Sunça no Cinema – Uma Cilada para Roger Rabbit (1988)


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O detetive de carne e osso Eddie Valiant (Bob Hoskins) é contratado para descobrir o que está acontecendo com o coelho Roger Rabbit e sua mulher Jessica, suspeita de infidelidade. Quando Marvin Acme é encontrado morto, Roger é o principal suspeito do crime no mundo real. Para piorar a situação, um vilão quer acabar de uma vez por todas com Roger, Jessica e todos os desenhos animados.

104 min – 1988 – EUA

Dirigido por Robert Zemeckis. Roteirizado por Jefrey Price e Peter S. Seaman. (Baseado no livro de Gary K. Wolf). Com Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Joanna Cassidy, Charles Fleischer, Stubby Kaye, Alan Tilvern, Joel Silver, Paul Springer, Betsy Brantley, Mel Blanc, Tony Anselmo.

Em 1988 o Sunça de dois anos de idade nem imaginaria que o segundo maior sucesso de bilheteria daquele ano, se tornaria um de seus filmes favoritos. A obra me impactou a ponto de direcionar minha carreira para a área de animação, quadrinhos e ilustração. “Uma Cilada para Roger Rabbit” é o trabalho mais impactante e interessante do diretor Robert Zemeckis. Isso é um grande elogio, uma vez que Zemeckis é um cineasta versátil e inovador. Responsável por filmes como “Forrest Gump: O Contador de Histórias” e a trilogia “De Volta para o Futuro”. O filme é baseado no livro “Who Censored Roger Rabbit?” escrito por Gary K. Wolf. A obra literária é menos engraçada e bem mais sombria, Gary também escreveu duas sequências: “Who P-P-P-Plugged Roger Rabbit?” e “Who Wacked Roger Rabbit”. Em uma tradução livre, os livros seriam: “Quem Censurou Roger Rabbit?”, “Quem atacou Roger Rabbit?” e “Quem Matou Roger Rabbit?”.

Imagine um universo onde humanos e desenhos animados coexistem. O ano é 1947 e estamos em um thriller com muitas reviravoltas, repleto de assassinatos e com muitas traições. É a união da era de ouro da animação com o cinema noir.  No longa o famoso coelho de desenho animado Roger Rabbit (Com a voz original de Charles Fleischer) é acusado de um assassinato que ele alega não ter cometido. Eddie Valiant (Bob Hoskins) é um detetive durão que devido a um trauma do passado não gosta das figuras animadas. Eddie aceita um caso simples de investigar uma suposta traição de Jessica Rabbit (Com a voz original de Kathleen Turner), esposa do coelho, e assim acaba no meio de toda essa confusão. Ele se torna a única esperança de Roger para limpar seu nome. Juntos eles têm que lidar com o Juiz Doom (Christopher Lloyd) que persegue o protagonista e que desenvolveu uma arma capaz de matar os desenhos. 

São personagens marcantes e cativantes, Roger Rabbit e Jessica Rabbit são facilmente reconhecidos e lembrados com carinho por quem assistiu a obra a anos atrás. Eddie Valiant é um personagem complexo em um ótimo trabalho de atuação de Bob Hoskins. A obra tornou possível a maior reunião de personagens de diferentes estúdios. Uma oportunidade única de ver Mickey interagir com Pernalonga e Pato Donald brigar com Patolino.  Steven Spielberg, o produtor do filme, foi o responsável por convencer as empresas a liberarem seus personagens para a Disney. Para isso foi necessário garantir tempo de tela iguais para famosos personagens da Warner e da própria Disney e certificar de que as personalidades de cada um fossem respeitadas. Além de pagar uma enorme quantidade de dinheiro. É uma pena não ter conseguido a liberação em tempo de alguns personagens, seria legal poder contar com o estúdio Terrytoons. A participação de Popeye, Tom e Jerry e outros personagens no filme também seria genial. 

Trinta e três anos depois, o longa ainda impressiona. A união de Zemeckis com Spielberg contou com a fundamental participação de Richard Williams, um grande animador e o diretor de animação do longa. A interação entre as filmagens live-action e as figuras animadas é inovadora, aconteceu em uma época onde efeitos especiais ainda eram extremamente “rústicos”. Com o objetivo de emular as animações clássicas, a equipe decidiu não utilizar computadores e trabalhar com a animação tradicional. São mais de oitenta e dois mil frames, e mais de mil ilusões de ótica, truques de câmera e efeitos práticos. Quando Roger bate a cabeça em uma lâmpada, ela reage ao personagem. Ao balançar a luz se move pelo ambiente e afeta o personagem animado com precisão. Um outro exemplo são as Doninhas que seguram réplicas de armas reais, um trabalho de manipulação das câmeras e efeitos práticos. Não à toa o longa teve seu orçamento estourado e uma pós-produção de quatorze meses.   

O roteiro de Jeffrey Price e Peter S. Seaman funciona para jovens e crianças, mas mira no público adulto. São personagens fofos com várias piadas visuais e físicas. Em um texto inteligente e elegante, note como uma sequência no escritório de Eddie nos revela seu passado, seus traumas e frustrações. O cuidado e a sutileza em que a sequência inicial da obra nos apresenta aquele universo. O trabalho é ligeiramente pesado trazendo por exemplo um detetive alcoólatra e um bebê de desenho animado fumante e misógino. Em camadas mais profundas o argumento sugere importantes discuções, é presente no longa uma crítica a segregação racial da época, apresentando por exemplo nas cenas do bar só para humanos “Ink ‘n’ Paint” nele os cartuns podem apenas servir e/ou participar de apresentações artísticas. Um dos vilões apresenta como plano algo que em suas palavras vai favorecer os “humanos mais abastados”. Subtextos também se fazem presentes em alguns diálogos inspirados como: “Um brinde aos engravatados, que todos morram enforcados” e “Eu não sou má, só sou desenhada assim”.  

“Uma Cilada para Roger Rabbit” é a primeira vista uma comédia noir. Ao assistir é uma experiência visual única, com personagens marcantes e carismáticos e uma trama envolvente e surpreendente. Nos bastidores é uma produção com orçamento inicial de US$29,90 milhões que custou US$70 milhões e arrecadou a segunda maior bilheteria de 1988, US$329,8 milhões. Naquele ano perdeu apenas para “Rain Man”. Um sucesso que levou sete anos para ser produzido. Uma sequência estava em um lento processo de produção, que teve seu fim com a morte de Bob Hoskins aos setenta e dois anos no ano de 2014. “Uma Cilada para Roger Rabbit” permanece assim, uma produção que tinha tudo para não ocorrer, mas que aconteceu e se tornou uma obra prima do cinema.          

Nota do Sunça:

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