Sunça no Streaming – Soul – Disney Plus (2020)

Em Soul, duas perguntas se destacam: Você já se perguntou de onde vêm sua paixão, seus sonhos e seus interesses? O que é que faz de você… Você? A Pixar Animation Studios nos leva a uma jornada pelas ruas da cidade de Nova York e aos reinos cósmicos para descobrir respostas às perguntas mais importantes da vida.

96 min – 2020 – EUA

Dirigido por Pete Docter e Kemp Powers. Roteirizado por Pete Docter, Mike Jones e Kemp Powers. Com Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton, Rachel House, Alice Braga, Richard Ayoade, Phylicia Rashad, Donnell Rawlings, Questlove, Angela Bassett, Cora Champommie, Margo Hall, Daveed Diggs

*Devido a pandemia estreou em dezembro de 2020 na plataforma de streaming Disney Plus

Em Soul, duas perguntas se destacam: Você já se perguntou de onde vêm sua paixão, seus sonhos e seus interesses? O que é que faz de você… Você? A Pixar Animation Studios nos leva a uma jornada pelas ruas da cidade de Nova York e aos reinos cósmicos para descobrir respostas às perguntas mais importantes da vida. Dirigido por Pete Docter e produzido por Dana Murray.

É fácil se identificar com a ideia de que temos um propósito e uma missão em nossa vida. Seguimos vivendo sem olhar para os lados e sendo “assombrados” pela ideia de que ainda vamos conseguir conquistar nosso grande objetivo. Frustrados, corremos atrás de nossas obsessões sem parar para apreciar as pessoas, os lugares e as experiências à nossa volta. No final de um ano difícil, repleto de contratempos e com a comum sensação de tempo desperdiçado. “Soul” chega à plataforma de streaming Disney Plus e de forma leve nos lembra de apreciar as pequenas coisas da vida como um raio de sol, a companhia de um ente querido e uma bela fatia de pizza.

  O protagonista Joe Gardner (Jamie Foxx) é um sujeito frustrado. Um músico de meia-idade que sonha em se tornar um dos grandes nomes do jazz, mas que trabalha em uma escola dando aula a vários alunos desinteressados com a música. Até que graças a seu ex-aluno Curley (Questlove) recebe a chance de tocar na banda da famosa Dorothea Williams (Angela Bassett). Justamente porque Joe ignora o mundo ao seu redor em busca de sua “obsessão” ele sofre um “contratempo”, que pode ameaçar seu sonho de tocar com uma grande estrela. Durante sua jornada, Joe encontra a “jovem” 22 (Tina Fey) que nunca encontrou seu “propósito” e depois de falhar várias vezes perde a vontade de viver, mesmo sem nunca ter vivido. É no contraste dos dois personagens que toda a sensibilidade do longa se constrói. 

O roteiro de Pete Docter, Kemp Powers e Mike Jones leva seu personagem para o além vida e o coloca em uma experiência fora de seu corpo, assim percebemos que seu sonho é justamente o que o afasta da felicidade e da experiência de uma vida mais plena. Mas a trama não oferece respostas simples e fáceis para ser feliz ou de como se sentir realizado, pelo contrário, nos mostra que, caso isso seja possível, é nas pequenas experiências do cotidiano que podemos encontrar as respostas. Para isso usa elementos de roteiro manjados como uma sequência de troca de corpos. Funciona como uma maneira de forçar Joe a “assistir” a si mesmo. O diretor e roteirista Pete Docter comete um deslize ao não estabelecer ao certo as regras daquele universo, sendo assim, o filme tem que se auto explicar ao longo de toda sua duração. Causando alguns furos e apelando pontualmente para saídas mais fáceis.

A Nova York do longa é extremamente realista, um visual que impressiona. O design de produção segue a ideia de valorizar as “pequenas coisas” dando destaques aos detalhes em roupas, paredes e instrumentos musicais. O que contrasta com o visual preto e branco do além-vida. E diferencia também das montanhas azuladas e das grandes construções brancas e fluidas da área de preparação das almas. Um visual mais colorido e simplificado.  A animação é impecável. Não apenas nas pequenas atuações e trejeitos dos personagens, mas também com o cuidado de colocar os “atores” tocando corretamente os instrumentos e criar toda uma movimentação diferente para as diversas ambientações do filme. Vale um destaque para a animação e design dos “Zés”, criações inspiradas em Picasso feitas de linhas animadas que estão sempre conectadas ao “todo”.

“Soul” propõe uma importante discussão sem oferecer respostas fáceis. Com um visual deslumbrante acompanhado de uma trilha sonora caprichada e design sonoro cuidadoso, compõe seus diferentes ambientes e ajuda na narrativa e texto da obra. Por não estabelecer as regras daquele universo o roteiro se torna explicativo apresentando alguns furos e sendo pontualmente contraditório. Um filme que nos lembra que a nossa vida é uma construção de pequenos momentos e que são eles que realmente merecem ser vividos. Joe precisa desapegar de seu sonho e de sua “missão” na terra para finalmente se tornar apto e merecedor de uma vida.  

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – Borat: Fita de Cinema Seguinte – Amazon Prime Video (2020)

Borat: Fita de Cinema Seguinte é a sequência do longa de sucesso Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América. O longa foi filmado na quarentena e conta mais uma história do icônico jornalista do Cazaquistão.

96 min – 2017 – EUA / Reino Unido

Dirigido por Jason Woliner e roteirizado por Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Dan Swimmer, Peter Baynham, Erica Rivinoja, Dan Mazer, Jena Friedman e Lee Kern. Com Sacha Baron Cohen, Maria Bakalova, Tom Hanks, Dani Popescu, Manuel Vieru, Miroslav Toji, Alin Popa.

A alguns anos atrás, o discurso de ódio, a intolerância e o preconceito eram velados. Hoje, são ditos e escritos abertamente. Não é difícil encontrá-los intrinsecamente ligado à política, religião e grupos sociais. A ciência é negada, o “achismo” vale mais do que o fato e a moralidade não importa mais.  É nesse contexto que Borat Sagdiyev (Sacha Baron Cohen) retorna. A nova empreitada, lançada pela plataforma de streaming Amazon Prime Video, é “Borat: Fita de Cinema Seguinte”. Em sua primeira aparição, o desafio do jornalista cazaquistão era escancarar e trazer a tona o preconceito, a intolerância, o racismo e a homofobia das pessoas com quem interagia. Quatorze anos se passaram desde o primeiro longa “Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América”. E agora, na sequência Borat e sua filha Tutar (Maria Bakalova) logo percebem que não é preciso muito esforço para trazer a tona todo esse discurso de ódio. Basta trocar algumas frases certeiras e as pessoas, mesmo sabendo da presença da câmera, não têm o menor pudor de dizer atrocidades. A obra sabe disso. Logo de início em uma rápida montagem vemos Trump e suas amizades pelo mundo, uma demonstração de como nosso planeta está cada vez mais intolerante. Se esta conversa lhe parece familiar, é porque é. Não à-toa o Brasil está representado nessa montagem na figura de Bolsonaro.

