creditada com jovem mulher (Jessie Buckley) viaja com o namorado Jake sob uma tempestade de neve para conhecer os pais do Rapaz, interpretados por Toni Collette e David Thewlis. Eles namoram a poucas semanas, aliás, a protagonista sequer se lembra o tempo exato. O que é um sinal de que as coisas não caminham bem. Está aí uma das leituras do título e a mais literal.  “Estou pensando em acabar com tudo” é um filme que vai dialogar com cada um de uma forma única. O longa é bem estruturado e sabe unir várias narrativas e gêneros em seus segmentos. Já no início em uma conversa claustrofóbica e opressora dentro do carro percebemos a inconsistência na jovem mulher. Sua personalidade muda a todo momento, ela demonstra falta de interesse em poesia e alguns segundos depois recita de memória um poema que acredita ser seu. Poema, que mais tarde percebemos ser da poeta Eva H.D. autora de um livro que Jake guarda em seu quarto. Sua profissão e nome também mudam constantemente, ela foi bióloga, física, garçonete e ao longo do enredo é chamada de “Lucy”, “Lúcia”, “Louise”, “Amy” e “Tonya”. 

É passeando pelo tempo e espaço que vamos conhecendo mais sobre esse casal. Saltamos do dia para a noite na velocidade de uma palavra e de um ambiente para o outro em um piscar de olhos. É um trabalho primoroso de montagem que nos deixa inquietos, interessados e incomodados. A razão de aspecto reduzida sufoca sua protagonista e compartilha conosco a angústia da jovem mulher.  É na dinâmica e no diálogo entre o casal que montamos o quebra cabeça que é a vida de Jake.  Jesse Plemons mistura carisma com estranhamento sabendo mostrar fragilidade e insegurança. Um bom trabalho de atuação que nos diz muito sobre o amadurecimento conturbado daquele personagem.  Jessie Buckley faz um ótimo trabalho com a protagonista complexa que o roteiro lhe entrega. Sabendo ser uma projeção criada e ao mesmo tempo uma pessoa independente com suas próprias vontades. Em vários momentos ela representa as angústias e incita importantes reflexões. Suas percepções acabam se unindo a nossa e assim conhecemos os pais de Jake, através das memórias dele. E vemos seus pais nas mais variadas idades e etapas da vida. Sempre com diferentes sensações e emoções, seja em momentos uma visão repulsiva e em outras carinhosa, protetora e até mesmo opressiva e raivosa.   

A jovem também nos permite conhecer Jake, já que nas constantes mudanças de comportamento e interesses faz várias referências culturais. Mudanças que podem se justificar na mistura de mulheres idealizadas pelo rapaz e até mesmo no que ele próprio gostaria de ter sido. Ela pinta as mesmas pinturas Jake e que na verdade são obras de Ralph Albert Blakelock. Ao discutirem sobre o filme “Uma Mulher Sob Influência” repete a crítica escrita por Pauline Kael. E isso é natural, constantemente recriamos elementos da cultura e sociedade que nos influenciam e cativam. Jake chega a interpretar trechos do musical Oklahoma. Em momentos de estranheza a Jovem mulher percebe que seu namorado parece saber o que ela está pensando. Sentimento que é reforçado ao chegar na fazenda que só têm ovelhas, ver o cachorro da família e perceber sua fotografia de infância no mesmo local que a de Jake. O desconforto ao longo da obra é progressivo e caminha até o momento em que a protagonista não sabe mais onde está. Seu encontro com o zelador do colégio (Guy Boyd) e o simples ato de reconhecer de quem são aqueles chinelos nos revelam a figura criadora por trás de tudo e direciona a narrativa para a leitura mórbida do título. 

“Estou pensando em acabar com tudo” nos lembra também de como é viver. De como nossas memórias e interesses ao longo de nossa jornada nos transforma em quem somos. Nossas alegrias, felicidades, dores e frustrações. O zelador reve suas decisões e opções percebendo seus erros quando é tarde demais para fazer algo a respeito. Talvez por isso, em alguns momentos,  a jovem mulher quebre a quarta parede com um olhar de desprezo. Afinal, no fim da vida o que queremos é acabar reconhecidos e premiados fazendo um belo discurso como John Nash interpretado por Russell Crowe no filme “Uma Mente Brilhante” e não enterrados na neve em uma vida, aparentemente, sem afeto.

