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Borat: Fita de Cinema Seguinte é a sequência do longa de sucesso Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América. O longa foi filmado na quarentena e conta mais uma história do icônico jornalista do Cazaquistão.

96 min – 2017 – EUA / Reino Unido

Dirigido por Jason Woliner e roteirizado por Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Dan Swimmer, Peter Baynham, Erica Rivinoja, Dan Mazer, Jena Friedman e Lee Kern. Com Sacha Baron Cohen, Maria Bakalova, Tom Hanks, Dani Popescu, Manuel Vieru, Miroslav Toji, Alin Popa.

A alguns anos atrás, o discurso de ódio, a intolerância e o preconceito eram velados. Hoje, são ditos e escritos abertamente. Não é difícil encontrá-los intrinsecamente ligado à política, religião e grupos sociais. A ciência é negada, o “achismo” vale mais do que o fato e a moralidade não importa mais.  É nesse contexto que Borat Sagdiyev (Sacha Baron Cohen) retorna. A nova empreitada, lançada pela plataforma de streaming Amazon Prime Video, é “Borat: Fita de Cinema Seguinte”. Em sua primeira aparição, o desafio do jornalista cazaquistão era escancarar e trazer a tona o preconceito, a intolerância, o racismo e a homofobia das pessoas com quem interagia. Quatorze anos se passaram desde o primeiro longa “Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América”. E agora, na sequência Borat e sua filha Tutar (Maria Bakalova) logo percebem que não é preciso muito esforço para trazer a tona todo esse discurso de ódio. Basta trocar algumas frases certeiras e as pessoas, mesmo sabendo da presença da câmera, não têm o menor pudor de dizer atrocidades. A obra sabe disso. Logo de início em uma rápida montagem vemos Trump e suas amizades pelo mundo, uma demonstração de como nosso planeta está cada vez mais intolerante. Se esta conversa lhe parece familiar, é porque é. Não à-toa o Brasil está representado nessa montagem na figura de Bolsonaro.

É nesse contexto, onde uma vendedora de bolo não tem problemas em escrever uma frase antissemita no produto, um pastor se preocupa mais com um aborto do que com o abuso sexual de um pai e um medico que assume não ter problemas em cometer um assedio a uma adolescente de 15 anos, que Borat recebe sua nova missão. Após ter feito seu país virar motivo de piada no mundo inteiro com o primeiro filme, o jornalista passou quatorze anos preso. Ele é convocado por seu governo para uma importante missão. Borat é encarregado de entregar um macaco de presente a Mike Pence o vice-presidente dos Estados Unidos, com o objetivo do Cazaquistão cair nas graças de Donald Trump. Um cara que eles idolatram. Quando o macaco tragicamente sai de cena, sua filha Tutar passa a ser a oferenda. O diretor Jason Woliner e Sacha Baron Cohen não escondem as intenções anti-Trump que a obra se propẽ, mas atingem algo muito maior com essa sequência onde realidade e ficção se misturam de forma orgânica.  

O sucesso do longa anterior deixou mais difícil a produção desse novo projeto. Borat se tornou uma figura conhecida e cultuada na cultura pop, no início vemos pessoas pedindo autógrafos e perseguindo o cazaquistão. A solução encontrada, é também um grande mérito desse novo trabalho, o jornalista se vê obrigado a usar disfarces e assumir novas personas. É surpreendente ver Sacha Baron Cohen interpretando um personagem que interpreta outros personagens. Borat assume personalidades de vários tipos culminando em uma cena estilo “Missão: Impossível” em que ele adentra uma conferência republicana “disfarçado” de klus klus klan e termina fantasiado de  Donald Trump carregando sua filha nos braços como oferenda a Mike Pence. Uma troca de vestimenta que nos faz refletir.  Em “Fita de Cinema Seguinte” são utilizadas mais cenas roteirizadas, logo, a trama é mais forte e define arcos narrativos para seus personagens. O roteiro trabalha a relação entre o pai e a filha. Maria Bakalova impressiona e assim como Sacha Baron Cohen, nunca sai de seu papel. Mesmo nas situações mais absurdas, loucas e perigosas. Assim acompanhamos pai e filha em momentos de improviso nas situações reais, interações chocantes e as sequências de vergonha alheia. Culminando na “participação” comprometedora do o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, um dos principais aliados de Trump. Tutar expõe os preconceitos que as mulheres sofrem e Borat mostra o discurso de ódio presente nos cidadãos norte americanos. Para isso, ambos colocam suas vidas em risco, um bom exemplo é o momento em que o jornalista cazaquistão canta para uma multidão de supremacistas brancos alcoolizados e armados. 

A obra tem seus momentos de ternura, gentileza e carinho. Um cuidado dos oito roteiristas (Sim, oito) para que o espectador não desista da humanidade. É na caricatura e no exagero que o filme constrói seu humor, nos faz rir pelo desconforto, pelas terríveis realidades que retrata e pelo absurdo que é a sociedade em que vivemos. Quatorze anos depois Borat se mostra ainda necessário, “desenha” a hipocrisia dos discursos de ódio, “escreve” o absurdo que é o negacionismo a ciência (Abordando até mesmo a pandemia de COVID-19 já que ela começa durante as filmagens) e mostra o perigo e poder destruidor das fake news. É assim, desenhando, escrevendo e mostrando que “Borat: Fita de Cinema Seguinte” evidencia a piada de mau gosto que chamamos de mundo. É impressionante, que em meio a tudo isso, o longa ainda tenha tempo para uma das melhores reviravoltas de Hollywood.

Nota do Sunça:

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