É nesse contexto, onde uma vendedora de bolo não tem problemas em escrever uma frase antissemita no produto, um pastor se preocupa mais com um aborto do que com o abuso sexual de um pai e um medico que assume não ter problemas em cometer um assedio a uma adolescente de 15 anos, que Borat recebe sua nova missão. Após ter feito seu país virar motivo de piada no mundo inteiro com o primeiro filme, o jornalista passou quatorze anos preso. Ele é convocado por seu governo para uma importante missão. Borat é encarregado de entregar um macaco de presente a Mike Pence o vice-presidente dos Estados Unidos, com o objetivo do Cazaquistão cair nas graças de Donald Trump. Um cara que eles idolatram. Quando o macaco tragicamente sai de cena, sua filha Tutar passa a ser a oferenda. O diretor Jason Woliner e Sacha Baron Cohen não escondem as intenções anti-Trump que a obra se propẽ, mas atingem algo muito maior com essa sequência onde realidade e ficção se misturam de forma orgânica.  

O sucesso do longa anterior deixou mais difícil a produção desse novo projeto. Borat se tornou uma figura conhecida e cultuada na cultura pop, no início vemos pessoas pedindo autógrafos e perseguindo o cazaquistão. A solução encontrada, é também um grande mérito desse novo trabalho, o jornalista se vê obrigado a usar disfarces e assumir novas personas. É surpreendente ver Sacha Baron Cohen interpretando um personagem que interpreta outros personagens. Borat assume personalidades de vários tipos culminando em uma cena estilo “Missão: Impossível” em que ele adentra uma conferência republicana “disfarçado” de klus klus klan e termina fantasiado de  Donald Trump carregando sua filha nos braços como oferenda a Mike Pence. Uma troca de vestimenta que nos faz refletir.  Em “Fita de Cinema Seguinte” são utilizadas mais cenas roteirizadas, logo, a trama é mais forte e define arcos narrativos para seus personagens. O roteiro trabalha a relação entre o pai e a filha. Maria Bakalova impressiona e assim como Sacha Baron Cohen, nunca sai de seu papel. Mesmo nas situações mais absurdas, loucas e perigosas. Assim acompanhamos pai e filha em momentos de improviso nas situações reais, interações chocantes e as sequências de vergonha alheia. Culminando na “participação” comprometedora do o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, um dos principais aliados de Trump. Tutar expõe os preconceitos que as mulheres sofrem e Borat mostra o discurso de ódio presente nos cidadãos norte americanos. Para isso, ambos colocam suas vidas em risco, um bom exemplo é o momento em que o jornalista cazaquistão canta para uma multidão de supremacistas brancos alcoolizados e armados. 

A obra tem seus momentos de ternura, gentileza e carinho. Um cuidado dos oito roteiristas (Sim, oito) para que o espectador não desista da humanidade. É na caricatura e no exagero que o filme constrói seu humor, nos faz rir pelo desconforto, pelas terríveis realidades que retrata e pelo absurdo que é a sociedade em que vivemos. Quatorze anos depois Borat se mostra ainda necessário, “desenha” a hipocrisia dos discursos de ódio, “escreve” o absurdo que é o negacionismo a ciência (Abordando até mesmo a pandemia de COVID-19 já que ela começa durante as filmagens) e mostra o perigo e poder destruidor das fake news. É assim, desenhando, escrevendo e mostrando que “Borat: Fita de Cinema Seguinte” evidencia a piada de mau gosto que chamamos de mundo. É impressionante, que em meio a tudo isso, o longa ainda tenha tempo para uma das melhores reviravoltas de Hollywood.

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Sunça no Streaming – A Vingança de Lefty Brown – Amazon Prime Video (2017)

Lefty Brown (Bill Pullman) é um ajudante de 63 anos que toda a sua vida ficou ao lado da lenda do faroeste Eddie Johnson (Peter Fonda). Johnson foi apontado como senador de Montana e, apesar das objeções da esposa Laura, planeja deixar Lefty em cargo do rancho. Quando um ladrão mata Johnson, Lefty é confrontado pela sombra do parceiro e das feias realidades da justiça na fronteira.

111 min – 2017 – EUA

Dirigido e roteirizado por Jared Moshé. Com Bill Pullman, Kathy Baker, Jim Caviezel, Peter Fonda, Tommy Flanagan, Diego Josef.

Eu adoro faroestes. O bangue-bangue, como carinhosamente chamo os filmes do gênero, me fascina. Além de reassistir grandes clássicos presentes em minha coleção de dvds e blu-rays, é comum me encontrar pesquisando por obras de western nas plataformas de streaming. E foi assim, “garimpando ouro” que encontrei no Amazon Prime Video “A Vingança de Lefty Brown”. Filme de 2017, inédito no Brasil e que chegou a plataforma em fevereiro de 2020.

Já em seus primeiros minutos o longa enquadra a entrada de um saloon em uma noite chuvosa. Um tiro ecoa e um homem cai morto. A uma dupla se aproxima e um deles entra pela porta da frente e o outro fica de vigia na saída. O clima clássico de um bom velho oeste está posto. Após a resolução do assassinato, na lei cruel daqueles tempos, os homens cavalgam de volta para casa. O primeiro é o lendário xerife Eddie Johnson (Peter Fonda) e o segundo é seu parceiro, companheiro e amigo a quarenta anos, Lefty Brown (Bill Pulman).

A obra que traz uma nova perspectiva ao gênero, é repleta de referências aos grandes clássicos. E faz constantes acenos aos fãs do oeste selvagem. Presenciamos a chegada do “progresso”, e junto a ele, novas ambições, novos perigos e a necessidade de se adaptar.  Eddie foi eleito senador e está a caminho de Washington, vai abandonar sua carreira de xerife e pretende deixar seu rancho para Lefty. O que não agrada nenhum pouco a sua esposa Laura (Kathy Baker) que não acredita no potencial do ajudante desajeitado. Lefty Brown reconhece que não é inteligente ou esperto e se mostra envergonhado por nunca ter aprendido a ler. Seu caminhar é desajeitado e manca constantemente. Sua voz é rouca e esganiçada e o tom dela assume toques levemente cômicos. Mas sua lealdade e honestidade é inquestionável, por isso a decisão de seu amigo Eddie. Mas todo o cenário muda quando o lendário herói é assassinado.  