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – Netflix – El Camino: A Breaking Bad Movie (2019)

Após fugir do cativeiro, onde foi mantido quando sequestrado, dramaticamente, Jesse Pinkman (Aaron Paul) inicia uma jornada em busca da própria liberdade, mas antes precisa se reconciliar com o passado para, só então, ter seu futuro garantido.

122 min – 2019 – EUA

Dirigido e roteirizado por Vince Gilligan. Com: Aaron Paul, Jesse Plemons, Charles Baker, Matt Jones, Larry Hankin, Tom Bower, Tess Harper, Michael Bofshever, Scott MacArthur, Scott Shepherd, Brendan Sexton III, Kevin Rankin, Krysten Ritter, Bryan Cranston, Jonathan Banks e Robert Forster.

Na série “Breaking Bad” o arco dramático de Walter White (Bryan Cranston) não envolvia redenção. Foi uma linha direta do protagonista rumo a degradação completa, levando junto de si tudo e todos, incluindo o bondoso Jesse Pinkman (Aaron Paul). No final do seriado Jesse passa meses aprisionado por um grupo de supremacistas, sofrendo abusos e torturas. No cativeiro ele é obrigado a “cozinhar” metanfetamina e, literalmente, paga pelas várias atitudes e decisões ruins que cometeu em sua jornada. Em um último ato de bondade Walter White o liberta e Pinkman foge em um El Camino. Agora, no filme (Nomeado a partir do carro usado na fuga e pelo objetivo de Jesse) escrito e dirigido pelo próprio Vince Gilligan (Criador da série) acompanhamos o destino do parceiro/coadjuvante agora promovido a protagonista. “El Camino” é direto, segue uma trama simples com poucos, porém elaborados, diálogos e escolha certeira de personagens.

A polícia está atrás de Pinkman e ele procura amigos e aliados para conseguir auxílio em sua luta por uma segunda chance, ele quer deixar a cidade. O período em cativeiro impactou o protagonista e em “El Camino” isso é perceptível. Jesse sofre de estresse pós-traumático por causa de todos os horrores que viveu, o que fica claro na sequência com Skinny Pete (Charles Baker) e Badger (Matt Jones). Também é perceptível que Pinkman sabe que deve agir com rapidez se quer ter alguma chance de fugir, mas, ainda assim, se arrisca na busca de algo que inicialmente não fica claro. No decorrer da obra entendemos seu objetivo a partir de flashbacks que mostram a interação entre ele e Todd Alquist (Jesse Plemons) um dos membro do grupo que o aprisionou.

A opção do diretor/roteirista por flashbacks se mostra um importante fator no desenvolvimento do arco dramático do protagonista. Além de obviamente dar a oportunidade de colocar em cena personagens que não sobreviveram a série. Gilligan usa bem o recurso para nos dar novas informações e retornar a momentos específicos do passado, que se comprovam importantes para os conflitos internos de Jesse. Com isso o psicopata Todd ganha um certo destaque. As escolhas de atuação feitas por Jesse Plemons são certeiras. Uma ótima performance que evidencia como aquela figura é assustadora e horrível. Mas quem de fato carrega o filme é Aaron Paul, um ótimo ator que mostra entender bem todas as nuances de seu personagem. Pinkman é silencioso, sempre curvado e acuado, ele reage aos acontecimentos, é inseguro e têm medo. Está traumatizado pelos acontecimentos de sua parceria com Walter White e por seu tempo em cativeiro. O que muda ao longo da narrativa. Jesse ganha força e se torna mais decidido e firme. É um processo de amadurecimento que leva o personagem a um merecido desfecho. É um homem que tomou más decisões e que cometeu atitudes horríveis, mas que se comprovou um dos únicos personagens da finada série a preservar sua bondade. Robert Forster retorna a seu personagem Ed Galbraith, podemos conhece-lo um pouco melhor e ele tem papel decisivo para que Jesse finalmente aceite “tomar as rédeas” da situação. Uma boa e última performance do ator, que faleceu no dia de lançamento do longa.

A direção de Vince Gilligan mostra que ele sabe o que faz, o diretor controla cada aspecto do filme. Os planos e quadros são complexos e bem planejados, as composições elegantes e os raccords que auxiliam na fluidez da montagem. Os time lapses muito utilizados na série também estão de volta. A trajetória de Pinkman é um faroeste moderno, que toma ares literais em uma importante sequência da obra.

