Salve-se Quem puder #06 – O Chuveiro e o Sucesso


sunca_bilau

Salve-se Quem puder é um momento de inatividade ociosa onde o Sunça exercita sua exorbitante genitália intelectual abordando os temas mais relevantes para a existência humana.

Na hora do banho, assim como na vida, o ser humano mantêm um de seus comportamentos mais comuns e cotidianos, sua busca implacável e interrupta pelo sucesso. Ser bem sucedido é de crucial importância para nós, somos capazes de tudo ou quase tudo para atingir esse status. Nossa vida (E o que fazemos dela), nossas ações (E como as escolhemos), nossos sentimentos (Como os entendemos/escolhemos/fingimos) e nossos auto-enganos, são pautados por essa procura. O chuveiro sabe muito bem disso, ele se esforça para nos dizer que essa caçada excessiva pelo sucesso não deveria afetar nossa saúde corporal e nossa saúde mental, ele também tenta demonstrar que o máximo que conseguimos com essa perseguição implacável é nos queimar, machucar e um grito frustrado devido a um arrepio gélido que sobe por toda nossa coluna. Os chuveiros sabem das coisas.

É claro que não percebemos isso. Durante um agradável e demorado banho estamos preocupados com os problemas de nosso dia, normalmente causados pela busca incessante do sucesso, estamos preocupados com as contas que temos que pagar, que são extremamente altas e exorbitantes e ironicamente esse tipo de banho demorado e relaxante tão comum em nosso cotidiano é um extremo agravante delas, além de desperdiçar água e energia recursos importantes para nosso planeta. Mas esse tipo de informação é exatamente a que nossos cérebros primatas preferem deixar passar despercebidas. (Muitos entendem o banho como um momento de onanismo, especialmente os adolescentes, mas isso só gera mais desperdício e situações constrangedoras.)  Enquanto nos preocupamos com nossa própria existência o chuveiro se esforça para nos mostrar que estamos encarando a vida de forma errada, e que o caminho que seguimos leva a infelicidade e a frustração. E por um fricote antipático desse game over em looping que chamamos de vida e por sermos seres obtusos na preocupação com o próximo e com o ambiente em que vivemos, essas mesmas tentativas do chuveiro são entendidas por nós como uma falha mecânica/técnica o que nos causa infelicidade e frustração.

Quando estamos no banho utilizamos nossa concentração e habilidade máxima para atingir a temperatura ideal da água. Parece fácil, mas é uma atividade extremamente complexa e para alguns impossível. Girar milimetricamente a torneira de um lado para o outro ou então tentar encontrar a sintonia perfeita entre a torneira de água quente e a da água fria é uma etapa que consome grande parte do tempo destinado ao banho, e quase sempre culmina em uma grande e humilhante derrota. Sempre comemorada por gritos histéricos e agonizantes quando atingidos pela água gélida e/ou gritos de dor e tortura quando atingidos pela água tórrida. É uma atividade que demonstra bem como estamos quase sempre próximos do sucesso e que quando estamos prestes a conquistá-lo fracassamos miseravelmente. Vale ressaltar que muitas vezes fracassamos pelo excesso de tentativa, uma vez que já estamos com a temperatura da água agradável. Só que queremos sempre mais e melhor. Nossa busca pelo sucesso nunca termina e consequentemente nossa infelicidade e nossos banhos gélidos e/ou tórridos também não.

Essa é a nobre criatura que conhecemos como chuveiro. Ela passa o dia esperando pela oportunidade de ser utilizada, esperando para exercer sua função e se possível ser bem sucedida em sua existência. Porém esse nobre ser troca tudo isso por uma inútil oportunidade de tentar nos fazer repensar nossas vidas, atitudes e objetivos. Um banho pode ser relaxante, pode ser frustante, mas pode e deveria ser um aprendizado de vida. Encontrar a temperatura ideal de um bom banho é saber que nem sempre temos controle sobre nossas próprias vidas e que nosso sucesso não deve ser medido pelo o oque achamos que queremos mas pela temperatura que conseguimos calibrar para nosso descanso e relaxamento. Tudo dentro de um tempo aceitável, evitando excessos e desperdícios. Até porque o chuveiro também merece descanso e como não é atendido por leis trabalhistas acaba na maioria das vezes sendo escravizado, mas nunca desiste de tentar passar sua mensagem e nos tornar pessoas melhores. Como são ingênuos.

Bjundas

Ministério do sarcasmo adverte:

Acreditar e/ou levar a sério informações desse texto é um atestado de bestialidade.

 O autor:

sunca_autorFelipe Assumpção Soares é Mestre e Doutorando em auto-sabotagem desde 1986.

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