Lefty parte em busca de vingança e justiça. No caminho encontra o garoto Jeremiah Perkins (Diego Josef), o jovem sonha em se tornar pistoleiro e logo se mostra um fã dos grandes nomes do Oeste. Um leitor das revistinhas e baladas sobre as lendas do faroeste. Um personagem como Lefty nunca aparece nesses relatos fantasiosos, por isso o título original do filme “The Ballad of Lefty Brown”. Dois amigos antigos de Eddie e Lefty tentam ajudar Laura nesse momento difícil e acabam se envolvendo na busca. Jimmy Bierce (Jim Caviezel) atual governador de Montana e o xerife Tom (Tommy Flanagan). Saindo da posição de ajudante e coadjuvante e assumindo o protagonismo, Lefty Brown têm que enfrentar diversas reviravoltas, tiroteios, interesses maldosos e corrupção política.  Ele é injustiçado, ridicularizado e humilhado. Seu protagonismo é colocado a prova. O diretor e roteirista Jared Moshe é cuidadoso ao não alterar as características de Brown, ele assume as rédeas da trama e passa a controlar a narrativa mas sem nunca deixar de ser o desajeitado que é. O que não o impede de se mostrar um herói e uma lenda do oeste.  

Acompanhamos essa saga com a linda fotografia de David McFarland, as paisagens de Montana são belas e bem utilizadas. Os cenários se tornam um dos personagens que ajuda no clima épico de toda a trama que presenciamos. Nos demais personagens arquétipos clássicos estão presentes. O jovem que pretende ser pistoleiro, o herói que afoga suas mágoas em uma garrafa de uísque e o político inescrupuloso. Tudo isso afina o clima de bangue-bangue. Para melhorar o acerto as performances são ótimas, Peter Fonda em seus poucos minutos como Eddie consegue evocar uma figura forte e virtuosa. Kathy Baker apresenta Laura como uma mulher forte e decidida. Diego Josef é o jovem aprendiz que passar a perceber em Lefty todas as virtudes que Eddie vê e aprecia. Porém o mais importante para o sucesso da obra é a performance de Lefty Brown, e Bill Pullman faz um trabalho incrível. Lefty tem uma personalidade própria, é carismático e cativante. Um personagem leve e cômico cheio de excentricidades e com coração.

“A Vingança de Lefty Brown” é a balada de Lefty.  A canção e relato de seu grande feito, uma forma de relembrar e celebrar essa grande figura do oeste e seus atos de coragem. Uma obra divertida e emocionante. Carregada de referências aos clássicos e com um clima e sensação do velho oeste. Um longa que apresenta elementos do gênero e que sabe também subvertê-los. O eterno coadjuvante, o acompanhante do herói é colocado como protagonista e mostra que é uma das grandes lendas do faroeste.

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Sunça no Cinema – Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (2004)

Em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, Ed Bloom (Albert Finney) é um grande contador de histórias. A diversão predileta de Ed, já velho, é contar sobre as aventuras que viveu quando deu a volta ao mundo, mais jovem, mesclando realidade com fantasia. As histórias fascinam todos que as ouvem, com exceção de Will (Billy Crudup), filho de Ed. Até que Sandra (Jessica Lange), mãe de Will, tenta aproximar pai e filho, o que faz com que Ed enfim tenha que separar a ficção da realidade de suas histórias.

125 min – 2004 – EUA

Dirigido por Tim Burton. Roteirizado por John August (Baseado no livro de Daniel Wallace). Com Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Alisson Lohman, Helena Bonham Carter, Robert Guillaume, Matthew McGrory, Marion Cotillard, Danny DeVito, Steve Buscemi.

Sou um contador de histórias. Não perco a oportunidade de relembrar minhas desventuras infantis e juvenis. Algo que acontece, quase sempre, de forma involuntária. Um comportamento cada vez mais constante na medida em que minha idade avança. É comum me ver compartilhando histórias e “fatos” fantásticos e mirabolantes que protagonizei ao longo de minha vida. Com um pé na realidade, ou não, cada um desses “causos” narra um pouco de quem sou. Edward Bloom, o protagonista de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”, também é um contador de histórias. Talvez o maior e melhor deles. Em suas narrativas ótimas, presenciamos estranhas situações e as figuras inusitadas que ele conheceu.   

O roteiro de John August, baseado no livro de Daniel Wallace, nos apresenta Will Bloom (Billy Crudup) que é recém casado com Josephine (Marion Cotillard) e prestes a se tornar pai. Ele é filho de Edward Bloom (Albert Finney) e é ressentido com o pai, uma vez que acha que não o conhece. Will considera mentiras as histórias maravilhosas dele. Sem perceber a real importância daqueles contos ele acredita não ter uma ideia clara de quem o pai realmente é. Will acha que o relacionamento conturbado deles o torna incapacitado para ter um bom relacionamento com seu filho que está prestes a nascer.  Edward é um bon vivant, conhece todos e agrada a todos. Seus relatos encantam e fascinam. Ele é bom no que faz, não é uma coincidência que a primeira lembrança que o longa nos mostra é justamente um “causo de pescador”. É nessa combinação de uma história humana e um universo fantástico que vamos conhecendo Edward Bloom.   

As narrativas e vivências do protagonista são experiências fantásticas. Interpretado por Ewan McGregor em sua versão jovem, Edward descreve cada fato com encanto e fascínio. Quando conhece sua futura esposa Sandra Bloom (Jessica Lange/Alisson Lohman), seu grande amor, o tempo para literalmente em uma linda sequência. Em sua vida ele se envolve com gigantes, bruxas, gêmeas siameses e bagres enormes. Edward foi uma figura grande demais para nosso mundo e para sua própria existência. Em um belo paralelo, construído pelo filme, percebemos que esse “peixe grande” não cabe em seu “aquário”. Quando se vê próximo ao fim, ele teme secar. E o que mais lhe aflige é a impossibilidade de se movimentar e continuar a viver novas histórias. 

Ao longo da trama Will parece perceber que ele não deve ressentir as histórias do pai. Quando as julga como mentiras, ele deixa de lado o aspecto mais importante delas. Querer conhecer o verdadeiro Edward Bloom é ignorar que nossas memórias e percepções nos definem. Os relatos dos fatos de toda uma vida, fantasiosos ou não, nos mostram suas vontades, seus objetivos, sua forma de pensar e de ver o mundo.  Sabemos como é a personalidade de Edward. As “Histórias Maravilhosas” do título não escondem como é o verdadeiro protagonista, e sim, o definem como ele realmente é.

É participando desse mundo fantasioso, cheio de viva e apaixonante que seguimos na narrativa do filme. A fotografia de Philippe Rousselot cria um universo inventivo e deslumbrante, cada sequência recebe o tratamento adequado. E são várias, terror, humor, suspense, estranhamento, romance, dentre outras. O diretor Tim Burton sabe conduzir muito bem a história por todos esses cenários. Ewan McGregor apresenta o protagonista sempre sorrindo e autoconfiante. Uma ótima escolha e caracterização. Albert Finney demonstra como o fim da vida e a impossibilidade de viver novas aventuras incomodam Edward. Alison Lohman, a versão jovem de Sandra e Jessica Lange, a versão mais madura. São pouco exploradas na obra e se resumem ao grande amor do protagonista.