“El Camino” é uma celebração de Jesse Pinkman. Encerra o arco dramático do personagem de forma satisfatória, explora sua jornada psicológica e nos traz de volta ao universo de “Breaking Bad”. É o epílogo da série que chegou de repente, apareceu de surpresa e que se mostrou necessário.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Esquadrão Suicida (2016)

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Reuna um time dos super vilões mais perigosos já encarcerados, dê a eles o arsenal mais poderoso do qual o governo dispõe e os envie em missão para derrotar uma entidade enigmática e insuperável que a agente Amanda Waller (Viola Davis) concluiu que só pode ser vencida por indivíduos desprezíveis e com nada a perder. Quando os membros do improvável time percebem que não foram escolhidos para vencer, mas sim para falharem inevitavelmente, será que o Esquadrão Suicida decide ir até o fim tentando concluir a missão ou a partir daí é cada um por si?

130 min – 2016 – EUA

Dirigido por David Ayer, roteirizado por David Ayer. Com Margot Robbie, Will Smith, Jared Leto, Joel Kinnaman, Scott Eastwood, Cara Delevingne, Viola Davis, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adam Beach e Adewale Akinnuoye-Agbaje.

Sou fã de quadrinhos. Sempre que um blockbuster do gênero está prestes a estrear e/ou sendo feito, torço e fico na expectativa do melhor. Afinal, quero bons filmes dos temas que amo e boas adaptações e lembranças de personagens dos quais tanto prezo. Nos momentos iniciais de Esquadrão Suicida até parecia que tudo ia dar certo. Amanda Waller (Viola Davis) utilizando como argumentos para a formação de sua força-tarefa o Super Homem e alguns acontecimentos de filmes anteriores da DC, funciona e até empolga. Ainda que os planos da personagem não façam o menor sentido e que por obra do destino e um roteiro falho sejam justamente a causa do problema que nossos “heróis” vão ter que enfrentar.

O longa parece um conflito entre o que David Ayer, o diretor, queria e as intenções do estúdio (Warner). Já no início temos um alvoroço de cenas, a apresentação do Pistoleiro (Will Smith) e da Arlequina (Margot Robbie) então partirmos para Amanda Waller e seu projeto insano para então voltar a um briefing de apresentação de cada um dos membros do esquadrão. Com direito a uma nova apresentação da Arlequina e do Pistoleiro. Existe uma crítica, que não é bem explorada, de que os governos não fazem exatamente o bem, mas isso de fato não é o foco da narrativa. O filme não se preocupa em estabelecer arcos de personagens e devido a essa excessiva apresentação inicial não causa no expectador um envolvimento emocional e nem cria expectativa.

Em Esquadrão Suicida a agente Amanda Waller (Viola Davis) quer formar uma força-tarefa de indivíduos desprezíveis com nada a perder, para combater a ameaça dos meta humanos. Então ela convence o governo dos EUA a fornecer um arsenal poderoso a um time de super vilões perigosos que parte para derrotar uma entidade mágica e poderosa. Que se torna uma ameça com duas viradas de roteiro já que Waller é meio bobinha e não controla cem por cento uma entidade, a Magia (Cara Delevingne), que pode se teletransportar. Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie), Bumerangue (Jai Courtney), Diablo (Jay Hernandez), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), Amarra (Adam Beach) se unem aos soldados Rick Flag (Joel Kinnaman) e Lieutenant “GQ” Edwards (Scott Eastwood) e partem em uma missão suicida.

Em sua maioria, o elenco não têm muito material com o qual trabalhar e não impressiona. Waller têm um plano estúpido, porém a performance de Viola Davis é boa e até nos faz acreditar no projeto. Sua personagem em diversos momentos é a mais ameaçadora e assustadora que os “terríveis” vilões do longa. É fácil perceber um problema com as personagens femininas do filme, June Moone (Cara Delevingne) não passa de uma garota assustada e problemática, Katana (Tatsu Yamashiro) não fala e quando têm de dizer algo é Rick Flag quem o diz, e Arlequina que poderia desenvolver o lado da médica que se apaixona em um relação abusiva com um louco psicopata que acaba a transformando em uma, é apenas um alívio cômico. Margot Robbie consegue ir um pouco além, cria maneirismos e uma atitude para a personagem, é bacana perceber como em um momento ela parece inocente e inofensiva e em outros ameaçadora. Porém o roteiro se resolve explorando sua figura sexy e fazendo piadas. Em um momento como o atual onde temos As Caça Fantasmas e a Rey de Star Wars é lamentável um tratamento desses. Will Smith se esforça, tem mas destaque que os demais porém diversos momentos parece estar em piloto automático. Bumerangue e Crocodilo pouco têm a acrescentar e Amarra têm uma única função bem clara no filme. O Coringa de Leto é um gangster, a la “pimp my ride”, excitado que adora rir.