Por mais egocêntrico que o protagonista de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” seja, ele nunca se esqueceu de que os acontecimentos literais de sua vida pouco importam. Suas narrativas fantasiosas traduzem a realidade de uma forma bonita, cativante e interessante. As histórias são poderosas, dizem verdades e mudam as nossas vidas.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Clube dos Cinco (1985)

Em virtude de terem cometido pequenos delitos, cinco adolescentes são confinados no colégio em um sábado, com a tarefa de escrever uma redação de mil palavras sobre o que pensam de si mesmos. Apesar de serem pessoas completamente diferentes, enquanto o dia transcorre eles passam a aceitar uns aos outros, fazem várias confissões e tornam-se amigos.

97 min – 1985 – EUA

Dirigido por John Hughes. Roteirizado por John Hughes. Com Judd Nelson, Ally Sheedy, Emilio Estevez, Molly Ringwald, Anthony Michael Hall e Paul Gleason.

Um grupo de pessoas isoladas que eventualmente começa a conversar. No meio de conflitos, brigas e intrigas, verdades são ditas. Eles acabam com um novo olhar sobre cada um deles e sobre si mesmos. John Hughes aplica esse contexto a adolescentes. Garotas e garotos que aparentam não ter nada em comum, e que, na verdade, não querem ter nada em comum com os diferentes arquétipos ali representados.  Isso, pelo menos, inicialmente. 

Hughes era um nome comum no cinema dos anos oitenta. Ele foi o responsável pelo roteiro de clássicos como “Esqueceram de Mim” e “Férias Frustradas”. Dirigiu e escreveu um dos melhores filmes de comédia da época “Antes Só do que Mal-Acompanhado”. Mas a sua habilidade em criar jovens com credibilidade e verossimilhança o tornou um mestre do cinema adolescente. Ele foi o diretor e roteirista de obras como “Gatinhas e Gatões”, “Mulher Nota Mil”, “A Garota de Rosa Shocking” e  “Curtindo a Vida Adoidado” o mais famoso. Seus filmes fizeram sucesso e influenciaram gerações. É verdade que alguns desses filmes não envelheceram tão bem, principalmente na forma como, o machista cinema dos anos oitenta, retratava as mulheres. Porém, “Clube dos Cinco”, para mim, ainda permanece uma de suas melhores e mais profundas obras. 

Tudo acontece em um sábado. Cinco jovens que violaram as regras do colégio tem que passar o dia em detenção “presos” na biblioteca da escola. O filme começa com uma citação do David Bowie que já nos apresenta uma ideia do que está por vir. Logo presenciamos a chegada desses garotos. A entrada de cada um deles é importante por que nós apresenta seu relacionamento com os pais. Quando estão todos dentro da biblioteca, o grupo de estereótipos adolescentes está formado. O “marginal” durão   John Bender (Judd Nelson). A esquisita e insegura Allison Reynolds (Ally Sheedy) que se esconde atrás de seus cabelos e roupas. O atleta da equipe de luta da escola Andrew Clarke (Emilio Estevez). A patricinha e rainha da formatura Claire Standish (Molly Ringwald) e o nerd estudioso Brian Johnson (Anthony Michael Hall). O que vemos, inicialmente, são pré julgamentos e atritos entre eles. Ao longo do dia eles interagem e acabam percebendo muitas semelhanças escondidas nas diferenças das “personas” de cada um. É nessa desconstrução de arquétipos que John Hughes aborda temas e tabus do universo daqueles jovens. 

“Clube dos Cinco” faz com que aos poucos seus personagens se libertem das máscaras que lhe são impostas por respectivos grupos. Literalmente eles vão se despindo. Já que, a medida em que se abrem vão tirando peças de roupa, enquanto passam a se enxergar uns nos outros. Roupas que dizem muito da forma com um enxerga o outro e como os adultos enxergam aquele grupo. É uma obra construída a partir de diálogos, olhares e gestos. Os atores estão todos muito bem e entregam exatamente o que se se espera das personas que estão representando e no momento de desconstrução são hábeis em passar importantes sentimentos e sensações com olhares e pequenos gestos.  Bender acaba tendo mais destaque, uma vez que ele é o agente do caos, o elemento catalisador para que toda a interação aconteça. Ao rever hoje incomoda o arco da personagem Alisson que passa por uma grande mudança visual ao final do longa. Aí sim, ela é aceita por completo pelo grupo. O diretor do colégio Richard Vernon (Paul Gleason) é o único personagem unidimensional, é a representação do adulto burocrático e chato. O que me parece uma opção proposital, para os garotos ele é o retrato do conformismo e a demonstração da falta de empatia e compreensão do mundo em que eles vivem. Sua própria caracterização demonstra isso, um terno antigo e uma camisa preta. Roupas sem cor, sem carisma e identidade. 

A trilha sonora imortalizou “Don’t You (Forget About Me)”, da banda Simple Minds. E ainda contou com vários outros sucessos da época trazendo o clima exato para uma obra divertida e emotiva. Deixa também o filme mais dinâmico, uma vez que se passa praticamente em um único ambiente e com um pequeno elenco. Nisso a edição é fundamental, com longos movimentos de câmera em momentos reflexivos, cortes rápidos nas sequências cômicas (Temos ali uma homenagem ao Scooby Doo?) e câmera estática e sem cortes em momentos de vulnerabilidade. 

Poucos filmes dialogam tão bem com os jovens (E comigo) como “Clube dos Cinco”. Talvez o impacto em mim seja por ter visto a obra na idade correta durante as “tardes de cinema” em casa. Revendo o filme hoje aos trinta e três anos de idade ainda me sinto impactado e consigo ver pedaços da minha versão jovem representados em cada um daqueles adolescentes. (E da versão adulta também.)  Fato é, que são poucas as tentativas de refletir sobre os jovens, seus dilemas e suas problemáticas. Esse sábado de detenção marcou gerações de garotas e de garotos, o cinco protagonistas mesmo que por um dia se libertaram das pressões diárias e dos preconceitos. E juntos assinaram um dos mais importantes manifestos do cinema: 

“Você nos enxerga como você deseja nos enxergar. Em termos mais simples e com as definições mais convenientes.”

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – Rede de Ódio – Netflix (2020)

Em Rede de Ódio, um jovem passa a fazer sucesso incitando o ódio em campanhas nas redes sociais, atacando desde influenciadores virtuais a políticos renomados. O que ele não contava é que toda essa crueldade no mundo virtual cobraria seu preço no mundo real, complicando sua vida.

135 min – 2020 – Polônia

Dirigido por Jan Komasa. Roteirizado por Mateusz Pacewicz. Com Maciej Musialowski, Vanessa Aleksander, Danuta Stenka, Jacek Koman, Agata Kulesca, Maciej Stuhr.

“Rede de Ódio” é o novo filme exclusivo da Netflix, e a segunda obra do diretor polonês Jan Komasa que também dirigiu “Corpus Christi” indicado ao  Oscar de Melhor Filme Internacional em 2020.  A obra é ambientada nos bastidores de uma rede de criação e distribuição de fake news. Utiliza disso para discutir sobre os efeitos da manipulação de informação digital e disseminação de discursos de ódio. Incita um debate sobre a polarização política, a intolerância e comportamentos nocivos. Em uma trama que aproveita desse cenário para construir um ótimo suspense, onde acompanhamos um protagonista ambicioso e inteligente. Um personagem frio e sagaz que não hesita em executar ações completamente questionáveis.

Quando somos apresentados a Tomasz Giemza (Maciej Musialowski) ele está sendo jubilado da universidade de direito por plágio. Ele é um jovem do interior que têm seus estudos pagos por Robert (Jacek Koman) e sua esposa Zofia (Danuta Stenka). Tomasz tem uma paixão não correspondida pela filha do casal a Gabi Krasucka (Vanessa Aleksander). O que ele quer é conquistar Gabi e cair nas graças da família. A vida do protagonista muda, quando ele consegue um emprego numa agência de marketing com foco em destruir reputações e pessoas. É uma premissa simples que o roteirista Mateusz Pacewicz sabe aproveitar ao máximo. Tomasz é uma pessoa que deseja atenção e poder, e seu ambiente natural parece ser o ódio e a intolerância muito presente nas redes sociais.  É um sociopata que passa a unir seu trabalho inescrupuloso as suas intenções narcisistas. Durante a obra acompanhamos a construção psicológica do protagonista, ele inicia o longa como um infrator de plágio e termina como alguém que não exita em cometer qualquer tipo de crime para conquistar seus objetivos. É um ótimo trabalho de Maciej Musialowski, uma atuação baseada em detalhes e pequenos gestos. Seus olhos sempre vidrados nas telas observando as redes sociais também nos mostram o prazer do personagem em manipular pessoas e sair impune de suas terríveis ações. 

Enquanto caminhamos junto de Tomasz e conhecemos seu psicológico quebrado, também adentramos no mundo das fake news e da manipulação online de informação e de pessoas. Um ambiente cruel que vai nos fazer refletir sobre o contexto polarizador em que vivemos, a cultura de cancelamento de pessoas e celebridades, homofobia, intolerância e o discurso de ódio. São questões complexas e atuais que o roteiro sabe tirar proveito nesse impactante thriller. “Rede de Ódio” demonstra que sabe muito bem o que está fazendo quando coloca seu personagem principal caminhando pelos dois lados da polarização criada. O roteiro tem o cuidado de gerar uma pequena simpatia por seu protagonista, mas não para justificar seus atos e sim para evitar o cansaço que poderíamos sentir ao acompanhar alguém tão egoísta e repugnante. Afinal sempre que chegamos próximos de um sentimento de empatia por Tomasz ele toma uma atitude terrível sem demonstrar remorso. Em algumas sequências a obra adota uma curiosa montagem que coloca momentos de passado e de presente em paralelo, que aumenta ainda mais a dualidade de Tomasz. Além de gerar uma proposital desorientação, nessa interessante reflexão sobre mentira e impunidade que a produção apresenta. 

A trama acaba facilitando a vida de seu personagem principal em alguns momentos e, por ser uma obra ficcional, sua narrativa toma algumas liberdades e comete alguns exageros. Sua ascensão política é rápida e fácil, em alguns momentos Tomasz consegue entrar em casas, clubes e prédios com tranquilidade. Mas não é algo que cause impacto na suspensão de descrença do espectador. O encerramento é ousado e poderoso. A fragilidade do “final feliz” está estampada no olhar do protagonista e se confirma pelo enquadramento final do diretor Jan Komasa que emoldura seu personagem principal como antes observamos uma de suas vítimas. “Rede de Ódio” é um filme para se assistir, pensar, debater e refletir. 

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Top Gun – Ases Indomáveis (1986)

Em Top Gun – Ases Indomáveis, Pete Mitchell (Tom Cruise), um jovem piloto, ingressa na Academia Aérea para se tornar piloto de caça. Lá, ele se envolve com Charlotte Blackwood (Kelly McGillis), uma bela mulher, e enfrenta um competidor à sua altura (Val Kilmer).

110 min – 1986 – EUA

Dirigido por Tony Scott. Roteirizado por Jim Cash, Jack Epps Jr. (baseado em artigo de Ehud Yonay). Com Tom Cruise, Kelly McGillis, Val Kilmer, Anthony Edwards, Tom Skerritt, Michael Ironside, John Stockwell, Tim Robbins, Whip Hubley, Meg Ryan.

Quinze de julho “Top Gun: Ases Indomáveis” chegou ao acervo da Netflix. O longa é uma das mais influentes e celebradas produções dos anos oitenta.  Engraçado pensar que cresci assistindo, nas “tardes de cinema”, esse filme que chegou às telonas em 1986, o mesmo ano em que eu nasci. Trinta e três anos se passaram e chegamos a 2020. Ano em que temos trailer e a estreia marcada, vinte e cinco de dezembro, para a tão aguardada continuação “Top Gun: Maverick”. Dessa maneira se tornou obrigatório reassistir e escrever sobre “Top Gun”. Se é que eu precisava de alguma desculpa para isso. Depois de rever a produção, que transformou Tom Cruise em um astro, me pergunto: Será esse o motivo de todos os meus óculos escuros terem o modelo aviador? Aliás, o óculos de grau que uso neste momento é um modelo aviador.

O diretor Tony Scott apresenta sequências de ação bem filmadas e empolgantes. São manobras radicais de caças bem executadas. Em terra temos rixas e desavenças no vestiário masculino e um romance proibido entre aluno e instrutora. Efeitos sonoros de qualidade e uma trilha eficaz e inesquecível, pontuam a obra. Não foi atoa que “Take My Breath Away” da banda Berlin, ganhou o Oscar de melhor canção original. Junto a ela temos uma ótima seleção: “Danger Zone” de Kenny Loggins, Tom Cruise cantando “You’ve Lost that Lovin’ Feelin” e o que dizer de “Great Balls of Fire” de Jerry Lee Lewis, em um momento de união dos personagens. Creio que nem preciso mencionar aqui “Top Gun Anthem”. Está bem, preciso sim! Uma música instrumental com um solo de guitarra que balança o coração já no primeiro acorde. Completando todo esse cenário, a fotografia de  Jeffrey L. Kimball constantemente coloca em tela silhuetas ao pôr do sol alaranjado em praias, aeroportos e porta aviões. Sim, é brega. E é o brega bem feito.