Com cenas de ação mal construídas e mal executadas e tentativas de incitar empatia pelos vilões através de flashbacks excessivos e que destroem a figura de “malvados” dos protagonistas, o filme não convence assim como sua vilã que parece saída de um desenho animado e/ou filme de comédia. É uma pena que um filme tão promissor com tudo para mudar o rumo da DC nas telas consiga errar tanto. Na minha ânsia de querer gostar do filme e do universo cinematográfico da DC até sai da cabine de imprensa com um sentimento positivo, que após uns dez minutos de reflexão logo foi embora. É uma pena.

Obs. Na cabine de imprensa foi exibida um cena durante os créditos.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – O Espetacular Homem-Aranha: A Ameaça de Electro

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A vida de Peter Parker anda movimentada. Entre capturar ladrões e passar um tempo com Gwen Stacy, ele ainda precisa lidar com a sua formatura. Peter não se esqueceu da promessa que fez para o pai de Gwen, mas manter-se afastado da garota dos seus sonhos é praticamente impossível. As coisas começam a se complicar para Peter quando um novo vilão, Electro, surge e um velho amigo, Harry Osborn, reaparece em sua vida. Além claro, de novas pistas sobre o seu próprio passado.

140min – 2014 – EUA

 
Dirigido por Marc Webb. Com roteiro de James Vanderbit, Alex Kurtzman, Roberto Orci e Jeff Pinkner. Com Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Paul Giamatti, Dane Dehaan, Sally Field, Felicity Jones e Chris Cooper.

 

Quando pequeno meu sonho sempre foi me tornar o Homem-Aranha. (E ainda é!) Sou apaixonado pelo herói. A recordação mais antiga que tenho do meu laço com o teioso é uma foto de quando eu tinha dois anos de idade fantasiado de Homem-Aranha. Desde muito novo acompanho o herói nos quadrinhos, nos games, nos desenhos animados e mais recentemente, nos longas de Sam Raimi e nos atuais longas de Marc Webb. Digo isso porque para mim um filme do Aranha sempre vai ser algo especial. Até o ruim Homem-Aranha 3 de Sam Raimi e o fraco O Espetacular Homem Aranha de Marc Webb têm um lugar especial em meu coração. O que não vem ao caso quando se trata do O Espetacular Homem-Aranha: A Ameaça de Electro.

A cena inicial do filme é um flashback sobre os pais do herói. O passado obscuro deles continua sendo explorado neste novo longa e ainda é uma fixação do protagonista. A necessidade do longa anterior de explorar o passado dos pais de Peter e torná-lo um predestinado a se tornar o Homem-Aranha me incomodava, porém os flashbacks presentes neste novo filme parecem perder essa pretenção de predestinação e apenas responder questionamentos de Peter. É muito elegante que a cena inicial que é sobre sofrimento, perda e morte se inicie nas engrenagens de um relógio. Que no final do longa termina sua rima visual em outra cena de perda e sofrimento em meio a engrenagens de um relógio.

Após o flashback já entramos em uma cena de ação onde o Aranha se balança pelos prédios de Nova Iorque até encontrar uma perseguição policial. Aqui já percebemos o visual fantástico que o longa vai ter e em especial o visual das cenas de ação. É incrível perceber a movimentação do herói, enquanto atira suas teias e salta pelos prédios o Aranha passa a teia de uma mão para a outra, escala prédios, escala um pouco a teia para ganhar altitude antes dar seu próximo tiro, luta com seus adversários e dispara piadas para todos os lados. Tudo isso ao mesmo tempo e sempre com um trejeito “amador” de combate ao crime. A impressão é de que o Homem-Aranha está vivo. E os destoantes planos subjetivos presentes no primeiro filme dão lugar a planos subjetivos visualmente bonitos e bem encaixados nas cenas de ação. Na primeira luta contra o Electro em uma cena em câmera lenta onde o Homem-Aranha se esforça para evitar que pessoas sejam atingidas por um carro ao mesmo tempo em que evita que pessoas sejam eletrocutadas. Marc Webb nos mostra visualmente como o “sentido aranha” desperta no herói uma grande percepção dos acontecimentos ao seu redor.