Na trama acompanhamos Pete “Maverick” Mitchell (Tom Cruise) e seu parceiro Nick “Goose” Bradsaw (Anthony Edwards) que recebem uma chance de entrar na escola para pilotos de elite, projeto conhecido como “Top Gun”.  Na academia existe uma disputa interna, para ver quem vai atingir a melhor pontuação na formatura e ganhar o título de piloto “Top Gun”. Aí surge uma das mais famosas rivalidades do cinema, Maverick enfrenta Iceman (Val Kilmer) que é apontado como o melhor piloto da academia. Em meio a isso o protagonista se envolve romanticamente  com a instrutora  Charlotte Blackwood (Kelly McGillis). Um elenco famoso que ainda conta com uma pequena e boa participação de Meg Ryan como Carole Bradshaw, a esposa de Goose. 

O trabalho de atuação se resume a poses descoladas e sedução. São vários os diálogos e interações que não parecem naturais. As conversas entre Maverick e Iceman se resume a troca de frases de efeito em meio a vários sorrisos e uma aparentemente tensão sexual. Um exemplo da preocupação do longa com a sensualidade, é a famosa sequência de vôlei na praia. A cena pode até servir um propósito narrativo de mostrar os pilotos interagindo ou de evidenciar a rivalidade entre o protagonista e antagonista também fora da academia. Mas na prática parece uma manobra de roteiro para colocar jovens sarados, suados e sem camisa em mais uma demonstração de uma boa fotografia de Kimball. A cena acaba se mostrando necessária, apenas por nos apresentar um aperto de mão maneiro e descolado. O roteiro de Jim Cash e Jack Epps Jr. coloca Maverick como um piloto perigoso, um gênio imprevisível que pode colocar seus colegas em risco. Tenta relacionar isso a um drama pessoal. Seu pai, que também foi piloto, desapareceu durante uma missão. Mas esse trauma apenas aparece em cena quando necessário, não é desenvolvido a ponto de criarmos uma conexão com o personagem. Nem serve para impulsionar o arco narrativo de Maverick. Surge como uma muleta para ajudar a trama a caminhar adiante.

“Top Gun – Ases Indomáveis” têm como ponto forte as ótimas cenas de ação. Câmeras dentro e fora dos caças nos colocam no meio dos vôos e combates. A direção e  fotografia impressionam ainda hoje, trinta e três anos depois. São sequências de ação e suspense produzidas praticamente sem a ajuda de efeitos de computação gráfica. Sentimos a adrenalina e uma sensação de perigo real. Junte isso a um protagonista carismático, que permitiu Tom Cruise mostrar ao mundo que ele poderia carregar um filme. Uma trilha sonora inspirada e eficaz. Fechando com tretas de homens de cueca em vestiário masculino. É um sucesso. Brega, mas um brega bem feito.     

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – WiFi Ralph: Quebrando a internet (2018)

Em WiFi Ralph, o mais famoso vilão dos videogames, Ralph, e Vanellope, sua companheira atrapalhada, iniciam mais uma arriscada aventura. Após a gloriosa vitória no Fliperama Litwak, a dupla viaja para a world wide web, no universo expansivo e desconhecido da internet. Dessa vez, a missão é achar uma peça reserva para salvar o videogame Corrida Doce, de Vanellope. Para isso, eles contam com a ajuda dos “cidadãos da Internet” e de Yess, a alma por trás do “Buzzztube”, um famoso website que dita tendências.

112 min – 2018 – EUA

Dirigido por Rich Moore, Phil Johnston. Roteirizado por Phil Johnston, Pamela Ribon. Com John C. Reilly, Sarah Silverman, Gal Gadot, Taraji P. Henson, Jack Mcbryer, Jane Lynch, Alan Tudyk, Alfred Molina, Ed O’Neill, Bill Hader, John DiMaggio, Irene Bedard, Kristen Bell, Jodi Benson, Auli’i Cravalho, Jennifer Hale, Kate Higgins, Linda Larkin, Kelly Macdonald, Idina Menzel, Mandy Moore, Paige O’Hara, Pamela Ribon, Anika Noni Rose, Ming-Na Wen, Roger Craig Smith.

“WiFI Ralph: Quebrando a internet” chegou aos cinemas em 2018, cinco anos após o ótimo “Detona Ralph”. O primeiro longa da dupla Ralph (John C. Reilly) e a Vanellope (Sarah Silverman) retratou com inventividade e criatividade o mundo dos video-games. Em sua segunda empreitada os protagonistas deixam de lado os games e nos proporcionam uma imersão ao “mundo” da internet. Aqui está o ponto mais forte da obra que com criatividade consegue retratar o irretratável. Ver em tela de forma concreta  conceitos abstratos como motores de busca, redes sociais, spams, memes e leilões virtuais é cativante e divertido. É ainda mais interessante que os diretores Phil Johnston e Rich Moore, utilizem desse universo para discutir relações tóxicas. Tanto no mundo online, quanto no mundo real.

A trama é simples e segue uma estrutura de causa e consequência. O jogo da Vanellope estraga, e para salvá-lo Ralph e a garota adentram a web em busca de um novo volante para que o game “Sugar Rush” não seja desligado de vez. Quando encontram a peça um novo problema surge e eles têm que lidar com suas consequências e resolvê-lo. Outro fator que nos prende no longa, além das representações e metáforas para as estruturas, comportamentos e as menções às grandes marcas da internet, é o carisma dos protagonistas.  Assim seguimos até o final do segundo ato, a partir do qual adentramos em uma nova trama, que até então, apenas havia sido sugerida. Assistimos a um segundo filme, que discute relações tóxicas e qual a real função de uma amizade. Ambos momentos são interessantes e trazem reflexões importantes, mas a partir do terceiro ato o problema inicial já está resolvido e seguimos uma nova estrutura, que nos coloca novas discussões e um novo conflito. Esse segundo filme acaba em um clímax grandioso e exagerado. Uma resolução confusa, perdida e um pouco entediante. A sorte é que já estamos presos na trama pela inventividade e criatividade dos atos anteriores. 

O que impressiona mesmo é o design de produção que retrata a internet como uma megalópole. Os grandes site são arranha-céus, sistemas de busca são grandes bibliotecas e a Deep web um terreno abandonado e sombrio. As representações de spam, pop-out e adblock são ótimas gags visuais. Passamos pelo site da Disney. É um momento deslocado e alheio a trama, mas que tem uma sequência ótima de interação entre Vanellope e as princesas.  Uma desconstrução das princesas da Disney e uma nova caracterização tão interessante que merecia um filme próprio. A obra ainda traz uma crítica sutil aos comportamentos impulsivos, destrutivos e predatórios da web. Em um determinado momento Ralph entra em uma sala e a trilha sonora muda, ela já nos indica que estamos em um ambiente inóspito e sombrio. É a sessão de comentários, um lugar tóxico e que têm um efeito negativo sobre ele.   

“WiFI Ralph: Quebrando a internet” é divertido, inventivo e criativo. Traz novos conceitos, como o das princesas que não precisam ser salvas, e debates interessantes sobre amizade, relacionamentos tóxicos e comportamentos na internet.  

Obs. São duas cenas pós créditos, e ambas são imperdíveis.

Nota do Sunça:

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Sunça no Cinema – Toy Story 4 (2019)

Agora morando na casa da pequena Bonnie, Woody apresenta aos amigos o novo brinquedo construído por ela: Forky, baseado em um garfo de verdade. O novo posto de brinquedo não o agrada nem um pouco, o que faz com que Forky fuja de casa. Decidido a trazer de volta o atual brinquedo favorito de Bonnie, Woody parte em seu encalço e, no caminho, reencontra Bo Peep, que agora vive em um parque de diversões.

100 min – 2019 – EUA

Dirigido por Josh Cooley. Roteirizado por Andrew Stanton, Stephany Folsom. Com Tom Hanks, Tim Allen, Annie Potts, Tony Hale, Keegan-Michael Key, Madeleine McGraw, Christina Hendricks, Jordan Peele, Keanu Reeves, Ally Maki, Jay Hernandez, Lori Alan, Joan Cusack, Bonnie Hunt, Kristen Schaal, Emily Davis, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Blake Clark, June Squibb, Carl Weathers.

Em 1995 “Toy Story” chegou aos cinemas. Com nove anos de idade, me identifiquei com Woody e seus dilemas. Em sua primeira “aventura” o cowboy aprendia a lidar com as mudanças da vida, novos relacionamentos e amizades. Quatro anos depois nosso amado xerife aprendeu sobre o valor de seu passado e conheceu novos brinquedos. Tudo isso, enquanto buscava por seu lugar no mundo. Onze anos se passaram, e eu, já aos vinte e quatro anos de idade e formado na faculdade, me peguei chorando com Woody quando ele lidava com a efemeridade da vida, lutava por suas crenças e ideais e tentava manter sua família unida. Em 2019 assisti pela primeira vez a busca de autoconhecimento e a tentativa do cowboy de descobrir seu real propósito na vida. Aos trinta e dois anos de idade “Toy Story 4” me mostrou que eu cresci e amadureci ao lado do meu amigo Woody. E que a franquia “Toy Story” não é sobre a saga dos brinquedos de Andy. É sobre a história de Woody, sua devoção a Andy e a seus amigos. Acompanhamos suas tentativas em encontrar e cumprir a sua função no mundo.     

Quando Andy doou seus brinquedos para Bonnie (Madeleine McGraw), na época, soou como o final perfeito. Mas não demoramos a perceber que nosso protagonista está com problemas. Woody (Tom Hanks) tem ficado “esquecido” no armário nos momento em que a garota inventa suas histórias e cria seus mundos. A heroína de Bonnie é Jessie (Joan Cusack) que chega até a usar o distintivo de Woody durante suas brincadeiras. O cargo de líder dos brinquedos naturalmente ficou para a boneca Dolly (Bonnie Hunt) um brinquedo mais antigo da menina. Aqui já percebemos que está acontecendo um importante, e necessário, crescimento nas lideranças femininas. Um reflexo de nossa sociedade que têm caminhado nessa direção. Tudo isso se comprova com o retorno de Betty (Annie Potts) a mocinha indefesa das brincadeira de Andy, é agora um brinquedo sem dono. Ela é independente, forte e segura de si. Alguém que encontrou seu lugar  no mundo. E dessa vez, é Betty que resgata Woody. Literalmente, emocionalmente e psicologicamente.   

Mesmo deixado de lado por Bonnie o xerife não desiste de sua “função” e luta de forma obstinada pela felicidade da menina. Ele acaba encontrando refúgio em uma outra obrigação, cuidar do novo queridinho da menina, o Garfinho (Tony Hale). Personagem que chega trazendo ainda mais crises existenciais para a obra. Ele que não se considera nada mais do que lixo se une ao complexado e inseguro Duke Caboom (Keanu Reeves), a obcecada em ser amada Gabby Gabby (Christina Hendricks) e o perdido Woody.  O cowboy tenta convencer Garfinho que ele é mais do que apenas lixo. E assim, entra em uma jornada de autodescobrimento que vai envolver todas essas discussões existenciais mencionadas. Sempre com bom humor e sem perder a leveza de uma produção destinada a toda família.  

O diretor Josh Cooley é inventivo e conduz a narrativa de forma dinâmica, com boas gags visuais, piadas verbais, humor de repetição e subversão. Sabe trazer referências visuais e de estilo das obras anteriores e também o momento certo de subverter conceitos antigos. Faz acenos a clássicos do cinema, como por exemplo “O Iluminado” não apenas com a canção “Midnight, the Stars and You” no antiquário, mas também com todo o clima de terror e medo nas sequências que envolvem os terríveis bonecos ventríloquos. O roteiro de Andrew Stanton e Stephany Folsom merece destaque por saber não só dar sequência a principal franquia da PIXAR, mas por conduzi-la a novos caminhos, introduzir novas ideias e evoluir. Ainda assim ele perde força em alguns momentos, a obrigação de encontrar funções narrativas para os inúmeros personagens secundários criam sequências que não justificam seu tempo em tela.  

É triste perceber que personagens importantes como por exemplo Buzz Lightyear (Tim Allen) não ganham papel de destaque neste quarto capítulo. O arco dramático de Buzz se resume a ouvir sua própria voz, o que gera boas piadas, mas seria bom ver mais do patrulheiro espacial. Vale destacar que enquanto Buzz tenta escutar sua “voz interior”, Woody abre mão da sua em prol de sua obstinação para recuperar Garfinho, Betty entoa sua voz firme e forte ao longo de toda a projeção e a “vilã” busca apenas encontrar sua própria voz. Os novos personagens são ótimos e vêm para agregar. Além do maravilhoso Duke Caboom temos o Ducky (Keegan-Michael Key) e o Bunny (Jordan Peele) que roubam a cena sempre que lhes é dada a oportunidade. E o que dizer do insano unicórnio Buttercup (Jeff Garlin)? 

“Toy Story 4” nos emociona com força em seus momentos finais. É difícil segurar as lágrimas diantes dos inevitáveis acontecimentos e encerra com maestria mais um de nossos ritos de passagem. Woody percebe o erro em sua excessiva devoção. Ele aprende que sua função e o que o define não deve ser vinculado aos desejos de outros, ou ao reconhecimento dado por outros. 