A primeira cena de ação também nos mostra como é um constante conflito para o protagonista ser o Homem-Aranha e cumprir seus deveres ao mesmo tempo (literalmente) que lida com seu relacionamento com Gwen. A relação entre os dois é bem construida, seus momentos desajeitados e meigos dão a dimensão complexa e forte de seu relacionamento. Andrew está ótimo como Peter e Emma também ótima nos mostra como é fácil se apaixonar por Gwen. De forma objetiva e rápida o filme nos mostra relação entre Harry e Peter, já em seu primeiro encontro temos Harry no topo das escadas com o rosto imerso na escuridão e Peter abaixo na base das escadas com seu rosto iluminado em uma conversa fria e distante, nos mostrando o potencial contraste entre os personagens, até que Harry desce alguns degraus seu rosto se ilumina Peter se aproxima e a conversa se torna amigável e íntima. Mostrando o laço de amizade que ainda existe entre os dois. Tia May e Peter também tem seus momentos, alguns divertidos e outros mais profundos que nos mostram como é cada vez mais forte a relação entre os dois.

Os três vilões do longa são interessantes. O Rino tem uma pequena e boa participação que rendem cenas visualmente lindas, o Duende Verde têm a sua origem e a construção de seu rancor e ódio pelo teioso, o Harry aqui é mais do que apenas um garoto mimado. Já o Electro, esse sim é a verdadeira ameça do filme. Max, o personagem de Jamie Foxx antes de se tornar o Electro, é caricato, pastelão e louco, já Electro é um vilão temivel e multifacetado. É interessante ver o seu amor pelo amigão da vizinhaça, sua fixação e carência, se tornar em ódio e rancor. O filme em nenhum momento coloca Harry ou Max como personagens maus que querem ser criminosos, são persoagens que se sentem magoados e traídos e apelam para a maldade como último recurso. O personagem Max é um bom exemplo de como o tom desse filme é diferente. Ele é mais caricato e engraçado. Os momentos dramáticos também estão presentes, não tenho vergonha em admitir que fiquei com lágrimas nos olhos em determinado momento do filme. Mas o drama e o humor ocilam de forma harmônica durante o filme.

Com os já confirmados filmes do Sextto Sinistro, Venom e o terceiro e quarto Espetacular Homem-Aranha fica perceptivel a necessidade do longa de introduzir vários personagens e ampliar o universo aracnídeo e fornecer protagonistas para os próximos longas. É uma pena, porque personagens interessantes dos quadrinhos acabam tendo uma pequena participação nesse filme, como por exemplo a Felicia (Felicity Jones), o Rino (Paul Giamatti) e o Norman Osborn (Chris Cooper). E a cena final na Oscorp acaba sendo um grande gancho para as continuações do longa.

Algumas opções do filme/franquia não agradam, tornar a Oscorp numa grande corporação do mal de onde saem todos os problemas do teioso é uma delas. A insistência na história passada dos pais de Peter também não ajuda e eliminar rapidamente um personagem importante como o Norman Osborn é um pecado. Além é claro de mais uma vez Gwen saber fazer tudo necessário para resolver os problemas no climax do filme. E é triste a impressão de que a cada filme dessa nova franquia a importância do Tio Ben é menor.

Bons personagens com relações bem construidas em uma trama bem mais coerente do que a do primeiro filme e visualmente fantástico com ótimas cenas de ação. Um Aranha mais bem humorado e mais confiante em seu dever. Percebe-se claramente que Peter adora ser o cabeça de teia.  E como abrir a uma HQ e ver os amores, temores, problemas e as complicações do teioso que tanto nos divertiram e entreteram durante a infância. E a opção por colocar o Homem-Aranha como um símbolo de esperança e como um protetor dos cidadãos, é para mim, a decisão mais acertada do filme. Esse não é o meu filme favorito do teioso, mas definitivamente conquistou seu espaço em meu coração.

Obs. Na cabine de imprensa não foi exibida a cena pós créditos. Norma adotada em todo o Brasil.

Nota do Sunça:

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