Sigo fascinado pelos quatro filmes da franquia e espero poder continuar crescendo e amadurecendo com o meu amigo Woody. 

Nota do Sunça:

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Sunça no Streaming – Destacamento Blood – Netflix (2020)

Destacamento Blood acompanha um grupo de quatro veteranos de guerra afro-americanos que retornam ao Vietnã buscando os restos mortais do líder de seu antigo esquadrão e de um tesouro enterrado, tentando encontrar suas inocentes perdidas pelo caminho.

154 min – 2020 – EUA

Dirigido por Spike Lee. Roteirizado por Danny Bilson, Paul De Meo, Kevin Willmott, Spike Lee. Com Chadwick Boseman, Jean Reno, Paul Walter Hauser, Delroy Lindo, Jasper Pääkkönen, Mélanie Thierry, Van Veronica Ngo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Isiah Whitlock Jr., Norm Lewis, Rick Shuster, Casey Clark, Alexander Winters, Mav Kang.

“Destacamento Blood”, novo filme do cineasta Spike Lee, relaciona traumas de guerra com desigualdade racial e o imperialismo norte-americano. A obra começa com uma frase de Muhammad Ali e se encerra com um discurso de Martin Luther King. O diretor opta por colocar essas duas figuras importantes na busca pela igualdade de direitos civis, em momento que se pronunciavam contra a guerra do Vietnã. Ali teve problemas em sua carreira devido sua postura de oposição à guerra e Martin Luther King acabou sendo assassinado um ano após um de seus mais famosos pronunciamentos também contrário à guerra. “Destacamento Bood” é um filme atual, cidadãos afro americanos continuam sofrendo de brutalidade do governo dos EUA. O exemplo mais recente é o assassinato de George Floyd por um policial branco na cidade de Minneapolis. Vidas negras importam e essa é uma das fundamentais discussões que o novo filme de Lee aborda.

Quatro veteranos da guerra voltam ao Vietnã com autorização do Pentágono e do governo vietnamita para resgatar o corpo de seu comandante que faleceu durante a guerra no meio da selva. Os cinco negros formavam o grupo conhecido como Bloods. O comandante (Chadwick Boseman), apelidado de Stormin’ Norman pelo batalhão, é sempre mencionado com respeito e reverência, é um herói. O grupo é formado pelo soldado-médico Otis (Clarke Peters), o engraçado Eddie (Norm Lewis), o debochado Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e Paul (Delroy Lindo) um personagem complexo, controverso e interessante. É com esse grupo que Spike Lee faz suas homenagens e críticas ao cinema de guerra dos EUA. “Apocalypse Now” recebe várias homenagens desde seu nome escrito em tela até recriações de cenas e sequências. As críticas ficam para filmes como “Os Boinas-Verdes” dirigido e estrelado por John Wayne, “Rambo” e até o Chuck Norris. O longa chega a colocar um de seus personagens comentando como Hollywood tentou vencer a guerra nos cinemas e também como nas telonas a guerra é sempre protagonizada por brancos. Ainda que 32% dos soldados que lutaram na selva fossem negros. 

O roteiro é esperto ao adicionar o elemento ganância a trama. Além de resgatar os restos mortais de Norman, os bloods também buscam  quase dezessete milhões de dólares em barras de ouro. Assim Spike Lee cria mais um subtexto e traz uma reflexão sobre imperialismo norte americano. O grupo protagonista pretende construir sua riqueza utilizando guerra e violência. As reflexões e discussões propostas não são gratuitas. Ajudam na narrativa e desenvolvem os personagens do longa. Assim como no clássico “ O Tesouro de Sierra Madre” do diretor John Huston percebemos o impacto dessa futura riqueza em cada um dos personagens e como a ganância pode moldar comportamentos e destruir amizades e relacionamentos.  

Durante a obra temos saltos temporais. Acompanhamos o grupo no presente e temos alguns flashbacks deles durante a batalha. A guerra acaba para os países e suas relações internacionais, mas nunca para seus soldados que carregam marcas físicas e psicológicas o resto de suas vidas. Percebemos o fardo que os personagens carregam, a dificuldade em retornar à vida “normal” e relações familiares, o personagem David (Jonanthan Majors) filho de Paul ilustra bem isso e serve como um contraponto ao grupo de ex combatentes. O diretor também nos mostra de maneira visual como seus protagonistas nunca saíram da luta, ele os representa nos flashbacks com o mesmo físico do presente. Os quatro boods restantes também demonstrantam as divergências existente dentro de um mesmo grupo. É nesse momento que Paul acaba ganhando mais destaque, sua paranoia e dor o impossibilita de perceber quem é o verdadeiro inimigo e o faz buscar refúgio e demonstrar lealdade justamente por aqueles que ele deveria se opor. Delroy Lindo apresenta uma ótima performance com direito a dois monólogos de emocionar. E se um boné serve como elemento narrativo para mostrar a diferença ideológica dos personagens, vê-lo ressurgir em cena a cada nova tragédia com os dizeres “Make America great again” é uma mensagem fortíssima. 

Spike Lee alinha sua narrativa ficcional a imagens reais da guerra e de personagens históricos importantes. O longa traz peças documentais chocantes e emocionantes. Durante os momentos “históricos” a obra opta por uma razão de aspecto de 4:3, quanto estamos no “presente” a razão de aspecto assume o seu formato padrão de widescreen. O diretor de fotografia Newton Thomas cria diferentes tratamentos de cor, luz, saturação e granulação da imagem para cada época retratada. Tudo é muito bem filmado, planejado e montado. Na trilha sonora, e até no próprio texto do filme, Marvin Gaye se destaca. O compositor Terence Blanchard sabe incluir Gaye em momentos chave e também pontuar a projeção com elementos de guerra e de crítica a guerra. Ele cria e ameniza a tensão nos tempos certos. Até mesmo a ópera de Richard Wagner, Cavalgada das Valquírias, surge quando o grupo parte para a busca do tesouro. Em um dos vários acenos a “Apocalypse Now”. “Destacamento Blood” é um divertido e violento filme de ação. Têm um ótimo equilíbrio de comédia, drama e suspense. A obra alcança um patamar mais elevado ao trazer discussões e reflexões importantes. Um garoto vietnamita sem uma perna traça um paralelo com as minas terrestres deixadas pelos EUA no Vietnã. E mostra como anos depois a política internacional norte-americana ainda causa estragos. Um personagem que leva sua visão imperialista as últimas consequências causa a destruição de tudo e todos ao seu redor. Iniciar a obra com Muhammad Ali fazendo uma comparação entre cidadãos vietnamitas e os negros enviados para combatê-los e encerrar com as palavras de Langston Hughes no discurso de Martin Luther King: “América nunca foi a América para mim, e ainda assim eu juro… América será! ” é uma mensagem direta e profunda.

Nota do Sunça:

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